“Daria nota 7 ao Governo Bolsonaro”, diz Carlos Vereza

“Daria nota 7 ao Governo Bolsonaro”, diz Carlos Vereza

Sonia Racy

12 de dezembro de 2019 | 08h30

ATOR CARLOS VEREZA. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

 

O ator Carlos Vereza, 80 anos, prepara-se para estrear, dia 18, a série de entrevistas Plano Sequência na Cinemateca Brasileira (TV Escola), contando a história do cinema. Para isso, relata nesta entrevista à repórter Cecília Ramos, há um mês trocou o Rio por SP e está gravando 26 entrevistas, com artistas como Regina Duarte, Juca Oliveira, Mauro Mendonça, Zezé Mota e Othon Bastos. Acabou de ser premiado no Festival de Cinema de Milão com seu filme O Trampo, que diz ter feito “com R$ 300 mil e o meu fundo de garantia”. Atuou em mais de 30 novelas na TV Globo, entre elas Hilda Furacão, O Rei do Gado, O Cravo e a Rosa e a última, em 2012, Amor Estranho Amor.

Eleitor de Bolsonaro, Vereza aprova a gestão de seu governo na economia, mas reprova na cultura e tem críticas na política e na comunicação. Seu balanço geral: “Daria ao governo nota 7 ao governo”.  Na avaliação do ator, o Planalto erra na comunicação com a população. Diz que os filhos do presidente “deviam ficar quietos” pois “geram polêmicas desnecessárias”. “Continuo acreditando no governo Bolsonaro, mas não compro o pacote todo”, afirma Vereza. Veja a entrevista completa:

No seu Facebook, o senhor afirmou que, no Brasil, “as comissões julgadoras dos festivais de cinema são de esquerda, estão aparelhadas”. Sente-se censurado? Por quem?
Aqui, nem viram meu filme (O Trampo). Aliás, devem ter visto agora que foi premiado em Milão. São inquisidores. Eu passo por isso, o meu amigo Josias também (cineasta pernambucano Josias Teófilo, autor de Jardim das Aflições sobre Olavo de Carvalho, e que finaliza Nem Tudo se Desfaz, com narração de Vereza e que conta a guinada conservadora no Brasil a partir dos protestos de 2013 até o atual governo). Eu apoiei o Bolsonaro… Enfim, é uma democracia, penso eu. E eles ficam com esse mi-mi-mi de que são censurados mas são eles que censuram. Como lá em Milão e em Madri não estão preocupados se quem faz filme votou em Bolsonaro, Lula ou no Pequeno Príncipe, eu ganhei.  Senão, lá, o festival perderia prestígio. Aqui, eu tenho outro tratamento. Mas veja, não estou me colocando como vítima.

Bolsonaro transferiu a Cultura para o Ministério do Turismo e ambos os cargos são ocupados por pessoas de alta confiança e prestígio junto ao presidente. Ele também pensou em extinguir a Ancine e chancela nomeações polêmicas na Cultura. O que tem achado? 
Deixa eu te explicar carinhosamente. Não acompanho, não. Minha preocupação, sem drama, é gravar as 26 entrevistas para o programa da Cinemateca. Não estou escolhendo ideologicamente os entrevistados. O Guilherme Almeida Prado (diretor de cinema), por exemplo, fez críticas ao governo Bolsonaro e eu não cortei uma vírgula dele. Eu sou livre pensador. Não sou de esquerda ou direita.Não fico acompanhando quem foi nomeado. Não sou funcionário do governo. E como não peço financiamento, eu não sei desses nomes. O que eu sei é que o Lula não ficou 16 anos dormindo numa rede. Ele aparelhou a cultura, as universidades, tudo. Lula aplicou os Cadernos do Cárcere do Gramsci (Antonio Gramsci, filósofo, escritor, político, autor do conceito de hegemonia cultural)… Estou preocupado em dar entrevista a você.

Mas porque a preocupação?
Porque vocês (jornalistas) fazem um copidesque… Quando eu ganhei em Madri, disseram (a imprensa no Brasil) que foi um prêmio qualquer.

Não teremos esse problema de transcrição da sua entrevista. Vamos continuar…? 
Então tudo bem. Ok.

O que quis dizer quando escreveu que “o atual governo precisa abrir o diálogo com os setores da cultura…”?
É… Porque ficam de birra. Se eu fosse ministro da Cultura (no Governo Federal, o cargo é secretário), eu chamava todos os setores para conversar.

