Diretor de ‘A Vida Invisível’ diz que nunca imaginou ganhar um Oscar

Sonia Racy

25 de novembro de 2019 | 00h50

CINEASTA KARIM AÏNOUZ. FOTO: BOB WOLFENSON

 

Karim Aïnouz, que concorre pelo Brasil ao melhor filme
estrangeiro em 2020, conta como o filme se mistura
com suas memórias de filho único e lamenta o que
chama de ‘ataque gigante’ do governo à cultura

 

Aos oito anos, Karim Aïnouz escreveu uma de suas primeiras redações, sobre uma viagem de volta ao mundo. Hoje, aos 53, ele pula de país em país com frequência. As viagens não são exatamente as de um aventureiro, como em seus sonhos de infância, mas têm cunho igualmente desbravador: divulgar seu mais recente filme, A Vida Invisível, no disputado mercado internacional. A obra, baseada no livro de Martha Batalha, é o representante brasileiro para disputa de melhor filme estrangeiro no Oscar do ano e estreou no Brasil no dia 21. Também ganhou a mostra Un Certain Regard, em Cannes, e diversos outros prêmios em festivais internacionais.

“Claro que sonho com reconhecimento, mas ganhar o Oscar nunca esteve nos meus sonhos. Hoje, porém, é algo que eu quero bastante. Mas não só por uma razão narcísica, é também uma maneira de a gente ser um pouco embaixador do Brasil. É um ano em que o cinema brasileiro está florescendo, mesmo sofrendo um ataque gigantesco dentro do campo cultural, partindo principalmente do governo federal”, diz o diretor à repórter Marcela Paes.
Ele se destaca – ao lado de Kleber Mendonça, Marcelo Gomes e Cláudio Assis –, entre outros, dentro da incensada safra de diretores nordestinos, que arrebata premiações e é destaque de crítica e público. Para o cineasta, o cinema feito atualmente por nordestinos faz sucesso por trazer “um universo novo dentro da própria cinematografia brasileira”. A seguir os principais trechos da entrevista.

A Vida Invisível traz a vida de duas irmãs nos anos 1950, com dificuldade de explorar os próprios sonhos. O que o atraiu na trama?
O livro contava histórias muito parecidas com as histórias que eu vivia dentro de casa. Me relacionei de maneira muito íntima com esse romance. Sou filho único e fui criado pela minha mãe e pela minha avó. Minha mãe era a provedora do lar. Me lembro que ficava com raiva porque ela não vinha almoçar em casa, como as mães dos meus amigos. Me incomodava porque era claramente uma casa muito diferente das tradicionais. Mas eu fui entendendo que era um enorme sacrifício, para ela, fazer tudo isso.

Essa criação lhe deu mais subterfúgios para entender esse universo feminino?
Sim. Passei minha infância e adolescência nele. Além da minha mãe, minha avó tinha quatro irmãs. Eram muitas mulheres. É algo que eu tinha vontade de filmar faz tempo. Claro que não sou uma mulher e tenho um ponto de vista que é masculino. Mas foram coisas que eu vi de perto.

Alguma situação marcante?
Minha mãe se separou do meu pai e naquela época não era possível que ela se casasse de novo. Era muito complicado, ainda mais dentro do contexto do Nordeste. Na minha própria casa nunca teve uma cama de casal. Porque ela não tinha nenhum prospecto de se casar. E a minha avó, curiosamente, tinha passado por uma coisa muito parecida. Ela se separou com 23 anos, na década de 1930, e teve que criar duas filhas sozinha. São coisas que não se repetem por acaso. Minha avó entendeu o que a minha mãe estava passando, elas se ajudaram. Me interessava falar dessa solidariedade.

São boas as lembranças de sua infância?
Foi uma infância muito feliz na verdade, também porque era uma casa onde tudo era muito horizontal. Quando você tem a ausência masculina dentro de uma casa, acho que as coisas são mais negociadas.

O filme ganhou a paralela de Cannes, vários outros prêmios em festivais e é o indicado do Brasil para o Oscar. A que você atribui o sucesso?
Olha, eu estou tentando entender, porque a gente não calcula isso. É claro que você planeja, tem objetivo, coisas que quer dizer… Não é um processo ingênuo. Esse filme tem me dado alegria porque tem muito da minha vida ali. Não é uma biografia, mas quando a obra é sobre algo que você viveu ela acaba tendo uma aura diferente. Quando você coloca o coração na mesa, as coisas vêm de um outro jeito.

O momento também é receptivo a histórias de mulheres.
Claro, tem uma coisa também do tempo que a gente vive. Comecei a fazer esse filme quando minha mãe faleceu, em 2015, e isso foi uma das razões. E naquele momento o debate do #MeToo, de um novo feminismo e de conquistas das mulheres estava muito no começo. Não foi um cálculo trazer a história exatamente agora, mas são coincidências que estão no ar. Hoje, em 2019, sinto que as pessoas querem sair de casa pra ver algo que mexa com elas de verdade.

