‘Cultura tem que ser independente do Estado’, diz Fernanda Torres

Sonia Racy

07 de outubro de 2019 | 00h37

 

FERNANDA TORRES. FOTO: BOB WOLFENSON

 

A atriz, que estreia série amanhã, se emocionou
com o apoio à mãe após ataque de Alvim

 

Fernanda Torres está cansada de reclamar. E isso inclui queixar-se de assuntos como a situação cultural do Brasil, do governo vigente, da polarização nas redes, e até mesmo, dos ataques proferidos por Roberto Alvim, diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, à sua mãe, Fernanda Montenegro. “Esse ataque à mamãe acabou desencadeando um momento de apoio tão bonito. Apoio a uma mulher de 90 anos com uma história impressionante. Fizemos do limão uma limonada. Esse cara (Alvim) tem uma história louquíssima… Mas ele está na Funarte, não tem jeito, não adianta reclamar”, afirma.

Para Fernanda, os problemas citados são cíclicos “porque nunca se aprende com a experiência no Brasil”, mas não são exclusividade nossa. “A situação do mundo piorou. Eu acho que o mundo está pior do que já esteve. Há um sentimento apocalíptico no mundo hoje… Mas alimentar essas questões só reclamando não é a solução”.

Agora, a atriz, escritora e cronista entra na pele da deslumbrada Maria Teresa, na segunda temporada de Filhos da Pátria. A série, com texto de Bruno Mazzeo, revisita o início da década de 1930, época de transição do País com o início da era Vargas. “O texto tem uma visão crítica e apartidária para falar das nossas mazelas com humor. Deixa claros os problemas estruturais da nossa sociedade”, conta sobre a atração que estreia amanhã na Globo.

Há tempos também na literatura e trabalhando em roteiros, Fernanda enxerga na pluralidade de trabalhos uma forma de independência. “Lá atrás, entendi que eu não podia viver esperando convite. Cavo as minhas próprias coisas, ou eu escrevo um livro, ou eu monto uma peça”, diz à repórter Marcela Paes. A seguir, os principais trechos da conversa.

A série se passa em um momento de transição no País e muitos problemas são retratados. Enxerga um paralelo com o que acontece hoje?
O texto do Bruno é muito bom. É um texto que tem muito humor, que fala das nossas mazelas com um visão crítica e apartidária. Deixa claro que são problemas estruturais da nossa sociedade que nunca resolvemos. O Brasil sofre de uma doença de zerar sempre tudo. A gente sempre tem o Estado Novo, a República Nova, o Cruzado Novo, o Cruzeiro Novo. O “agora vai” está muito presente na série. A gente nunca aprende ou acumula experiência. Uma escravidão que nunca foi resolvida, um patriarcalismo, um patrimonialismo como fundamento.

O humor ajuda nisso?
O humor da série ajuda através da inteligência e da graça a ser um espelho do país. Mas eu acho que também você pode ter isso pelo drama. Tivemos isso em Vale Tudo, em Avenida Brasil. Vale Tudo era através de um olhar mordaz pra sociedade, a sociedade se reconhecia. A novela do João Emanuel Carneiro Avenida Brasil também era um drama onde as pessoas se reconheciam. Mas as pessoas atualmente estão tão violentas, não sei se conseguiríamos tocar nesse ponto desse jeito. Falta justamente humor hoje em dia.

A Maria Teresa é uma personagem que você caracterizou como exemplo da opinião pública manipulável. Você enxerga muitas Maria Teresas hoje em dia?
Acho que sempre existiram Maria Teresas. Ela é uma mulher terrível. Ela é racista, machista, egoísta. Hoje também existem aos montes.

Fazer comédia é confortável?
Adoro fazer humor na televisão porque a televisão é uma indústria em que a gente trabalha muito pesado, longo. Mas não separo a tragédia da comédia, sabe? Os Normais era mais cômico realmente, mas com uma visão ácida, punk, do Alexandre Machado e da Fernanda (Young) O Tapas e Beijos tinha um caráter de comédia romântica, mas também uma tragédia muito grande naquelas personagens. Acho inseparável uma coisa da outra.

O que acha que da situação geral do país?
Acho que a do mundo piorou em geral. O mundo está no pior estado em que já esteve. Há um sentimento apocalíptico no mundo todo.

Muita gente na classe artística fala em desmonte da cultura.
Isso aconteceu em vários momentos no Brasil, não é só de agora. E existem questões curiosas. O discurso dos mamadores da teta não começou neste governo, começou anteriormente. Em determinado momento, criou-se a Lei Rouanet e o dinheiro para cultura foi direcionado para isenção fiscal. As empresas se organizaram todas para esse mecanismo. Só que talvez isso não seja bom, porque a cultura fica dependente do Estado. A cultura tem que buscar independência do Estado, outros mecanismos para sobreviver. Isso é importante. Eu estou num momento que eu não quero mais reclamar, entende?

Reclamar do governo atual?
É. Eu acho que é um governo legitimamente eleito. A cultura tem que buscar independência. É claro que muita a gente sofre num momento desses, mas ao mesmo tempo eu sou contra reclamar. Isso não quer dizer que a gente não deva se posicionar, mas a ação proativa é buscar independência. Alimentar essas questões só reclamando não é a solução.

