Daniela prega sua ‘pequena revolução’

Daniela prega sua ‘pequena revolução’

Sonia Racy

25 de fevereiro de 2017 | 00h30

S11 SAO PAULO SP 23/02/2017 EXCLUSIVO COLUNA DIRETO DA FONTE - Foto Daniela Mercury Crédito: Célia Santos

Crédito: Célia Santos

Este ano o carnaval é das mulheres. Quem garante é Daniela Mercury, que vem mais assumida do que nunca. A rainha do axé se apresenta amanhã e segunda na Bahia e dia 5 em SP. Há três décadas ela usa a data para passar recado contra o preconceito. Para Daniela, o feminino existe em todos, independente de gêneros e escolhas sexuais. “Se as mulheres não fossem tão poderosas não sofreriam tanta violência”. Confira os melhores trechos da entrevista.

Sua companheira, Malu Verçosa, afirmou que seu carnaval tem três temáticas: o empoderamento dos negros, o dos gays e o das mulheres. O que pretende mostrar?
A violência contra a mulher, a homofobia e o racismo se tornaram temas obrigatórios. O desrespeito aos artista e à cultura, além da intolerância religiosa são temas que também estão dentro dos meus discursos artísticos. Por isso é que eu canto. Para celebrar quem somos, alimentar nossa fé em nós mesmos, para focar no que é positivo e trazer otimismo e alegria. Nesse carnaval, vou me valer da moda, da arquitetura, de coreografias, músicas, letras, cenas teatrais, artistas convidados e cenários pra fazer a minha pequena revolução.

Convidou a drag queen XX para representar o poder feminino em seu trio elétrico. Isso constitui mais um ponto dessa ‘pequena revolução’?
Todos os seres humanos têm características femininas. Para o dia em que vou abordar o empoderamento feminino, inventei um vestido gigante pra simbolizar isso. Se as mulheres não fossem poderosas, não sofreriam violência. Também proponho no espetáculo que as mulheres aprendam a lutar. Então, em cena as bailarinas lutam, pois nossa única fragilidade é a força física.

Há blocos do Rio e de SP que se dizem dispostos a não cantar mais músicas tidas como politicamente incorretas. Qual sua opinião sobre o assunto?
Acho que as músicas expressam o que pensamos e sentimos. Não suporto proibições. Eu nunca cantei temas com os quais não concordo. Há muitas músicas machistas e racistas em todos os gêneros musicais e em todas as épocas. A música educa a gente de forma subliminar. Acho que a sociedade tem que reclamar e excluir da sua vida as músicas que promovem qualquer tipo de preconceito e violência. Mas não com leis. Pois isso configura censura e eu sou a favor da liberdade de expressão.

Acha que a posição do artista é de formador de opinião?

O artista tem que ter coragem de expressar o que pensa. Isso o torna importante para a arte do seu tempo. Nascemos pra quebrar tabus. Um artista que não muda nada, que faz o que já é norma, não acrescenta nada à humanidade. Os artistas são estranhos terrestres, pois vivem em outra dimensão de percepção de tudo.

São horas de ensaio para o carnaval. Como organiza sua rotina pré-folia?
Estou há meses sem dormir, pesquisando pra decidir de que maneira abordar os temas. Fiz os figurinos do balé, criei todas as ideias pra as performances, os roteiros, decidi o repertório, convidei coreógrafos, criadores de moda, estilistas e bailarinos pra fazerem as cenas comigo no trio elétrico. Ensaiei bastante e tive muito poucos momentos de descanso. Tudo nesses meses foi em função do carnaval. O pensamento, a preparação física com Pilates, dança e musculação, a dieta de proteína e até a vida em família, tudo teve o carnaval como foco. Todos os filhos se envolveram e Malu mergulhou comigo, como sempre. / SOFIA PATSCH