“Dirigir é como fazer bruxaria’, diz Mauro Mendonça Filho

“Dirigir é como fazer bruxaria’, diz Mauro Mendonça Filho

Sonia Racy

17 Abril 2017 | 00h35

RAMON VASCONCELOS

RAMON VASCONCELOS

Mauro Mendonça Filho, mais conhecido entre os colegas da TV Globo como Maurinho, estreia nesta quinta-feira, 20, a série Vade Retro – “uma comédia dark, noir”, segundo o próprio –, que vai passar sempre às quintas, depois da novela da 21 horas “É o melhor texto que já trabalhei em 30 anos de TV”, diz ele sobre a série, de autoria de Alexandre Machado e Fernanda Young.

Diretor premiado – faturou dois Emmys, pela direção de Verdades Secretas e O Astro – e ousado, ele adverte que, para se consagrar hoje na arte da direção tem que ser autoral – e muito. “Tem que sair da mesmice, fazer algo que chame a atenção. Coisinhas mais ou menos não funcionam mais”, ponderou à repórter Sofia Patsch.

Pai de três meninas, Maurinho elogiou a reação da Globo no episódio que envolveu o ator José Mayer e a figurinista Su Tonani. “Achei a postura da direção muito assertiva. A figurinista foi sensacional, ganhou a admiração de muita gente, inclusive a minha. E o Zé também ganhou ainda mais minha admiração com sua decisão de assumir. O silêncio não pode mais vencer”. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Que surpresas a série Vade Retro vai oferecer aos espectadores?
É o melhor texto que já trabalhei na minha vida em televisão. Escrito pelo Alexandre Machado e pela Fernanda Young, é uma comédia meio dark, noir, sabe? Para mim eles estão entre os 5 melhores autores do Brasil. Um texto atual e ousado. E ao trabalhar esse assunto de Deus vs. Diabo, eles acertaram muito a mão, ficou um roteiro brilhante.

O tema da série é uma crítica à religião católica?
Não! A série lida com a identificação da crença de Deus e o Diabo, que é uma crença concreta para grande parte da população, não só daqui, mas do mundo. Lida com o entendimento do que é o mal, que tem várias vertentes, na verdade, que acabam resumidas em um ser, o Diabo. Moramos em um país religioso, então é difícil fazer comédia em cima desse tema.

Como será caracterizado o Diabo nessa série?
Não vamos mostrar um diabinho camarada, muito longe disso. O Tony Ramos dará vida a uma figura nefasta mesmo, mas em tom de comédia. Uma comédia com suspense, coisa meio dark. A proposta é diferente, se vai funcionar, tô rezando, tô querendo muito. É uma proposta diferente.

Você chamou a atenção por revolucionar as séries da Globo com Verdades Secretas, toda gravada com uma linguagem de cinema, seriado. Qual será a linguagem da nova série?
Será uma linguagem diferente. Buscamos algo que seja engraçado e ao mesmo tempo de suspense. Nos inspiramos em (Stanley) Kubrick. Busquei manter a centralidade que ele usa em suas produções. Tem até um nome, ele chama isso de One Point Perspective, está na internet. Ele sempre marca um ponto no meio e as paredes vão andando ao lado. Fomos buscando algumas coisas assim.

É esta a primeira vez que você dirige uma comédia?
Muita gente acha isso, mas já fiz muitas. Implantei A Grande Família, dirigi cinco episódios da Comédia da Vida Privada, implantei o Toma Lá Dá Cá. Também já dirigi comédia em teatro com o Miguel Falabella. Já fiz muita coisa com humor.

Então se sente à vontade em trabalhar com o gênero?
Sou daqueles que veem a comédia como uma grande arte. O grande comediante é um grande ator. Sou do time que coloca a comédia numa categoria de nobreza. Vai ter sempre um grande comediante que todo mundo ama. Quem não gosta de ver uma coisa divertida, engraçada?

Com a entrada do Netflix, das séries de fora, que mexeram bastante com o mercado audiovisual e principalmente com a TV, que mudanças implantou em suas produções para não ficarem para trás?
Principalmente na produção de qualidade. E investi numa cinematografia também. O conteúdo mudou muito, o interesse das pessoas se voltou a outras coisas. E isso é nota 100.

Você foi dos primeiros diretores a trazer a linguagem dos seriados para a TV. Na época, Verdades Secretas foi uma revolução no modo de fazer folhetim no Brasil.
Fico feliz de ouvir isso. Tento fazer algo abusado, com uma decupagem diferente. Vou fazer uma outra novela este ano, do Walcyr Carrasco – Prova de Fogo, no horário nobre, que é a grande vitrine dramatúrgica do Brasil. Nesse caso tenho que buscar o popular e usar os códigos que o horário permite, mas com ousadia.