Recentemente, o diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim, escreveu um texto chamando sua mãe de “sórdida”. Na sua opinião, o que motiva um ataque desses?
Não sei. Mas esse ataque à mamãe acabou desencadeando um momento de apoio tão bonito. Apoio a uma mulher de 90 anos com uma história impressionante, que viveu de sua profissão, profundamente religiosa. Filha de operário, neta de gente que veio plantar café. Fizemos do limão uma limonada. Esse cara (Alvim) tem uma história louquíssima… Mas ele está na Funarte, não tem jeito, não adianta reclamar. Ele já falou para acabar com a classe. Não sei bem qual teatro ele quer fazer, mas que faça, tudo bem.

Como foi se expressar como escritora tendo uma carreira de atriz consolidada?
É igual debutar aos 48 anos. Descobri outro mundo. Mas a minha escrita é muito ligada à minha vida de atriz. Na carreira de atriz você trabalha no texto do personagem. Você tem que entender qual é o cerne de uma cena, por que é que uma cena emociona, ou desespera? Não vejo como coisas isoladas.

Nas crônicas também?
Talvez a crônica seja mais separada da atuação, porque você é obrigada a escrever, você passa a ter uma prática. Mas a vida inteira eu fui escrevendo texto, roteiro. Agora vai estrear na Mostra de Cinema de SP O Juízo. Escrevi esse texto antes do meu primeiro livro. Foi esse roteiro que meu deu vontade de escrever ficção.

Vem um novo livro?
Tenho algumas ideias mas ainda não comecei. Eu adaptei o Fim (seu primeiro livro) para uma série da Globo em 10 capítulos. Também faço um papel pequeno nela. Até porque me dá um pouco de nervoso fazer as coisas que eu escrevo. Também participei agora de uma sala de roteiro com o Lucas Paraíso, de uma outra série que da Globo, chamada Barbados. É sobre um condomínio na Barra da Tijuca, mas ainda não tem perspectiva de ser feita e tal.

Você costuma escrever sobre o processo de envelhecer. Como que é esse processo pra você?
Normal. É muito bom envelhecer. Você fica mais calmo, menos histérico, sabe? O jovem é muito ansioso. Quando o futuro vira presente é uma sensação muito boa. Você fica menos inseguro, e, portanto, mais agradável no convívio. Por outro lado suas juntas já não são as mesmas, sua pele não é a mesma. Seria muito bom poder parar nos 40.

Se impressiona com as mudanças de paradigmas comportamentais de hoje?
Sim. Você começa a estranhar o mundo. Isso atualmente acontece porque as coisas mudaram muito, a questão das mídias sociais, a maneira como as pessoas se comportam, se comunicam.

Hoje existe a dependência das redes na divulgação e propagação de qualquer coisa.
Hoje em dia você tem que alimentar milhões de tamagochis, senão eles morrem. São milhões de pequenos blogs, pequenos canais, você tem muito menos controle do que você fala e do que aquilo vai ser entendido. Como tudo é organizado em bolhas, você pode estar sendo adorado por uma bolha e sendo odiado por outra bolha.

Essa questão das bolhas te incomoda?
No começo eu tive medo de escrever. Atualmente, por exemplo, eu não posto em rede social o que eu escrevo nas minhas colunas. Prefiro escrever para aquelas pessoas que de fato leem aquilo que eu escrevo. A tentativa de tentar me comunicar com o mundo não existe mais. Não existe mais a opinião pública. Existe o seu gueto e o que você pode fazer no seu gueto. A hora em que eu entendi isso foi uma libertação.

O que você estranha nos comportamentos hoje?
Eu estranho muito a volta a uma militância, que é algo que a minha geração também parou de ter. O mundo está muito mais aguerrido, mais entrincheirado. Me sinto defasada nisso e nessa horas você vai sentindo envelheceu, que já não fala a linguagem do seu tempo. Por outro lado você também não quer falar a linguagem do seu tempo.

No seu mais recente livro, A Glória e Cortejo de Horrores, você narra a história de um ator decadente. Você já teve ou tem algum medo nesse sentido? De não ser mais chamada para papéis?
Não. Lá atrás eu entendi que eu não podia na minha vida viver esperando convite. Há muito tempo eu cavo as minhas próprias coisas. Ou escrevo um livro, ou monto uma peça. Dentro da própria Globo, por exemplo, fui eu quem propôs adaptar o Fim. Também pedi para o Bruno Mazzeo me dar o papel da Maria Teresa. Isso eu tive na minha casa muito cedo, meus pais sempre tiveram essa independência. Minha mãe fala que o teatro hoje em dia a gente faz, como ela diz, nas catacumbas.

Como?
Não existem mais companhias de teatro produzindo espetáculos para semana toda, o teatro é feito de sexta a domingo. Ao mesmo tempo, de repente, você vê uma peça como O Sísifo, do Gregório Duvivier. Maravilhosa. É ali mesmo, na catacumba, que uma hora você acerta.

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