Di-ta-du-ra

Di-ta-du-ra

Sonia Racy

07 Julho 2012 | 01h00

Aplaudido em mesa da Flip sobre autoritarismo, anteontem, o sociólogo Luiz Eduardo Soares recebeu a coluna para conversa na Pousada Literária em Paraty.

Você falou em uma retórica pudica no Brasil. Pode explicar melhor esse conceito?

Não chamam ditadura pelo nome, não chamam tortura pelo nome. É uma “docilização” do que é feio e sujo, como se estivéssemos num colégio de moças e todas as referências sujas fossem consideradas evasivas. Criamos um vocabulário oficial cheio de pudor, mas não há pudor para um general que vai à TV e diz que não sabe se houve tortura no Brasil. A polícia continua torturando e cometendo execuções extrajudiciais. Há muita tolerância com a prática no Brasil. Isso, em parte, se deve ao fato de que nós varremos para debaixo do tapete o que aconteceu na ditadura.

A Comissão da Verdade surge como movimento importante?

Sim. Foi criada em condições muito difíceis. Tem tudo para dar errado, porque tem poucos recursos, pouco tempo, poucas pessoas. Mas, apesar das dificuldades, pode cumprir um papel importante na história do Brasil, nos dando a oportunidade de conhecer os fatos de forma política e culturalmente densa.

Qual a sua opinião sobre a eleição no Rio?

Eu falo de forma engajada, não como cientista político, mas como militante, já que apoio o Marcelo Freixo e estou na campanha dele. No Rio, há uma coalizão muito forte e ampla em torno de Eduardo Paes. As oposições estão fragilizadas – e são, entre si, opostas. Temos, então, Marcelo Freixo de um lado e Garotinho e Cesar Maia de outro, por meio de seus filhos, que apontam para o retrovisor.

Sobre o que é seu novo livro, Ou Tudo ou Nada?

Conta a história real de um personagem interessante: um economista brasileiro preso na Inglaterra aos 24 anos por tráfico de drogas. Ele foi velejador e passou dez anos cruzando o planeta. Cuidou da parte financeira do tráfico e da logística usando seus conhecimentos de navegação. Na Inglaterra, tentou fugir e ficou metade do tempo lá e metade no Brasil, em Bangu. Saiu vivo e está recomeçando a vida. A história impressiona. /MARÍLIA NEUSTEIN