Conhece Roberto Alvim, secretário de Cultura do governo?
Só de nome. Fiquei perplexo que arrancaram cartazes na Ancine. É inacreditável! O que a cultura (do governo) tinha que fazer é chamar as várias matizes da cultura e falar: ‘O que que vocês querem? E aqui está o que podemos dar’. E a partir daí construir o diálogo. Agora ficar de birra não vai dar em nada. Se eu fosse ministro da Cultura, como eu disse, eu chamaria todo o setor. Mas aí ficam guerreando. Quando vejo muito radicalismo, eu me afasto. Sou espírita. Trabalho muito com energia.

Como avaliou o país após a saída de Lula de Curitiba?
Achei bom ele sair porque acabou com o papel de vítima dele, de preso político. Eles achavam que o Lula ia sair de Curitiba e o país ia se levantar, mas não aconteceu nada. Exceto meia dúzia de militantes. O povo não está nem aí. Nem em Parati (no Rio, onde Lula tirou dias de férias e de onde retornou nesse fim de semana).

A própria justiça brasileira diverge sobre a prisão do ex-presidente, o Congresso discute a prisão em 2.a instância, tem a ampla defesa na Constituição Federal… Lula e aliados questionam a condução do processo no caso da Lava Jato sob o comando do então juiz Moro. Como avalia tudo isso?
O Moro é uma quase unanimidade no País. Isso que dizem dele, inclusive por aquele jornalista Glenn (Glenn Greenwald, do The Intercept), foi uma tentativa absurda de desqualificar o Moro. Quebraram a cara. Agora concordo com você sobre a Constituição, mas por que os ministros do STF votaram pela prisão em 2.a instância em 2016 e agora mudaram de ideia? De repente? Em tão pouco tempo? E quantos habeas corpus do Lula passaram na frente?

Começou a ser exibida esta semana na TV Escola a série Brasil – A Última Cruzada, tendo na programação o escritor Olavo de Carvalho (radicado nos EUA), o deputado federal Luiz Philippe Orleans e Bragança (do PSL bolsonarista) e o novo presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira. O senhor vê esse caso como aparelhamento? Uso de emissora pública para propagar a visão ideológica de um grupo específico?
Não acompanhei isso não, porque estou gravando todo dia. Eu sou contra qualquer tipo de aparelhamento, de esquerda ou direita. A arte tem que ser livre! Tô fora disso! Eu, hein! Eu estou sabendo disso por você.  Vão entrevistar outras pessoas? E estrangeiros, vão? Porque se não vão, isso não é legal não. Não acho bom. Se entrevista Olavo de Carvalho, tem que entrevistar também um oponente. Isso para mim é democracia.

Seu programa também é da TV Escola, do Ministério da Educação…
Fui contratado pela Cinemateca. Como falei, não fiz as entrevistas por escolha ideológica. A intenção do projeto é mostrar quem faz o cinema no Brasil e que ele é feito por pessoas dos bastidores também, atrás das cenas. Fiquei apaixonado pela Cinemateca, pelo prédio… Fiquei perplexo porque vários colegas meus de São Paulo não sabiam onde ficava a Cinemateca. Meu Deus, cara! Deve ser a maior da América Latina. Já estou há um mês gravando. Dediquei (o programa) à dona Olga, funcionária há 40 anos da Cinemateca. Vai abrir a série com ela. Agora estou procurando o Galante (Antonio Polo Galante) distribuidor importante do cinema da Boca do Lixo (polo de produção do Cinema Marginal, na região da Luz de SP). Ele está morando em Santa Catarina. Boca do Lixo devia ser tombada como patrimônio histórico. Mesmo na ditadura, não parou de fazer filme.

O senhor chegou a falar no programa Conversa com Bial, dia 11 de novembro, “Carlos, vá para casa, vá ser vereador (no RJ)”. E exatamente no dia seguinte, o filho 02 de Bolsonaro desativou suas contas nas redes sociais. Voltou a postar esta semana, após 26 dias ‘recluso’. Já o deputado federal Eduardo Bolsonaro acabou sem ir para a Embaixada dos EUA e o senador Flávio Bolsonaro tem questões a responder na Justiça… E tem o caso da vereadora Marielle… Acha que os filhos atrapalham o pai?
Eu reparei que o Carlos foi para casa (risos). E foi por acaso, viu? (risos). Eu conheci o Carlos no hospital. Ele acompanhava o pai (internado após a facada). Veja bem, não é nada pessoal. Carlos seguiu meu conselho. Fiquei muito contente. Ele parou de tuitar no dia seguinte. Entendo os filhos preocupados com o pai. Só que o pai é presidente da República. Os filhos deviam ficar quietos mesmo. Eles geram polêmicas desnecessárias. Porque a imprensa, com todo o respeito, toca no assunto de efeito imediato. E deixa de falar da melhora da economia, da carteira assinada, das ações do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, que é um craque. Os filhos ficando quietos, essas notícias aparecem.

