Cúmplices, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres falam sobre a relação

Cúmplices, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres falam sobre a relação

Sonia Racy

19 de abril de 2021 | 00h35

Fernanda Torres e Fernanda Montenegro. Crédito: Hick Duarte

Mãe e filha, que passaram meses confinadas juntas em sítio, comemoram trabalho em família

Fernanda Montenegro e Fernanda Torres ficaram quatro meses isoladas no sítio da família, na Serra do Rio de Janeiro, durante a pandemia. Nesse período, mãe e filha não pararam de produzir e gravaram o episódio Gilda e Lúcia para a série Amor e Sorte, que estreia em setembro, na Globo. O tema não poderia ser mais atual: as relações em tempos de pandemia. E como ficou o clima entre as duas durante a temporada no sitio? “Aceitei a situação logo de inicio, já a mamãe foi ficando mais revoltada. Ela é uma workaholic e ficar sem o trabalho estava muito difícil para ela”, conta Torres. “Trabalhar em família durante esse tempo foi muito prazeroso. Esse especial cravou para sempre um momento também de realização artística, de comunhão familiar, de aceitação de uma nova possibilidade de sobrevivência diante de uma tragédia como esse vírus que está em cima do mundo”, complementa Montenegro. “No fim, saímos mais unidas ainda, com admiração e amor redobrados”, concluí Torres.

Com a proximidade do Dia das Mães, mãe e filha foram convidadas pela Hering à protagonizar campanha que exalta a diversidade das mães brasileiras. Através de e-mails trocados com a repórter Sofia Patsch, elas falaram sobre o que mais admiram uma na outra, como é quando trabalham juntas, as comparações que Torres já sofreu por ser filha de Montenegro durante a carreira, a escolha de Joaquim Torres Waddington em seguir os passos da avó e mãe, entre outros assuntos. Confira na entrevista a seguir.

Passaram quatro meses da quarentena isoladas no sítio da família. Como está a relação mãe e filha com essa convivência intensa? Houve algum estresse?
FT- Aceitei a situação logo de inicio, já a mamãe foi ficando mais revoltada, ela é uma workaholic e ficar sem o trabalho estava muito difícil para ela. Até que uma hora a gente aceitou aquele lugar como nosso. Quando começamos a gravar a série, as coisas deram uma acalmada.
FM – Trabalhar em família durante esse tempo foi muito prazeroso. A série retratou bem esse momento da nossa vida. Esse especial cravou para sempre um momento também de realização artística, de comunhão familiar, de aceitação de uma nova possibilidade de sobrevivência diante de uma tragédia como esse vírus que está em cima do mundo.
FT – No fim saímos desse período mais unidas ainda, com admiração e amor redobrados.
FM – Nos encontramos de uma forma não pegajosa, mas amorosa, essencial, muito humana, sem demagogia.
FT – Mas essa nova onda epidêmica está sendo ainda mais dura. Continuamos entre lá e cá, sobrevivendo e nos amparando.

Como é a Fernanda Montenegro como mãe?
FT – Minha mãe nunca nos impôs nada, crença, diploma, sucesso, nada. Ela teve a calma de nos deixar ser o que quiséssemos ser. E nos passou, por osmose, um senso de independência e responsabilidade que acho que carrego até hoje comigo.

E Fernanda Torres como filha?
FM – A Nanda é uma filha brilhante. Cuidadosa, amorosa, realista. Sempre fomos muito próximas, mas esse tempo de pandemia juntas no sítio trouxe pra mim um cuidado extremamente especial. Me senti amada e até protegida, mas sem ser invadida. Sem falar na grande profissional que ela é.

O que mais a Fernanda Montenegro admira na Fernanda Torres e vice-versa?
FT – Admiro a lucidez de mamãe. Uma mulher com quase 100 anos com essa clareza, sem medo de se posicionar, que já viu tanto na vida, momentos de muita tristeza e alegrias. Com uma vontade única de continuar produzindo e vivendo.
FM – A Nanda é uma pessoa rara. Densa, estudiosa e dedicada, não só no lado profissional. Conviver com a Nanda é rico. Sinto que é uma troca cheia de aprendizados.

