‘Esta é uma doença que gera medo, muito medo’, conta Margareth Dalcolmo, da Fiocruz

‘Esta é uma doença que gera medo, muito medo’, conta Margareth Dalcolmo, da Fiocruz

Sonia Racy

24 de janeiro de 2021 | 00h50

 

Margareth Dalcolmo. Foto: Wilton Junior/Estadão

Até o fim de janeiro, os insumos contratados na China pela AstraZeneca/Fiocruz têm que chegar obrigatoriamente ao Brasil para que o cronograma de fabricação de vacinas contra a covid-19 não sofra atraso. “Isso está dentro do espectro de tempo possível. Se for assim, não haverá atraso e nós poderemos entregar o primeiro milhão de doses de vacinas fabricado no Brasil ao Ministério da Saúde”, afirmou Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, terça-feira, em gravação para o programa Show Business – que vai ao ar hoje a noite, na Band.

A renomada pneumologista capixaba se mostrou apreensiva no começo dessa semana. Afinal, problemas de importação da vacina, trabalho contínuo de atendimento a pacientes de covid-19, incontáveis programas de TV, lives, debates sobre a doença com colegas não só no Brasil, mas espalhados pelo mundo, tiram o sono de qualquer um. “Todos os profissionais da saúde estão sofrendo com a intensidade exigida no combate ao coronavírus”, ressalta. Sua rotina tem sido sair às 6 da manhã de casa e voltar depois da meia-noite.

A frequente comunicação com todas as mídias – com intuito de aplacar a ansiedade geral, acalmar quem tem medo e informar corretamente – também exige da médica tempo. Entretanto ela fala pouco sobre seu isolamento provocado pela contaminação da covid-19. “Eu fiquei doente no pico epidêmico, aqui no Rio, no meio de maio. Não tive uma forma grave da doença, não precisei ser internada. Só fui ao hospital pra fazer exames.” Segundo a pneumologista, ela não adoeceu ao ponto de precisar de terapia intensiva. E depois de 16 dias, testou negativo.

Qual foi sua reação ao saber que estava contaminada? “Desconfiei, me afastei imediatamente das pessoa e fiz o meu diagnóstico. Pedi para todos no meu entorno fazerem teste. Felizmente, só eu peguei, acredito que por força da exposição diária ao vírus.” Ao ser indagada como se sentiu nessas duas semanas, se sua perspectiva sobre a covid foi modificada pela vivência da doença na própria pele, Margareth revelou que “em primeiro lugar, tive muito medo, fiquei com muito medo. Tomei providências práticas, fiz procuração, passei meus dados pessoais pra minha irmã pra que ela pudesse me ajudar nesse momento. Dei ordens explícitas do que eu queria que fosse feito se colocada em uma CTI”. Lembrou que não tinha filhos, mas tinha irmãs. A também professora não se encontrou com seu marido até ser liberada. O advogado, educador e imortal Candido Mendes de Almeida, de 92 anos, foi poupado da melhor maneira possível.

O processo da doença, segundo Margareth, foi doloroso e até escrever se tornou difícil. “Terminei capítulo de um livro meu com muito esforço, por causa de muita neuropatia periférica. Tinha dificuldade de digitar.” Cansaço? “Muito. Mal conseguia segurar um garfo, usava as duas mãos pra comer. Fiquei isolada, sozinha, tive contato somente com uma enfermeira toda paramentada que trazia a comida, duas vezes por dia.” Por outro lado, a cientista se surpreendeu com a quantidade de demonstrações de afeto vindas de colegas e amigos. “Telefonavam preocupados comigo. Recebi demonstrações de afeto que jamais imaginei.”

Quão importante é ter apoio emocional? “Muito. Faz diferença. Meus pacientes mandavam mensagens, mandavam coisas deliciosas e diziam: eu sei que a senhora não sente gosto de nada, mas vai que a senhora gosta?” Ela enfatiza: “Esse tipo de gesto jamais vou esquecer”.

A doença, segundo Margareth, a tornou mais sensível. “Sabe, quando alguém me diz assim, ‘doutora, eu estou com medo’, eu entendo perfeitamente. Esta é uma doença que gera medo, muito medo”. Lembrou ainda durante a entrevista, com imenso carinho, do médico carioca Ricardo Cruz, morto pela doença “Era um grande amigo, fui eu que internei ele. É um luto que vivo diariamente.”

A pesquisadora pondera que se essa doença “gera medo em nós, médicos, com larga experiência, vendo doentes todos dias, usando o que aprendemos na medicina para detectar piora, imagine nos leigos”. Conselho: “Quando alguém diz ‘eu tenho medo’, respeite e entenda”.

 

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