Bolsonaro já esteve na sua casa e o senhor, na dele. Também o visitou no hospital, após a facada na eleição. Tem falado com o presidente?
Não. Última vez foi em janeiro, quando me chamou no Palácio do Planalto. Bolsonaro foi até minha casa, levado por um amigo em comum, antes de ser presidente, um pouco antes de tomar a facada (em setembro de 2018, em Juiz de Fora, MG). Visitei-o no hospital, em SP, e lá gravei um vídeo de apoio à eleição dele. Também fui à casa dele no Rio… E em janeiro (após a posse) ele me chamou lá no Palácio (Vereza tem foto com o presidente no gabinete no Planalto do Planalto dia 15/01).  Ele é uma pessoa honesta, sabe? Gostei da conversa dele lá em casa. Agora ele tem uma péssima assessoria na área da cultura. Engraçado, sabe o que é? Depois das eleições, apareceram bolsonaristas (risos). Não sou bolsonarista, mas o programa dele (então candidato a presidente) era o mais consistente. Ele foi o único que falou das crianças, da família, da pauta dos costumes. Eu e você nascemos de uma família.

A chamada “pauta de costumes” (que vai do aborto e questões de gênero à Escola sem Partido) e a armamentista de Bolsonaro têm seu apoio?
Veja, sou a favor das armas para o homem do campo. Agora na cidade, não. O brasileiro não está preparado para isso (andar armado). Numa briga de trânsito as pessoas já não se controlam… Também sou contra a caça. Sobre a pauta de costumes, o que eu penso é que a ideologia de gênero é a coisa mais covarde que existe. Faz parte de um falso conceito segundo o qual ninguém nasce menino ou menina, que é uma construção social. Só que o DNA já determina o gênero. Pode tomar hormônio que não muda. O dia em que menino tiver útero, ovário e TPM eu vou repensar.

Mas educação de gênero, por exemplo, não é ideologia, e sim direitos humanos, igualdade… Não acha que seriam questões humanas e, inclusive, de saúde pública, na questão do aborto, do transgênero? 
Isso é conversa fiada. Isso tudo é para descontextualizar a heterossexualidade, para descaracterizar a sociedade. Não venha me colocar como pauta política. É pauta ideológica. Resultado de uma agenda progressista. Um hermafrodita é uma caso em 500 mil. Era uma excepcionalidade, agora é uma avalanche. Isso nunca existiu na época de Clodovil, da Rogéria… Agora veja, não sou homofóbico. Sou contra quem é. Tenho infinidade de amigos gays. Homossexual sempre existiu.  E daí? Tudo bem! Agora não me venha dizer que existe poli-amor e que a pessoa acorda apaixonado por um sapato ou uma planta. Pelo amor de Deus não me coloque como homofóbico.

O senhor já fez críticas do governo ao próprio presidente?
Quando conversei com Bolsonaro (em Brasília), falei mais sobre o País, o que eu esperava (da gestão), mas nada a ver com a cultura. O jeito dele é muito engraçado. Fui lá como convidado. Só vou como convidado. Eu, como ator, poderia só me preocupar com a cultura e a pauta de costumes. Mas não sou egoísta. É muita gente sem carteira assinada. Eu prefiro que esta pauta social seja atendida primeiro. Prefiro que o País não tenha 13 milhões de desempregados.

Que nota o senhor daria ao Governo Bolsonaro?
Nota 7. Um ano é pouco e continuo acreditando no governo dele. Na economia, é irrepreensível. Paulo Guedes é um craque. O Moro também. Na política, tenho sérias críticas a fazer. A gente não pode sair de um viés ideológico para outro. O Brasil não pode viver assim: é preto ou branco, é Flamengo ou Vasco. O governo também erra totalmente na comunicação. Bolsonaro não tem uma boa assessoria.

Então passou por média…
É… (risos). Nota 7 é melhor que 5. Eu diria que 7 é um governo bom. Para chegar a 10 seria ótimo. Um ano é pouco para chegar a isso. Mas eu continuo acreditando no governo dele, só não compro o pacote todo.

São 60 anos de sua carreira. Qual o seu sentimento?
Não fico triste. É uma rapaziada que pega pesado nesse aparelhamento político e ideológico. Eu não sou otimista. Isso vai demorar, por baixo, uns 10 anos para mudar.

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