Desafio da era digital ‘é saber usar o tempo’, diz empresário

Desafio da era digital ‘é saber usar o tempo’, diz empresário

Sonia Racy

10 de fevereiro de 2020 | 00h40

ALEX ALLARD. FOTO: CHRISTINA RUFATTO/ESTADÃO

 

Megaempresário francês que constrói o Cidade Matarazzo
— complexo residencial, hoteleiro, cultural e turístico
junto à Paulista — avisa: ‘o luxo na era digital são
os minutos’
e as pessoas ‘já não compram coisas, elas compram tempo’

 

Quando anunciou seu megaempreendimento de luxo a ser construído em São Paulo – o Cidade Matarazzo – o empresário francês Alex Allard foi chamado de ousado. Estaria cometendo uma “loucura”, diziam, ao correr alto risco ante o inusitado porte do projeto no Brasil. Agora, perto de inaugurar parcialmente o complexo residencial, hoteleiro e turístico na região da Paulista – onde funcionava o Hospital Matarazzo –, Allard relembra as tantas vezes que o chamaram de “doido”.

“O mercado, desconfiado, alertava: ‘ah, lá vem o Allard…’ Tenho convicção de que, depois da concretização do projeto, o mundo inteiro vai falar muito sobre São Paulo e as possibilidades de investir por aqui”, diz o empresário. Aqui vão os principais trechos da entrevista.

Você mora na França e tem negócios em vários países. Por que escolheu São Paulo?
Porque é a cidade com o maior número de italianos fora da Itália, de libaneses fora do Líbano, de japoneses fora do Japão. Com essa diversidade, São Paulo tem um poder inigualável, o poder do futuro. Estou aqui para valorizar isso.

Como entrou em contato com a cidade?
Fizemos um estudo com uma universidade que nos provou tamanha diversidade. Aqui tem, por exemplo, a maior variedade de pessoas negras procedentes de toda África. Eu chamo isso de riqueza do futuro. Acho que o mundo precisa entender o valor disso.

Tem acompanhado, recentemente, a situação política e econômica do Brasil?
Veja, o que acontece com o PT, com o PSDB, com os partidos, não me preocupa. Na verdade, vivemos agora no Brasil um momento de revelação do valor dessa diversidade. Observo, na verdade, a mudança no Brasil, que está no caminho de se tornar uma grande economia criativa. Independentemente das crises políticas, da crise econômica, o Matarazzo é parte de um movimento que vai agregar valor. Isso é o mais importante,

Concorrentes seus acham que você assumiu grande risco ao optar por fazer um empreendimento onde era o Hospital Matarazzo, uma área pouco comercial…
O mercado diz: ‘Ah, lá vem o Alex fazer hotéis, não é um bom lugar para fazer hotéis, ele vai fazer um centro comercial, não é um bom lugar’. Essa é uma análise muito local, sem perspectiva. Pra mim, o Cidade Matarazzo vai mudar São Paulo. Depois da inauguração desse empreendimento, o mundo inteiro vai falar de São Paulo. Nesse desafio, o que conta pra mim é a visão mundial.

E como o Cidade funcionará?
Convidei o francês Jean Nouvel, um dos mais importantes arquitetos do mundo. Ele desenhou o que considero o símbolo do empreendimento: uma torre com uma mata atlântica no topo. Lá tem árvores de mais de 15 metros. Dentro deste paisagismo, temos uma parte do Rosewood (hotel residência) e também apartamentos. A venda dos apartamentos vai arrecadar algo como R$ 1 bilhão pra pagar parte do custo da construção. Vamos abrir o hotel e também o que acredito ser o primeiro centro de convenções de luxo do Brasil. Teremos um centro cultural, sala de exposição, de concerto, teatro. Isso estará pronto ao fim de 2020. Nos estúdios de gravação de música e exibição de filmes, por exemplo, produtores internacionais poderão acessar a programação. Do mesmo modo, vamos oferecer um centro para artesãos brasileiros.

Qual é o modelo de investimento?
O investimento na construção é de R$ 1,5 bilhão, cuja origem são meus próprios recursos somados aos de um parceiro estratégico. Mas sou o maior investidor do projeto. O parceiro, que tem 49%, é uma das maiores famílias da Ásia, o grupo Chow Tai Fook. Ele são donos da maior rede de joalherias do mundo e da terceira maior construtora da Ásia. São donos da Rosewood, bandeira de luxo de hotéis espalhados pelo mundo.

Esse modelo já foi testado ou você inventou?
Acho que não existe, não. Hoje todos sabem que o mundo dos shopping malls, como você conhece, está morto. A rentabilidade das lojas da Madison Avenue, ou do Soho, por exemplo, caíram mais de 40% em um ano por causa dessa grande mudança do mundo físico para o mundo digital.