Quando estão atuando juntas, como fica a relação pessoal?
FT – Quando faz um trabalho, no fundo, você adoece daquilo, vive aquilo profundamente. E as pessoas com quem está trabalhando viram a sua família. Eu e mamãe falamos muito de arte, de livros, filme, mas é muito diferente quando estamos no jogo profissional. Nesse caso, minha relação com a mamãe não é muito diferente da minha relação com a Andréia (Beltrão), ou com o Andrucha (Waddington). Você vira família de profissão. Quando a gente está como mãe e filha, a gente é mãe e filha. Falamos sobre como está a vida, essa pandemia, o momento do Brasil, conversas que todos nós temos.
FM – Quando entramos como artistas, com a nossa profissão e o que essa palavra tem de mais bonito, que professa uma atividade, o que está em jogo não é mãe e filha, mas a crise das personagens. É complicado porque talvez achem que a gente traz a mãe, traz a filha, mas não.

Em todos esses anos, ter o mesmo nome da mãe gerou alguma situação inédita ou curiosa?
FT – Acho que sobrevivi a isso, de certa maneira, ignorando o fato. O meu nome, na verdade, é idêntico ao do meu pai e semelhante ao nome artístico da minha mãe. Os nomes são entidades abstratas, que só se concretizam quando associadas a alguém. Fernanda como eu, só existe eu mesma. Já me perguntaram se eu era a filha da Fernanda Torres, pelo excesso de Fernandos na família.

Alguma vez a Fernanda Montenegro sentiu que a filha foi mais cobrada na profissão por ser sua filha? E Fernanda Torres, alguma vez sentiu essa pressão?
FM – No início da carreira sim. Mas depois de alguns anos em que a Nanda foi encarando os papéis de frente, mostrando a que veio, suas opiniões muito embasadas, as cobranças foram diminuindo. Nanda entendeu cedo que a nossa profissão sempre foi muito séria, mas aprendeu a não se dobrar às comparações.
FT – Acredito que sempre terá comparação. Minha mãe é um dos principais nomes da dramaturgia brasileira e com uma carreira construída com muito trabalho, horas e horas de estudo e ensaios. Não tem como comparar a minha carreira com a dela, são distintas. E como ela nunca me cobrou, mas sempre me orientou e trocou muito, esse caminho foi um pouco mais leve.

Como avó e mãe encararam o neto/filho Joaquim Torres Waddington querer seguir o mesmo caminho na atuação?
FM – Somos uma família circense. Está no nosso sangue a arte. Respiramos e vivemos disso. Pra mim, ver o meu neto seguindo os mesmos caminhos é motivo de muito orgulho.
FT – Joaquim é um cara estudioso. Está fazendo Filosofia e gosta muito do curso. Atuar para ele ainda não é o único caminho, a faculdade está em primeiro plano. Caso ele se decidir em seguir como ator, não acredito que será fácil, pelo contrário. Vivemos em uma sociedade muito cruel, onde comparações são feitas o tempo todo.

Ser ator é uma vocação?
FM – Sim, mas é uma vida inteira de estudo, dedicação e aprendizado constante. Um bom ator precisa se dedicar para crescer, para interpretar o seu papel com maestria e humanidade. Nossa profissão se trata de dar vida à outras pessoas, isso requer emoção e seriedade.

No caso da família, acreditam ser algo hereditário?
FT – Não sei. Acho que a família é menos importante do que a geração da qual você faz parte. Ninguém atua, escreve ou cria sozinho. Você pode ter talento, vocação, mas se não encontrar um ambiente propício a desenvolver esses dons, nada acontecerá. A arte é uma atividade coletiva.

Qual a opinião de vocês sobre essas produções a distância feitas na quarentena.
FM – Nesses anos todos de profissão, nunca parei de produzir. Então quando vieram novas possibilidades foi essencial para a nossa sanidade, para nos movimentar. Quase uma terapia ocupacional.
FT – Elas são o reflexo da hora, do momento. E valem muito por isso. Mas não se faz teatro à distância, e o teatro faz falta. Mas se essa desgraça continuar, talvez a gente seja obrigado a evoluir, a descobrir uma linguagem que vá além do quadrado. Veremos.

Como anda a relação das duas com a fé?
FM – Santo Agostinho dizia que “se você duvida, é porque você crê”. Essa frase põe a gente no colo. Então creio, tenho fé.
FT – A fé é algo muito pessoal. A fé existe, ponto, e cada um se relaciona com ela à sua maneira.
Interinos: Marcela Paes, Paula Bonelli e Sofia Patsch.

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