Mas é um horário que permite menos liberdade que o das 23 horas.
Não acho, dá para fazer ousadias, mas dentro do contexto. Dirigi o primeiro beijo gay da TV, que na época foi uma ousadia gigante, importantíssima. Novela tem que ousar, chamar atenção para as questões atuais. Essa próxima, a Prova de Fogo, tem inclusive uma pegada bem feminina, diria até de feminista.

Bem atual, ainda mais depois do que aconteceu dentro da própria emissora e com um de seus maiores galãs. A resposta das mulheres foi uma revolta raramente vista nas redes sociais.
Nossa Senhora do céu. Foi uma ótima revolução, que veio na hora certíssima. Esse episódio acabou sendo muito positivo na questão da evolução do ser humano. O reconhecimento do próprio Zé (José Mayer) foi sensacional. O que aconteceu não pode acontecer. Tenho três filhas, sou totalmente contra o abuso.

O abuso acontece em todos os meios, mas no da TV ele sempre foi visto com certa flexibilidade. Sente que isso está mudando?
Tá mudando, né? Tá mudando e tem que mudar. No fim das contas o que aconteceu com a figurinista foi uma ótima mensagem. Achei a postura da direção da Globo muito assertiva. A figurinista foi sensacional, ganhou a admiração de muita gente, inclusive a minha. E o Zé também ganhou ainda mais minha admiração com a postura de assumir. O silêncio não pode mais vencer.

Falando nisso, estava buscando umas entrevistas antigas suas e vi que você disse que já não existe mais o teste do sofá. É verdade?
Não, eu não vou entrar nessa. É aquilo que eu já falei, já foi superfalado, essa eu não vou entrar com você não. Lamento.

Bom, vamos falar de elenco. Você é um diretor conhecido por apostar em novos talentos, como Camila Queiroz e Grazi Massafera. Agora convidou Monica Iozzi para ser a protagonista de Vade Retro. Como faz essa seleção?
Olha, acho que tenho uma certa facilidade ou um radar para novos talentos, mas no caso da Monica, fiz um teste com ela, que é uma atriz formada, fez companhia teatral, só não tinha feito dramaturgia mais longa e enxerguei nela um potencial gigante. E eu fico absolutamente feliz, acho que ela está excelente e todo mundo que vê adora ela.

Então você gosta de lapidar os artistas?
Prefiro pegar prontos! (risos).

E como é gerir pessoas?
A direção é bruxaria, é alquimia pura, entende? Você tem que inventar universos, tem que gerar atmosferas. Sou muito próximo dos atores, muito cúmplice, não acredito em nenhuma espécie de tirania em qualquer coisa, em nada. Pelo contrário, acho que tem que ser na cumplicidade, dar a mão para as pessoas e tirar o melhor. Estou ali para dar toque, orientar. Minha formação é no teatro. Sou filho de atores…

Nunca pensou em ser ator?
Já pensei sim, já fiz coisas como ator no começo da carreira, quando era moleque, querendo entender as coisas. Mas sempre achei a direção muito mais interessante.

O que é preciso para ser um bom diretor de televisão?
Tem que se preparar, ler muito livro, ver muita peça, ver muito filme e tem que saber pegar as coisas no ar e traduzir para seus colegas o que quer fazer. O trabalho de diretor nunca é solo, é totalmente coletivo. 

Qual considera o maior papel de um diretor atualmente?
Ser autoral. Se você não faz nada que seja diferente, você praticamente desaparece. Tem que sair da mesmice, fazer algo que chame a atenção, apareça, seja forte. Coisinhas mais ou menos não funcionam mais. Antigamente funcionava tudo, um programa mais ou menos dava 70 de audiência. Hoje qualquer coisa mais ou menos desaparece.

Se fosse definir sua marca registrada como diretor, qual seria?
Acho que transformar coisas heavy em digeríveis na tela. Comunicar coisas menos certinhas e fofinhas de uma forma que caibam na TV, na família e na sala.

Hollywood não faz parte dos seus planos?
A televisão brasileira tem uma possibilidade imensa de dialogar com Hollywood, o problema é a barreira da língua.

Já ganhou dois prêmios Emmy por seus trabalhos na Globo. Gosta do reconhecimento?
E quem não gosta de reconhecimento? Não vou fazer a linha blasé não, fico superorgulhoso. Acho legal ganhar, mas se não ganhar também não faz a menor diferença (risos).