São estudos?
Não, são minha própria experiência. O Cidade Matarazzo comporta todas as empresas que conheci na minha vida. Eu criei a empresa gigante de database no começo dos anos 90, a Consodata. Foi antes de todo mundo. E mais uma vez alguns disseram que eu estava louco. Ao fim dos anos 90, eu era dono da maior database mundial, com cerca de 1,6 bilhão de pessoas registradas.

Então por que decidiu vender a Consodata?
Porque eu quis sair do mundo digital. Entendi, sim, que o mundo estava mudando da civilização industrial para a digital. Mas o novo desafio de agora é como viver com o tempo que vai sobrar neste mundo digital. O que fazer com as horas vagas. É uma grande mudança. Em 1994, eu criei o primeiro sistema artificial de inteligência, permitindo antecipar as decisões dos consumidores. Isso foi uma visão minha de 20 anos atrás e ela se concretizou. A civilização industrial ajuda por meio de coisas materiais, mas as pessoas não são felizes. Essa civilização de abundância não cria felicidade.

Mas o mundo industrial dá segurança, não acha?
Sim. É um modelo de segurança, mas na verdade o homem não foi feito pra ter segurança. Foi feito pra viver num mundo difícil. E a dificuldade é um fator que impulsiona a criatividade. O que acontece agora é que o homem quer máquinas pra fazerem o trabalho da máquina, robôs, inteligência artificial. Isso abre espaço para a felicidade, para ter experiências, ter prazer. Se você fica bilionário, após 50 anos de trabalho, você quer é ficar no jardim cuidando de plantas. E só. Meu desafio é ajudar a mudar esse processo. Conheço bem o mundo industrial e o mundo da era digital. Também fui visionário na moda. Comprei a Balmain por US$ 500 mil dólares e vendi por US$ 500 milhões depois de 10 anos.

O que fez para a Balmain passar a valer tão mais?
Quando eu fiz Balmain todo mundo disse ‘Alex, as roupas são muito caras’. Mas se são caras é porque tem pessoas costurando à mão. Quero criar trabalho para pessoas ao meu redor. Mesma coisa no projeto Matarazzo, onde temos 27 mil pessoas locais trabalhando. Fiz a mesma coisa no Le Royal Monceau em Paris. Paris, pra mim, é como uma Disneylândia. Todos buscam o clichê, o fake, móveis Luís XV. Tudo horrível. Eu falei: ‘Não, a França é um país de criatividade’. E montei um hotel criativo.

Qual o luxo da vida hoje?
No passado queríamos comprar coisas, nesta era digital queremos comprar tempo. O luxo da vida são os minutos. A pessoa não quer uma nova Ferrari, o que ela quer é viver. E não precisa de dez carros. O grande desafio, o luxo do futuro, é saber valorizar esses minutos. É o desafio da Cidade Matarazzo também.

Vocês fizeram um acordo com a família para manter o mesmo nome?
Faz parte do respeito às raízes. Francisco Matarazzo foi um dos maiores industriais da história, um visionário. É muito importante que o nome Matarazzo fique lá. Nosso empreendimento tem raiz, alma, conta a história da cidade. É importante criar um lugar com alma, porque significa experiência. No mundo digital, onde podemos comprar tudo por meio de um iPad, precisamos sair de casa, ter uma experiência.

O projeto está preservando o casarão do hospital…
E o custo da preservação dele é inacreditável. Refazer custaria dez vezes menos do que preservar. Mas com a preservação vem a alma do lugar, e isso que tem um peso imensurável.

É a primeira vez que você trabalha no Brasil. O que o surpreendeu positivamente? E negativamente?
A parte negativa é que aqui todo mundo fica focado nas indústrias do passado, no petróleo, na soja, na agricultura, na manufatura, mas o futuro do mundo é a cultura. Esse país é de uma riqueza inacreditável. A parte positiva é oportunidade que se vê por aqui. Peguei essa oportunidade e estou fazendo. Desculpem todos os brasileiros, mas eu acredito no futuro da cultura brasileira.

Na França, essa percepção da cultura na economia criativa é muito avançada?
A cultura é a espinha dorsal da economia criativa da França. O LVMH, que é o primeiro grupo de luxo do mundo, que tem a Hermès, tem tudo, sem Paris não existiria. Toda a história da França e sua cultura tornaram-se a economia do país.

Isso é uma característica muito da Europa, né? E como você explicaria o sucesso da cultura americana?
Na verdade, a cultura da Apple existe por causa da flower power generation. Sem o LSD, o pobre Steve Jobs não conseguiria inventar a Apple. Isso faz parte da cultura americana… a cultura da Coca-Cola, do pop art, do Andy Warhol. A cultura dos anos 70 que invadiu o mundo inteiro.

E agora é a vez do Brasil?
Agora é o momento do Brasil! Acho que por causa da alegria e, o mais importante, por causa da diversidade. A cultura brasileira tem a oportunidade de mudar o mundo.

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