‘Dava metade do salário para o Hospital do Câncer’, diz Magal sobre Sérgio Reis

‘Dava metade do salário para o Hospital do Câncer’, diz Magal sobre Sérgio Reis

Sonia Racy

27 de setembro de 2021 | 00h50

Sidney Magal. Foto: Rodrigo West

Após o hiato provocado pela pandemia de covid, Sidney Magal, aos 71 anos, mostra seus clássicos na volta aos shows presenciais, com apresentação no Tom Brasil, dia 30, em São Paulo. Conta que sempre se esquivou de drogas nas festas e camarotes. E revela que não existe apenas um Sidney mas dois, o Magal-artista, que vendeu um milhão de discos na década de 70 e atuou em novelas, e o Magalhães, a pessoa longe dos holofotes. Seu nome é Sidney Magalhães, mas quando começou a cantar em palcos internacionais aceitou adotar o nome artístico Magal já que o som “lh” era difícil de pronunciar em outros idiomas, como sentenciou um empresário.

O artista também terá sua história de amor com a mulher Magali retratada no cinema. “Eu me apaixonei por ela no primeiro dia que a vi”, lembrou ele em entrevista concedida à repórter Paula Bonelli na semana passada. Com o título Meu Sangue Ferve por Você, o filme terá elenco de nomes famosos da TV. Até hoje Magal e Magali estão juntos – há 40 anos – e têm três filhos. Sobre Sérgio Reis, seu amigo que se envolveu em polêmica com a Justiça ao atacar o STF, diz que ele exagerou, mas é uma pessoa boa: “Dava metade do salário para o Hospital do Câncer”.

A seguir, a entrevista com o cantor do refrão “Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar, quero ver o seu corpo dançar sem parar”. Magal é filho de uma mãe que gostava de cantar e primo do poeta e compositor Vinicius de Moraes.

Está preparado para retomar os shows?

Sim, estou precisando recuperar o tempo perdido. Quando a pandemia foi instalada eu tive que adiar 15 shows, mas me dá uma pena muito grande porque não tenho mais 30 anos de idade. Olho para a minha carreira e em algum momento vou parar, tenho essa consciência sem a menor tristeza nem preocupação. Esse momento foi encurtado pela pandemia. Agora continuo tendo gás, vontade, tanto é que eu vou fazer um novo show no Tom Brasil, em 30 de outubro.

Como você cuida da sua voz? Tem alguma estratégia especial?

Isso é muito engraçado, já fiz vários musicais e fui dirigido por pessoas incríveis, como Marília Pêra, Bibi Ferreira, Wolf Maia e Miguel Falabella. A Bibi e o Cauby Peixoto se preocupavam muito com a voz. E Cauby sempre dizia que eu falava muito alto, cantava muito forte, que devia me poupar porque a voz era preciosa. A Bibi então entrava de cachecol no teatro para não pegar o ar-condicionado e falava baixinho. E eu dizia que nada, bebia água gelada no palco. Acho que a minha natureza me ajudou bastante. Com mais de 40 anos de carreira nunca faltei a um show sequer por rouquidão. Lógico, agora eu estou com 71 anos, tenho que ficar preocupado, mas a minha potência vocal é muito grande.

Conviveu com as drogas nas festas na década de 70?

Sim, num meio onde as pessoas cheiravam, fumavam baseado a torto e a direito e eu nunca fumei nem cigarro normal. Bebia, ria, brincava, convivia, e as pessoas eram todas normais pra mim, desde que elas me respeitassem.

O artista deve atuar politicamente na sua opinião?

Sempre fui contra, porque nós temos muita força. Tem muito artista aí que, me desculpa, são jovens, irreverentes, que dizem qualquer coisa e não estão nem aí. Então é muito perigoso sempre.

O que achou do caso do cantor Sérgio Reis, cujo áudio veio a público, convocando atos de caminhoneiro para pressionar STF às vésperas do 7 de Setembro, e em consequência virando alvo da PF?

