Deborah Secco: ‘Passei a vida mentindo pra me sentir adequada’

Deborah Secco: ‘Passei a vida mentindo pra me sentir adequada’

Sonia Racy

09 Julho 2018 | 00h30

FOTO ELVIS MOREIRA

Prestes a completar 40 anos, atriz conta
como a maternidade mudou seu jeito de pensar

Deborah Secco achou, prestes a completar seus 40 anos, o que ela mesma chama de “seu lugar de fala”. A atriz, que está no ar como a vilã Carola, da novela Segundo Sol, já não tem mais medo de ser julgada. “Fui uma dessas pessoas que viveram a vida inteira mentindo, sabe? A vida inteira tentando fingir que era perfeita para me sentir adequada.”

Isso mudou. Hoje, bem casada com o modelo baiano Hugo Moura, 12 anos mais novo que ela e pai da pequena Maria Flor – primogênita da atriz, que pretende adotar mais um filho – Deborah diz não ter mais medo de falar o que pensa. “Com o passar dos anos você vai entendendo seu lugar. Hoje sei exatamente pelo que quero brigar”, explicou em entrevista por telefone à repórter Sofia Patsch.

E pelo que ela quer brigar? “Pela libertação da sexualidade feminina e a igualdade da mulher”. Depois de declarar, pela internet, que as mulheres também tinham o direito de trair – afirmação que causou grande repercussão –, a atriz diz que ter tido uma filha lhe deu forças para lutar. “Penso muito na minha filha, nas desigualdades que as mulheres sofrem, o tanto de assédio que sofremos durante a vida e o tanto de coisa que a gente vai deixando passar.”

No cinema, ela integra o elenco da comédia Mulheres Alteradas, sátira aos estereótipos das mulheres do século 21, que acaba de estrear nas telonas. Sua personagem vive uma crise no casamento e se descobre muito mais feliz depois da separação. Confira a entrevista.

Recentemente você fez declarações, algumas um tanto polêmicas, como a do direito da mulher de trair. Sente-se mais bem resolvida para falar o que pensa hoje?
Acho que com o passar dos anos você vai entendendo seu lugar de fala. Hoje sei exatamente pelo que quero brigar, quais as coisas pelas quais acho que tenho não uma obrigação, mas uma certa vivência pra falar.

E quais são essas coisas?
A libertação da sexualidade feminina, a igualdade da mulher, é uma coisa que muito me atrai. Levantar pro mundo que ainda hoje se matam milhões de mulheres porque traíram os maridos. Esses mesmos maridos que matam também já traíram as próprias mulheres, então é tudo tão cruel. Penso muito na minha filha, nas desigualdades que as mulheres sofrem, o tanto de assédio que sofremos durante a vida e o tanto de coisa que a gente vai deixando passar. Acho que temos que ir nos encorajando mesmo. E isso depende das pessoas que dispõem de mais visibilidade, sabe, a gente apanha um pouco, soca um pouco, porque é difícil mesmo ouvir verdades. Principalmente aquelas sobre o que você também faz e não tem coragem de contar.

As verdades que ficam debaixo do politicamente correto?
É isso. Vale a pena levantar o discurso, vale a pena cada vez mais a gente brigar pela bandeira do não julgamento. Ninguém tem nada a ver com o que eu faço, ninguém paga as minhas contas. Não importa se me relaciono com mulher, homem, negros, brancos. O que importa é o meu caráter, como eu me relaciono com as pessoas, o bem que eu faço pra elas, o amor que eu lhes dou.

Você se arrepende de algo?
Não somos perfeitos. Somos o melhor que podemos ser. Eu queria muito ter encontrado o Hugo ainda nos meus 18 anos pra formar a minha família lá atrás e viver feliz para sempre, como no conto da Branca de Neve. Mas não foi assim e isso não me torna melhor nem pior. Luto pela minha família, luto pela dignidade, pelo meu caráter, pela minha verdade. Acho que a verdade vale muito mais, por mais triste que seja, do que uma mentira em busca de aceitação. Fui uma dessas pessoas, vivi a vida inteira mentindo, sabe, a vida inteira tentando fingir que eu era perfeita para me sentir adequada.

No filme Mulheres Alteradas você interpreta uma mulher mal casada, que tenta reviver uma relação acabada até resolver ficar sozinha e feliz. Como foi essa experiência?
Quando comecei a ler esse roteiro, eu dizia: “Gente, tô me sentindo muito o Dudu (personagem de Sérgio Guizé, marido da personagem da atriz no longa)”.