Você é o tipo de cineasta que sonha com o Oscar?
Olha só, eu não sonhava com isso, não. Como qualquer cineasta, meu grande sonho é poder continuar trabalhando, poder me comunicar com o público. Sonho com o reconhecimento também, ninguém aqui é bobo, mas ganhar o Oscar em si nunca foi um sonho. Eu era muito mais ligado em ganhar uma Palma de Ouro. Mas te confesso que nesse momento eu estou muito feliz. Porque acho que é um ano especial, o cinema está florescendo mesmo com esse ataque gigante ao campo cultural, partindo principalmente do governo federal, entende?

Um vitória ou até mesmo só a disputa já é um trampolim enorme de divulgação, não?
Sim! É um prêmio que vai fazer com que o filme seja muito mais visto. Hoje em dia, ele é um sonho, é algo que eu quero bastante, pelo qual eu vou trabalhar muito. Mas não só por uma razão narcísica, é também uma maneira de a gente ser um pouco embaixador do Brasil. Eu acho que é um jeito de a gente falar não só do meu filme, mas de todos os filmes que foram feitos este ano.

O reconhecimento ajuda o cinema brasileiro como um todo?
Quando eu era jovem, em Fortaleza, não tinha escola de cinema. Nunca pensei que eu fosse fazer isso. É importante a gente ter esse reconhecimento que é gigante dentro da indústria. A gente vive um momento tão rico no Brasil, não só como uma forma de expressão artística, mas como indústria. Não tenho nada a perder. O mínimo que posso fazer é uma boa propaganda do cinema brasileiro.

Há um bom tempo o cinema feito por cineastas nordestinos tem se destacado. Por quê? Políticas públicas de incentivo ao audiovisual, como as que existem em Pernambuco, ajudam?
Políticas de incentivo, como as feitas há mais ou menos dez anos em Pernambuco têm efeito, mas é mais do que isso. Quando você tem um povo que nunca pôde se expressar direito, quando ele começa a falar, ele grita. Eu acho que é um pouco isso que acontece no cinema nordestino. Eu, com 18 anos, nunca achei que faria cinema, mas aos 22 eu comecei a fazer um curta num Estado onde não havia nada. Realmente, não tinha nem como a gente ficar lá para trabalhar.

E culturalmente também é uma região muito rica.
A gente está mostrando um Brasil que tanto no Brasil como fora do Brasil é muito singular, que é o Nordeste. Só que o Nordeste tem sido mostrado tradicionalmente a partir de não nordestinos. Quando o próprio nordestino começa a falar da cultura dele, do que ele vive, é muito especial, muito único. É um universo novo dentro da própria cinematografia brasileira. Pense bem no antes, um filme como O Pagador de Promessas, sobre um nordestino, mas dirigido pelo Anselmo Duarte, que era paulista.

Alguns cineastas e artistas foram ao STF protestar contra cortes na Ancine. Eles alegam também que existe censura ideológica…

Olha, eu acho que é censura sim. Às vezes ela é explícita, às vezes não. Acho esse tipo de protesto muito importante. A maior censura que podem fazer é não nos deixar trabalhar, e isso está começando a acontecer. Num determinado momento a gente viu que a Ancine estava sendo desidratada e sangrada. Hoje em dia eu acho que é muito mais complexo. O governo federal entendeu a potência do cinema, e estão querendo pautar a Ancine através de um viés ideológico.

De que forma?

A indicação do Tutuca (Edilásio Santana Barra Júnior) por exemplo, pra superintendente de desenvolvimento econômico da Ancine, é um exemplo. Como você indica um pastor, num Estado laico, para trabalhar numa agência que fomenta e regula o audiovisual, gente? Ao mesmo tempo, acho interessante que eles entendam a nossa força.

Você vive fora do Brasil há 30 anos. É mais fácil ter uma visão com perspectiva quando se está fora há tanto tempo?

É mais fácil ter uma visão analítica. Você está distante e consegue avaliar as coisas melhor. Ao mesmo tempo estar no Brasil neste momento de crise é muito poderoso, tem algo de muito febril. O que eu tento fazer é sempre estar no Brasil, principalmente na escola de roteiro que montamos em Fortaleza com a ajuda do governo estadual.

Você fez um documentário sobre a situação de refugiados em Berlim. É importante tocar em problemas da sociedade nos filmes?

Eu jamais faria um filme importante só pra mim. Amo fazer cinema mas a obra tem que responder a alguma inquietação do mundo. Eu estava lá na Alemanha e via hordas de pessoas chegando lá, sendo tratados como vírus. Quero fazer um cinema que nos permita lutar por um mundo mais justo.

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