Cultura ‘não importa para os governos”, diz Maria Bethânia

Cultura ‘não importa para os governos”, diz Maria Bethânia

Sonia Racy

28 Novembro 2018 | 00h20

Maria Bethânia posou, na campanha presidencial, com uma camiseta que dizia “Haddad Sim, Manuela Sim”. Não usou #elenão nem a cor vermelha. Optou por um posicionamento “positivista” nas eleições. Já fez isso antes? “Fiz a campanha de FHC, fiz a de Lula no primeiro mandato. Portanto, não é a primeira vez que me manifesto. Mas não gosto de política. Não sou nem PT nem partido nenhum”, enfatizou a cantora, em rápida conversa por telefone com a coluna esta semana, poucos dias antes de se tornar a grande atração do primeiro fundraising do Instituto Bardi — Casa de Vidro.

Neste sábado, 1.º de dezembro, a abelha rainha será centro de almoço de arrecadação na belíssima casa projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi no Morumbi. Os recursos serão destinados à manutenção e à programação cultural do local, com direito a pocket show. Aqui vão trechos da minientrevista.

Por que você não gosta de dar opinião sobre política?
Eu não compreendo e essa é uma matéria em que é preciso ser muito aprofundada para falar. Não tenho paciência para estudar. Então, não gosto de política, gosto da vida e do meu País. Canto e vivo de cantar para o Brasil.

Pode-se dizer que você é brasileira e ponto?
Sou brasileira. Entretanto, tenho, sim, vontades, tenho escolhas. Mas repito: não gosto de me aprofundar, não sou estudiosa de política.
Você optou por uma maneira positivista ao posar com a camiseta pro-Haddad, evitando o #elenão. Por quê?
Vesti essa camisa em homenagem a Violeta Arraes, a dona Lina Bardi, a Teresa Aragão, a Caetano meu irmão, a Chico Buarque, Gilberto Gil – meus amigos todos que foram exilados. Eu vesti essa camisa por eles e na camisa estava escrito somente Haddad e Manuela. Uma camisa cinza e a letra em cor de rosa. Sem vermelho.

O que, a seu ver, a política poderia fazer a mais pela cultura? A falta de recursos para o setor se justifica pelo cobertor curto?

Não sobra dinheiro para a cultura porque ela não é importante para os governos. Sempre sobrevivemos, o Brasil é tão naturalmente forte, culturalmente, que nada impede que ele se desenvolva nesse sentido. Veja o samba. Ele era proibido, era coisa de preto, de africano, de pobre. Mas é o samba, em termos musicais, que leva o Brasil para o mundo. O grande embaixador do Brasil é o samba. Nós temos esse patrimônio imaterial extraordinário.

Cultura é educação, concorda?

É principalmente a partir da educação que se chega à criação, à cultura. Agora, acho que no Brasil há uma certa tolerância em relação aos que não estudam, um desprezo pela cultura, pelo estudo. Não devia ser assim. Deveria ser o contrário. Em primeiro lugar a educação e a cultura, a sua história. E dona Lina Bo Bardi diz isso com muita ênfase, é importante saber a sua história, seu ambiente, sua música, seu sotaque. Isso é importantíssimo.

Existem muitos Brasis, né?

Milhares de Brasis, e muito diferentes, deslumbrantes; cada um mais bonito que o outro. E isso tudo é lindo. Agora, sinceramente, não vejo nada mais forte do que a intuição artística do brasileiro. Não conheço. Repara bem. São quantos anos de massacre? Massacre no sentido de pouco investimento, de se tratar o assunto com certo desdém, do tipo “ah, são meio viados, meio putas…”. Agora é celebridade. Então são apelidos, é tudo tratado meio assim. Quando falam em banco, a boca é gorda, a emissão é forte. Agora, quando se fala da cultura é meio escanteado, meio escondido. E nós não precisamos. Nós, esse Brasil riquíssimo do jeito que é, com sua música, sua pintura, sua poesia… Temos poetas extraordinários, cineastas extraordinários, revolucionários, raros. Temos tudo. E é isso. Não adianta (desprezar). Só se matar todo mundo.

E quanto à Lei Rouanet, qual sua opinião?

Deixa eu lhe dizer uma coisa. É preciso primeiro as pessoas aprenderem a ler, para poder entender de leis. A Lei Rouanet não dá dinheiro a ninguém. Não à Maria Bethânia nem a ninguém. O que a Lei Rouanet dá é a sua aprovação a projetos. Depois disso, quem decide é o patrocinador.

Não sabem ler ou, na verdade, é má vontade?

Certamente sabem ler, mas perversidade é o que também não falta.

Voltando a Lina Bo Bardi, como a conheceu?
Na verdade, ela cruzou a minha vida. Quem sou eu! Eu morava na Bahia, muito menina, tinha 12 para 13 anos, quando ela chegou com toda sua genialidade para fazer a Bahia. Eu escrevi um texto que vou ler lá no dia da Casa de Vidro, que na verdade era assim: eu fui para Salvador muito a contragosto, pois eu gostava de viver na minha terra em Santo Amaro… Mas tive que ir porque era ginásio, tinha que estudar. A Lina atravessou a minha vida assim, com a primeira exposição de arte popular na Bahia que foi no Solar do Unhão. Caetano me levou e disse: “Vamos ver uma coisa que eu acho que você vai gostar muito.” E eu fiquei deslumbrada com aquilo. Foi a primeira noção de que existia essa senhora dona Lina Bardi, que estava ali para restaurar a Bahia.

Aí vocês ficaram amigas?

Que nada. Dona Lina era amiga dos intelectuais. Eu era uma moleca. Dona Lina era amiga de Glauber, de Carlos Bastos, Santos Calda Ferri – os grandes. Era outra praia. Eu a via muito por conta do Clube de Cinema de que Caetano era sócio — eu era acompanhante. Foi ela quem fez o Clube de Cinema. Construiu as cadeiras, o espaço, construiu tudo no Museu de Arte Moderna da Bahia e eu adorava vê-la correndo com Glauber no meio dos jardins, eles faziam umas entradas triunfais… tudo muito fora de padrão. Ela só vestia preto e na Bahia não havia pessoas vestidas de preto. Ela era de uma personalidade muito forte.

O que sentiu, qual sua identificação com ela?

Me apaixonei perdidamente pela cabeça dela, pelo raciocínio, pelo olhar dela, extraordinário, fora de padrão. Tudo o que ela fez na Bahia ela fez comunitário e extraordinário.

O que você espera do Brasil daqui para frente? Algum sonho?

O que eu desejo na fé de Deus é que se consiga ajudar o Brasil, que ele se mantenha nos seus valores mais nobres e que Deus ilumine a cada um. E Nossa Senhora coloque o seu manto azul da paz sobre todos os que mandam, os que desobedecem, os que querem, os que não querem. Eu quero harmonia no meu País, quero alegria, quero meu País estudando, educado, culturalmente informado. É isso que eu desejo.

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