‘Defendo postergar a revisão do Plano Diretor’ afirma Candido Malta por causa da pandemia

‘Defendo postergar a revisão do Plano Diretor’ afirma Candido Malta por causa da pandemia

Sonia Racy

20 de junho de 2021 | 00h50

Candido Malta Neto; Foto: Iara Morselli

O Plano Diretor Estratégico (PDE) em vigor em São Paulo deve ser revisto ainda este ano, de forma parcial, como a própria lei prevê. Mas Candido Malta Campos Neto, professor de Urbanismo da universidade Mackenzie, defende que a discussão seja adiada para depois da pandemia. “As ONGs não estão conseguindo se organizar e se manifestar de maneira condizente sobre as alterações das regras de urbanismo por causa da crise sanitária”, afirma.

Em conversa com a coluna, analisou os novos arranha-céus no Tatuapé, em São Paulo, que alteram o horizonte paulistano. Considera os bairros Pacaembu e os Jardins como áreas verdes importantes que devem ser preservadas, além de serem uma “herança urbanística fundamental para a cidade”. A sua história se mistura com a do seu pai Cândido Malta Campos Filho, que é professor de Arquitetura na USP na pós-graduação. Neto sustentou no doutorado a tese  Os rumos da cidade: Urbanismo e modernização em São Paulo também na FAU-USP. Aqui vão os melhores trechos da conversa:

Como vê o PDE atual?

Ele teve vários avanços para transformar SP numa cidade mais compacta, de uso misto, com mais fachada do edifício ativa; ou seja, com áreas que se comuniquem com o espaço público. O plano da cidade, de 2014, incentivou colocar residência, escritório, comércio e serviço, tudo no mesmo prédio.

O que pensa sobre a revisão do PDE prevista para 2021?

O plano foi aprovado na gestão Fernando Haddad e tem previsão para ser revisto este ano. Mas por causa da dificuldade de se fazer um debate público aberto, transparente em relação a essas alterações, defendo que isso ocorra após passar a pandemia. O setor imobiliário está trabalhando para mudar o plano, quer maior potencial construtivo, alterando a lei de zoneamento. Tradicionalmente, essa é a política deste segmento, mas os atores que reagem as mudanças, como as organizações não governamentais, a Rede Nossa São Paulo, as associações de amigos de bairro, as entidades de preservação ambiental não estão conseguindo se organizar e se manifestar de maneira condizente sobre as alterações das regras por causa da pandemia. Por isso, acho que a revisão não deveria ocorrer este ano.

E os Jardins, estas áreas nobres devem ser preservadas?

Os “bairros jardins” são uma herança fundamental da urbanização paulistana e não devem ser ameaçados de maneira alguma. Eles são bairros de privilegiados, sim, mas também são uma área verde para a cidade. Não dá para construir um edifício para cinco mil pessoas no Pacaembu, tem muitos terrenos vazios urbanos para se construir um “Copan”, como ali na Água Branca, na Barra Funda.

Edifícios de 170 metros de altura surgem no Tatuapé. O plano diretor permite espigão em áreas residenciais?

O plano diretor não permite um espigão numa zona exclusivamente residencial, mas autoriza desde que se pague a outorga onerosa, que não exceda o coeficiente 4. Mas talvez isso seja um problema da lei de zoneamento de 2016. Essa lei liberou a construção de edifícios altos em algumas áreas. Talvez a cidade se arrependa disso. Hoje pode ser que venda bem, tem uma bela vista, mas se surgirem vários prédios ao redor, talvez vire uma Hong Kong. Esses prédios vão ser os mais altos de São Paulo, mais até que edifícios comerciais.

Como as pandemias afetam a vida das pessoas?

A pandemia da SARS ou da gripe suína não afetou de uma forma tão absurda a vida, a economia, o intercâmbio social, como a de covid-19. Na epidemia da gripe espanhola, há 103 anos, todo mundo ficou doente. Sem condições de combatê-la, criou-se imunidade de rebanho muito rápido, não havia sequer anti-inflamatórios. Ela matou muitos jovens, mas durou três meses em São Paulo. Foi muito diferente da atual.

Qual urbanismo admira?

As galerias no centro de SP são obras exemplares da história do urbanismo. Há umas vinte por ali, como a Olido. Eram espaços muito pujantes e bonitos, apesar de hoje estarem um pouco decadentes.

/PAULA BONELLI

 

 

 

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