Diplomacia ‘não pode ignorar o comércio’, diz analista

Diplomacia ‘não pode ignorar o comércio’, diz analista

Sonia Racy

31 de outubro de 2019 | 00h33

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MAGNO KARL, DO LIVRES. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

 

Para quem vai conviver pelo menos três anos como presidentes vizinhos, Jair Bolsonaro e o argentino Alberto Fernandez começaram mal – e os diplomatas de um e outro lado vão ter trabalho de repor a relação nos trilhos. A avaliação é do cientista político Magno Karl, diretor de políticas públicas do Livres, que passou, entre outros, pela Willy Brandt School of Public Politics, na Alemanha. “Nossos países são importantes um para o outro”, adverte Karl, “e o mercado argentino é estratégico para muitas empresas brasileiras”. Exatamente por isso, “não dá pra tratar a diplomacia ignorando as relações comerciais, reduzindo tudo a um bate-boca ideológico”.

O que muda, para o Brasil, com o novo governo na Argentina?
A relação começa ruim dos dois lados. O custo da ideologização tornou-se marca do governo Bolsonaro e isso cria prejuízos nas relações econômicas. Brasília esquece que a Argentina é um mercado importante, pelos recursos e pelos empregos. O custo da negociação fica muito maior quando você se senta à mesa hostilizando o parceiro.

E os protestos do Chile, que tornam a situação instável por lá? Podem ter impacto aqui?
O caso do Chile é de outra ordem. Os analistas estão confusos. Pergunta-se por que um país tão bem-sucedido em critérios sociais e econômicos enfrenta tantos protestos. Ora, o cidadão protesta porque a prosperidade não o transforma em seguidor das políticas públicas de um governo. Elas podem trazer conforto, avanços, mas não quer dizer que a população vai se abster da participação política. Contestações são naturais numa democracia. Basta ver que isso ocorre na França, na Alemanha, nos Estados Unidos, que são democracias vibrantes.

Acha que o modo de ser de Bolsonaro é duradouro, ou ele vive um aprendizado e pode mudar?
As equipes de governo, em Brasília, tentam separar o que o presidente diz do que ele faz. Afirmam que o Twitter presidencial não tem tanta importância. Mas a super-ideologização traz, sim, prejuízos sérios. Veja o que houve na relação com Alemanha e França. O Brasil perdeu fundos importantes, que iriam para compra de equipamentos para o Ibama fiscalizar abusos na Amazônia.

Bolsonaro parece inspirar-se na guerra fria entre EUA e URSS nos anos 80.
De fato, é visível um esforço para emular a postura do governo Trump. Ora, o Brasil não tem o mesmo capital de negociação americano. Fala-se em aumentar a participação no comércio mundial, mas não se consegue isso se você adota como norma hostilizar os parceiros. Decorridos dez meses de governo, vejo poucas expectativas de que o presidente mude seu jeito de atuar. O governo está se prejudicando demasiadamente. / GABRIEL MANZANO