‘Culturalmente, não somos muito carinhosos com nossa memória’

‘Culturalmente, não somos muito carinhosos com nossa memória’

Sonia Racy

08 de junho de 2015 | 01h00

Cantora paulistana tira do baú repertório em seu disco Corpo de Baile, defende uma política de democratização da cultura e aponta diferenças entre arte e indústria

Foto: Denise Andrade/Estadão

Com quatro indicações ao Prêmio da Música Brasileira desse ano – que acontece depois de amanhã, no Theatro Municipal do Rio – Mônica Salmaso já se sente vitoriosa. O motivo é simples: está feliz e orgulhosa de seu mais novo disco, Corpo de Baile, feito a várias mãos “competentes e merecedoras”, conta.

O repertório do disco – composto de parcerias entre Guinga e Paulo César Pinheiro – chegou à cantora há dez anos. Na ocasião, Mônica quase “desidratou de tanto chorar”, revelou em entrevista à coluna, em sua casa, no bairro da Aclimação. A cantora foi arrebatada pelas músicas que estavam guardadas havia 40 anos. Entretanto, na época não se sentia pronta para gravá-las. Foi só depois do lançamento de Alma Lírica, em 2011, que revisitou os trabalhos e decidiu encarar o desafio, chamando grandes arranjadores e músicos para acompanhá-la na empreitada de tirar as canções do baú de forma responsável e carinhosa.

Esse exercício de aprendizado – sobre a preservação da memória – é para ela uma questão crucial, que exige um engajamento maior: “Tudo brota aqui com tanta espontaneidade, quantidade e diversidade… que acabamos não tendo carinho por preservar”. E pondera que, “por um lado, isso se renova”, mas por outro “existe uma identidade na qual precisamos nos reconhecer”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Você é a cantora com mais indicações para o Prêmio da Música Brasileira. Como enxerga esse reconhecimento? 
Fiquei muito feliz. Esse prêmio é muito importante – e ser indicada já é uma felicidade. E esse trabalho, Corpo de Baile, teve muitos músicos envolvidos, uma produção muito cuidadosa, os arranjos… Essas indicações valorizam esse trabalho feito a várias mãos muito competentes e merecedoras.

Pelo visto, foi um longo “namoro” com o repertório, não?
Sim. Essas músicas, parcerias do Guinga e do Paulo César Pinheiro, têm mais de 40 anos e muitas delas eram inéditas. Quando esse material chegou às minhas mãos, há dez anos, tomei um susto, fiquei louca. Quase desidratei de tanto chorar (risos). Pensei: “Meu Deus, como isso está dormindo em um baú? Uma densidade e uma qualidade como essa…”. Eu vivo de cantar o que os outros fazem, meu ofício é esse. Então, abrir um baú e encontrar esse material quietinho ali foi uma surpresa.

Como foi o seu processo? 
Longo… Eu tinha uma sensação de responsabilidade e medo. O material era muito importante para fazer uma aposta sem consistência. Depois de dez anos, me vi pronta para fazer o Corpo de Baile. Aí começou outra novela que foi o processo, os tons, os arranjos…

Você está em turnê com o disco. Gosta de atuar no palco? 
Gosto muito das duas coisas. No estúdio há uma situação que eu adoro muito, de concentração no som. Mas o palco, por sua vez, tem o ofício de oferecimento. É a hora em que se compartilha. Uma coisa que nos liga humanamente.

A seu ver, faz sentido a ideia de que a música é algo extremamente misterioso? 
É uma arte e a arte transcende. Claro que ela vem de um trabalho concentrado, de disciplina. Não cai de paraquedas. Mas o “turning point” – a coisa que a faz tornar-se arte – é um toque divino. Li uma vez que Zeus, o deus grego, criou as musas, que são as artes, para lembrar os homens da sua natureza divina. Isso independe de religião.

E, nisso tudo, o artista? 
Não concordo em nada com essa tese de que o artista é um ser iluminado. Ele é apenas o “veículo” disso. Ele não é glória. E ter consciência disso é muito transformador, porque a vida é uma engrenagem de todo mundo. Assim, não adianta o cantor achar que ele é um mito. Acho que se todos dignificassem o que fazem, a vida seria mais legal para todo mundo. Sou contra essa visão do artista como um ser distante.

Acredita que os reality shows de música, como SuperStar, The Voice e outros contribuem para essa imagem de celebridade? 
Esses programas não têm nada a ver com arte. Talvez algumas dessas pessoas até sejam artistas, mas essa indústria da “celebritização” não tem relação com a arte. É um mercado que cria um foco em uma pessoa para ela vender coisas. Para fazer propaganda, lançar moda, usar uma cor de esmalte. É para criar uma coisa que “vai bombar”. É muito raro a partir disso fazer arte. Tem quem faça, mas é raro.

Você tem um trabalho de recuperação de composições desde os Afrosambas. Acredita que o Brasil não tem essa preocupação de preservar a memória? 
Culturalmente, não somos muito carinhosos com nossa memória. Somos muito abundantes em tudo: cultura, fruta, árvores, comidas, danças populares. Tudo brota com tanta espontaneidade, quantidade e diversidade… que nós todos acabamos não tendo carinho por preservar. Por um lado, isso se renova, mas por outro existe uma identidade na qual precisamos nos reconhecer. Não sei se é guardar em um museu, mas é se reconhecer.

Acha que a restrição dos direitos autorais dificulta isso? 
Acho que temos um sistema errado no Brasil. Quando quisemos gravar os Afrosambas – que são onze músicas da mesma editora – nem o Baden (Powell) e nem o Vinícius (de Moraes) estavam vivos. Tivemos que falar com a editora e acabamos gravando nos EUA, por um preço de tabela. Acho que a família ou quem detém os direitos não deveria poder bloquear uma obra de arte. Receber por isso, sim, mas não bloquear. Direito autoral é uma coisa, direito sobre a obra é outra. Bloquear obras é matar uma história.

E como vê a polêmica da Funarte e a ideia de “descentralizar” a Lei Rouanet? 
É uma discussão difícil. Entretanto, acho que o governo pode e deve – já que o dinheiro é dele e não do patrocinador, porque vem via isenção fiscal, criar uma política cultural. Isto é, ferramentas que façam com que o dinheiro seja gasto de maneira mais distribuída. Mas não dá para fazer uma censura e dizer que tal pessoa recebeu patrocínio porque ficou famoso.

Como deve ser feito, então? 
Veja bem, ter um projeto aprovado e fazer com que ele possa captar recursos são duas etapas diferentes. A primeira delas é só técnica. Tem que estar dentro dos padrões XYZ. Já na captação é você quem vai atrás dos patrocinadores. Aí existe uma lacuna de funcionalidade. Acho que realmente o (ministro da Cultura) Juca Ferreira está tentando buscar uma forma de promover essa democratização. Mas existem problemas sérios.

Quais? 
É que, às vezes, tem gente que não respeita os critérios da lei mesmo. Por exemplo, os ingressos têm que ser viáveis. Não dá para fazer um show patrocinado com ingressos a R$ 300. Esses critérios têm que ser mais claros. Mas não podemos ter censura e acho perigosa essa discussão de famoso ou não famoso. / MARILIA NEUSTEIN