Desfaçatez da classe política é a ‘mãe’ do caos e da violência, diz sociólogo

Desfaçatez da classe política é a ‘mãe’ do caos e da violência, diz sociólogo

Sonia Racy

14 de fevereiro de 2017 | 00h45

José Álvaro Moisés. Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO

José Álvaro Moisés. Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO

Há algo mais que desordem e violência nas cenas de caos ocorridas no Espírito Santo, com gente “comum” aproveitando a falta de polícia para quebrar lojas, invadir, roubar, matar. “Fiquei horrorizado”, resume um veterano estudioso da sociedade, José Alvaro Moisés. “Trata-se de um Estado sem histórico de violência nesse nível”. Um nível que, até o dado  mais recente, havia chegado a 146 mortes.

Na sociologia, lembra o cientista político da USP, esse comportamento é definido como anomia. Em nosso caso, “creio que ela decorre da desfaçatez das classes políticas”. Da ausência, entre as pessoas, “de uma imagem da comunidade, de algo que te proteja, te reconheça”. Segundo ele, isso é uma prova concreta de que “esse compromisso coletivo deixou de fazer sentido”.

À parte a questão salarial dos policiais, como o sr. avalia o comportamento das pessoas invadindo lojas, quebrando, roubando e matando, ocorrido em Vitória?
Fiquei horrorizado com o que vi. Não havia nenhum histórico, na capital ou no Estado, de tal grau de violência, que chegou a 146 mortos.

Nesses episódios há sempre líderes abrindo caminho e outros imitando. Foi o que ocorreu?
Eu tendo a não acreditar que lideranças policiais tenham agido sozinhas. Pode, e deve, ter havido alguma orquestração com grupos fora da lei. Tudo saiu demais do normal.

Houve nas ruas muitas “pessoas comuns” aderindo, assaltando, levando coisas pra casa. Seria lícito imaginar um mínimo de princípios, consciência, valores familiares ou religiosos, não?
Temos na sociologia política um fenômeno denominado anomia, É uma situação em que, em resumo, perde-se a referência quanto ao equilíbrio. E é importante observar que alguns deles, arrependidos, voltaram para devolver…

E por que surge essa anomia?
Ela ganha força quando fica claro, para muitos, que não há mais o império das leis. Desaparece a noção de “direitos de todos” e “deveres de todos”. Implanta-se a desagregação social. Associado a isso, existe um fenômeno crucial, que é a questão do papel do Estado. Uma clássica definição de Max Weber diz que o Estado se legitima quando tem o monopólio legal da força e do controle social. Entre nós, é evidente que o Estado vem perdendo esse papel. 

Vivemos uma realidade muito diferente da de países mais mais educados e estáveis onde, por exemplo, jornais são deixados numa pilha, na rua, e cada cidadão interessado deixa as moedas numa caixa e leva o seu exemplar. Isso é inimaginável como comportamento social no Brasil. 
Culturas civilizadas constroem no dia a dia um longo processo de imagem de comunidade. Trata-se de um valor, uma coisa que protege, integra, reconhece e também limita. Na percepção diária, à sua volta o cidadão constata que faz sentido esse compromisso. Mas no Brasil estamos imensamente deficitários disso.

A que se deve tal déficit?
Acho que o detonador de tudo foi a desfaçatez das classes políticas. Seu descaso com gente que ganha muito mal e põe sua vida em jogo a toda hora. Uma injustiça salarial somada à certeza de que ninguém quer ajudar ou resolver. Essa desfaçatez dá as caras quando se vê um Edison Lobão comandando a CCJ do Senado e um Senado com dez eleitos envolvidos em inquéritos. 

O sr. imagina uma saída?
Uma Lava Jato, não só por seu trabalho, mas por seu significado, sinaliza um rumo para se enfrentar o atual descontrole. Passa a mensagem de que há lei sim, de que ela tem que ser cumprida, para pobres e ricos. Que se soma a um “sistema de integridade” constituído por Polícia Federal, Ministério Público, TCU, CGU, e juízes sérios e corajosos. É um primeiro passo. / GABRIEL MANZANO