Por que se sentia como um marido ‘chato’?
Porque o Hugo é cheio de vontades, sabe, de fazer mil coisas, e eu sou superpreguiçosa. Sou daquelas que ficam dizendo ‘ah não, vamos ficar em casa…’. Mas acho que todos nós temos fases na relação, em que se dá uma acomodada. No meu caso isso se justifica um pouco pela falta de tempo, criança, noites mal dormidas e tal.

Mas agora você diz que está super bem casada, não?
Estou, mas é que, quando a gente vai ficando mais velha, vai ficando mais… – como se diz? – mais seletiva. Então você vai a uma pousada, talvez sem um colchão delícia, e já dá aquela reclamadinha. Sem água quente, então, não ia rolar. Não precisa necessariamente de conforto, mas dignidade, porque a pessoa está mais velha, não dá mais pra acampar. Já passei dessa fase. Já acampei muito, já fiz muita viagem de mulher surfista, que bota uma mochila nas costas e vai sei lá pra onde. Agora não dá mais. E o Hugo é superdisponível, por ele estaríamos nos jogando no mundo. Vou fazer 40 ano que vem, pra mim tá duro.

Como está encarando os 40 anos?
Sou uma pessoa “de boa” com a idade. Graças a Deus, tenho uma vida muito bem-sucedida, tudo que sonhei eu consegui muito nova, muito cedo, então não tenho mais muitas expectativas. Fico buscando manter o que já tenho de felicidade, de conquistas. Por isso, talvez, acho que pareço chata, porque quando você não tem mais grandes sonhos acaba não tendo grandes desafios e vai ficando mais acomodada.

No filme, a personagem da Maria Casadevall está passando pela crise dos 30 anos. Troca por uma noite sua vida agitada de solteira para ficar com os filhos pequenos da irmã mais velha, interpretada por Monica Iozzi, que aproveita para sair. Logo ela muda de ideia (risos). Já passou por algo parecido?
Não, eu não tenho crise nenhuma. Acho que fiz tudo no tempo certo e não tenho problema nenhum em envelhecer. Tenho uma profissão que me permite trabalhar até velhinha. Não é uma profissão que exige juventude, apesar de a gente saber que os papéis diminuem com a idade, os destaques diminuem. Mas temos grandes exemplos de atrizes como Laura Cardoso, Fernanda Montenegro. Acho que não vou ter muita dificuldade de trabalhar velhinha e espero ficar bem velhinha mesmo, porque só não fica velho quem morre antes.

Pretende ter mais filhos?
Ai, quero muito ter mais filhos. Não sei se a gente vai ter ou se vai adotar.

Tem vontade de adotar?
O Hugo tem mais do que eu, é daí que vem essa proposta. Quero muito ter mais um biológico e adotar um terceiro, mas ele sempre bate o pé para a gente adotar o segundo. O fato é que precisamos de um irmão para a Maria. Tenho muitos irmãos e ele tem dois irmãos e para mim são meus melhores amigos, as coisas mais importantes que a minha mãe me deu na vida. E acho que para o Hugo também, então a gente entende essa importância, embora saiba que vai ter um período difícil, porque se com uma já é difícil, imagina com dois.

Parece que você se achou na maternidade. Imaginava isso antes de ser mãe?
Sempre tive certeza disso, talvez por isso tenha esperado tanto para ter filho. Mas nunca escondi minha vontade de construir uma família linda, sempre foi o meu sonho. Tenho uma mãe muito amorosa, que amo muito e que me ama muito. Acho que nenhum amor do mundo se compara a esse.

Já declarou que não teve uma gravidez fácil. Como foi?
A minha gravidez foi muito difícil, tive depressão grávida. Chorava o dia inteiro. Foi muito difícil. Não consigo ficar sem trabalhar e tive que sair da novela assim que souberam que eu estava grávida. Fiquei 9 meses ociosa e sem fazer nada depois de uma vida de 36 anos ativa. Engordei 24 quilos, no primeiro mês eu já tinha engordado, sei lá, 12 quilos, não tinha roupa, não cabia em nada, me sentia feia. E aí foram 9 meses de muita depressão, chorando todo dia. Chorava porque estava grávida, chorava porque estava chorando e achava que minha filha estava chorando dentro de mim, era uma tristeza, uma loucura.

E quando ela nasceu você teve depressão pós-parto?
Quando a Maria nasceu voltei ao normal. Uma coisa impressionante. Mas foi muito difícil ficar grávida. Hoje em dia me arrumo inteira pra sair, porque na época o Hugo reclamava muito que eu não saía. A gente estava junto há muito pouco tempo, eu estava com medo de ele achar que eu era essa chata de verdade, que eu estava fingindo lá atrás pra ele que eu era legal, sabe…