É, exatamente. Ali, na verdade, não houve uma intenção dele, senão teria entrado na internet e dito ‘vamos lá, galera’. Conheço o Sérgio bastante, ele é muito correto, bom de coração. Tanto é que durante o tempo todo que exerceu o mandato (de deputado federal), ele pegava pelo menos metade do salário dele e dava para o Hospital do Câncer, em Barretos, coisa que pouquíssima gente faz. Agora com a idade a gente vai querendo chutar o balde. A minha mãe morreu com 80 e poucos anos. Às vezes, eu tinha vergonha de sair com ela porque dizia barbaridades para as pessoas. Quando a gente tem mais idade, perde um pouco a noção.

Agora, qual é a expectativa para o novo filme que mostra o seu encontro com a sua mulher?

É um musical baseado nessa história, que é muito bonita. No dia em que a encontrei a pedi em casamento. Eu já era o Sidney Magal e me apaixonei por ela no primeiro dia em que a vi durante um apresentação em um concurso de beleza em Salvador. Ela tinha 16 para 17 anos e eu 29 anos. Depois no hotel, eu a encontrei novamente, me declarei, chorei, falei que não tinha dúvida de que nascemos um para o outro. E realmente estamos juntos há 40 anos.

 

Sidney Magal na década de 70. Foto: Arquivo pessoal de Sidney Magal

Quem viverá a sua mulher no set de filmagem?

Quem interpretará a Magali será Giovanna Cordeiro, que é linda. O Luís Miranda foi convidado para fazer também um papel. E Emanuelle Araújo, atriz e cantora baiana, fará a mãe da Magali. A trilha sonora obviamente vai ser do Sidney Magal. E a direção é de Paulo Machline e a produção de Joana Mariani.

Qual será o ator que vai interpretar você?

Esse é um pequeno problema, já tinha escolhido realmente o Zé Loreto para fazer eu. Ele começou a ter muitas aulas de expressão corporal, me ligou algumas vezes dizendo que estava não conseguindo fazer os meus gestos, que sabia como era, mas fazia muito duro, agressivo. Disse para ele que eu descobri o meu lado feminino muito cedo, lá atrás. Mas o Zé Loreto também foi convidado para fazer Pantanal, na TV Globo, e vai inviabilizar porque as filmagens são na mesma época e vão começar para valer em março de 2022. E aí talvez não seja mais ele.

E o outro filme sobre sua vida, o documentário “Me Chama que eu Vou” ainda rende frutos?

Sim, o filme abriu um dia do festival brasileiro Infinito de cinema em Miami e foi muito interessante porque eles colocaram Sidney e Magal no título. Aí eu pensei acho que tem alguma coisa errada: será que eles estão pensando que é uma dupla sertaneja? Mas era para o público também entender melhor. Existe o Sidney e existe o Magal, o personagem e o artista.

E qual balanço faz desse registro?

O documentário Me Chama que Eu Vou me deu já muitas alegrias, dirigido por Joana Mariani. Primeiro, por ter sido feito comigo estando vivo, o que é muito bom. E segundo que ganhou um Kikito de melhor montagem no Festival de Gramado. E deve ser veiculado no final do ano na Globonews e no Canal Brasil.

Fale mais, por favor, sobre o estilo Magal.

Eu tenho um senso crítico muito grande, sei o que fiz de exagerado a minha vida inteira, meus olhares, minhas bocas Eu tinha uma coisa de mexer com a narina que até o Marcos Mion uma vez tirou altos sarros no programa dele, falando que o Magal parecia um cavalo selvagem, ele mexe com as narinas quando quer fazer charminho para a plateia.

Você foi do rock para a lambada e o brega?

Sempre achei muito interessante, por exemplo, os meus colegas todos, Reginaldo Rossi, Odair José, Fernando Mendes, José Augusto, eles sempre eram muito mais românticos e eu era muito mais performático, com o meu gênero latino, mas não necessariamente era brega. Fui, porém, incluído nessa geração brega toda que existiu. Até um certo momento, em que houve uma reviravolta, o público mais “elitizado” começou a me observar mais e achar que eu tinha uma verdade muito grande, não era um “babacão” que inventou uma moda.

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