Direto do Ataturk

Sonia Racy

30 de junho de 2016 | 01h45

“Não morremos por dez minutos.” Essa constatação não sai da cabeça do brasileiro Daniel Campanha, que chegou ao aeroporto Ataturk, anteontem, acompanhado de suas filhas, às 21 horas – a tempo de ouvir a explosão do segundo homem-bomba em Istambul, a 100 metros de distância.

Diretor financeiro de uma indústria farmacêutica americana, o executivo foi transferido de São Paulo para Istambul há nove meses. Não teve medo de ir o morar na Turquia? “Sempre disse que era mais fácil morrer de assalto em São Paulo do que de bomba em Istambul. Me enganei”, contou ontem por telefone à coluna, bastante abalado. “Chorei ontem o dia inteiro, e hoje também, entrei quase em estado de choque”, desabafa Campanha – que passa 65% dos seu tempo em viagens de trabalho pela região. “O Ataturk é minha casa”.

O executivo tinha ido ao aeroporto buscar cinco amigos que chegavam do Brasil. Entretanto, saiu atrasado pois antes fez questão de cantar parabéns para a filha Júlia, de 17 anos. “Ela estava ansiosa: no voo de São Paulo chegava também o seu namorado”, relata o executivo, que chamou a aniversariante e também a filha mais nova, Marina, de 14 anos, para buscar o grupo.

Ao chegarem ao aeroporto – bandeira do São Paulo na mão, uma provocação aos visitantes palmeirenses – a porta do desembarque estava fechando. Ouviram um estrondo (souberam depois ser o segundo homem bomba). “Não vimos mortos, mas vimos muita gente machucada, quase fomos atropelados por 300 pessoas que corriam na minha direção. A Julia foi jogada em um canteiro, a Marina quebrou óculos. Sensação de verdadeiro terror.”

E os amigos viajantes? “Esperamos eles do lado de fora, durante meia hora. O sistema de celular foi bloqueado, não tínhamos como nos comunicar. Minhas filhas choravam muito.”

“Resolvi levá-las para casa e voltei. Consegui achar a turma às 4 horas da manhã em um posto de gasolina, ao lado do Ataturk, sem saber o que fazer. Aqui são poucos os que falam inglês. Estavam apavorados e sem mala. A polícia os fez sentarem-se no chão no desembarque e ali ficar por horas.”

Quer regressar ao Brasil? “Não, mas a tragédia foi paralisante. Não estou conseguindo fazer nada a não ser pensar na sorte que tive por ter me atrasado. Amigos turcos me telefonam se desculpando, como se fosse culpa deles o que aconteceu. Mas também tenho consciência de que isso vai passar e logo mais estaremos celebrando a vida novamente. Istambul é uma cidade

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