Crises anteriores ‘exigiram maior criatividade’, diz Abilio Diniz

Crises anteriores ‘exigiram maior criatividade’, diz Abilio Diniz

Sonia Racy

22 de julho de 2019 | 00h50

ABILIO NO SEU ESPAÇO HORIZONTES. FOTO: IARA MORSELLI

 

Empresário aplaude o liberalismo de Guedes,
diz que o governo e o povo estão
conscientes da necessidade das reformas e
avisa: ‘O Brasil já viveu tempos piores’

Desde meados de 2015, toda vez que passava de carro por um tapume preto antes de chegar à sede da Fazenda da Toca, localizada em Itirapina, no interior de São Paulo, Abilio Diniz se perguntava por qual motivo a construção de mais um galinheiro na imensa área de 2,3 mil hectares – ela tem 100% certificação orgânica – estava demorando tanto para ficar pronta. O empresário, que confessadamente detesta acompanhar qualquer construção, esquecia da própria dúvida tão logo entrava no confortável casarão, onde recebe familiares – já tem 18 netos – e amigos.

Dois anos depois, ao completar 80 anos, cedeu ao insistente pedido de sua mulher, Geyze, para que desse “uma olhadinha” no ‘galinheiro’ pronto. Ao chegar ao local, o empresário não conteve suas lágrimas.

Por meio de projeto capitaneado por Geyze e todos os seus filhos, viu ali, edificada, a história de sua vida: o Espaço Horizontes. O conjunto de salas expõe, de maneira tecnológica e moderna, o fio umbilical da família Diniz com o Pão de Açúcar, o lado esportista de Abilio, seus pilares de vida defendidos há décadas e, por fim, sua fé. Esse espaço será aberto à visitação pública, a partir de 1.º de agosto, às terças, quintas e sextas-feiras. A entrada será gratuita mas é necessário o agendamento.

O “museu” ajuda a relembrar a sintonia entre a vida do empreendedor, sempre otimista, e o País. “Há muito tempo vivo e acompanho o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Já vivi inúmeras crises aqui e muitos momentos felizes. Trabalho desde os anos 60, passando pelo milagre econômico na década de 70, pela crise do petróleo nos anos 80, a crise da dívida externa e de jeito algum acredito que a solução para o momento crítico que vivemos seja mais difícil que a encontrada em outros tempos”, conta, fazendo fé no sucesso da reforma da Previdência e da reforma tributária — que “vem logo atrás para ajudar o caminho desenhado pela equipe de Paulo Guedes, que é o mais correto”. O empresário entende ser este mesmo o desejo da população? “Tenho certeza de que todos se conscientizaram. Não há saída minimamente saudável fora de uma reforma ampla do Estado, incluindo a política.” Aqui vão as melhores partes da conversa com a coluna na Fazenda da Toca.

As crises econômicas são mote constante no Brasil. A da hiperinflação foi a pior vivida pelo grupo?
Peguei a época da hiperinflação, que só foi resolvida com o Plano Real, quando tivemos uma estabilização da moeda e a inflação cedeu significativamente. Essa crise de agora é séria, estamos vindo de uma recessão muito forte, de paralisação da atividade econômica. Mas em termos de solução, não acredito, de jeito algum, que ela seja mais difícil do que as anteriores. A solução encontrada no balanço dos pagamentos na década de 80, a da hiperinflação logo em seguida… resolver as outras crises anteriores exigiu muito mais criatividade do que a necessária hoje.

Do que precisamos agora?
Exatamente do que o governo está fazendo: choque de liberalismo. É preciso adotar novos caminhos e ele está cuidando disso. Fazer reformas estruturais. Enquanto você não desatar os nós da economia o País não vai crescer. O liberalismo não é uma solução para todos os males, mas, no nosso momento, é importante que se faça isso e com consistência. A reforma da Previdência será aprovada e a tributária também. É preciso que o Executivo e o Legislativo se engajem nessa ideia, encontrem uma proposta comum.

Desde a redemocratização do País espera-se por uma reforma tributária. Por que acha que desta vez dará certo?
Porque o Congresso está pensando nisso, o eleitor está pensando nisso, o País se conscientizou. Podemos nos posicionar nessa vida de duas formas: sendo otimistas ou pessimistas. Ser pessimista é um horror, você fica de mau humor, de má vontade, fica triste, não vive bem. Então é melhor olhar sempre para o copo meio cheio. Sem deixar de ser realista, sem perder a noção da realidade.

A reforma tributária sai de qual tamanho?
Do tamanho que corrija pelo menos algumas distorções graves no sistema do Brasil. Até porque se fala muito na nossa indústria, das dificuldades que tivemos. Nós perdemos o timing da industrialização e aí se apontam inúmeras causas. Mas pra mim a maior foi, e é, o nosso sistema tributário. Vão agregando tributo, tributo, tributo, os produtos saem muito mais caros. O Executivo e o Congresso estão convencidos disso.

Nas outras tentativas barradas pelo Congresso, o Executivo não estava convencido?
O fato é que não é só o Congresso que está convencido. E essa é a grande novidade. O povo está consciente de que é preciso mexer na questão tributária. Ela não é nem arcaica nem obsoleta, ela é horrível. Como é que vai ser? Ampla? Total? De uma vez só? Não sei. Mas tem que fazer nesse momento alguma coisa.

O eleitor sabe disso?
Hoje pessoas de renda menor sabem, entendem o quanto pagam de imposto quando recebem o salário. A desoneração da folha de pagamento é uma coisa imperiosa, esse sistema é um castigo em cima dos brasileiros, em cima das empresas. Isso precisa ser modificado. O momento precisa ser aproveitado. Temos que fazer a reforma tributária, a da Previdência e também a política. É só ver o número de partidos políticos. Este governo está consciente do que precisa ser feito. O governo Bolsonaro tem que ser analisado pelas grandes coisas que está fazendo e se propõe fazer. O acordo da União Europeia com o Mercosul, por exemplo, é histórico.

Nesse bom olhar, vocês estão analisando projetos novos?
Claro, continuamos investindo, atentos a todas as oportunidades. Crise é uma dificuldade mas também é uma oportunidade.

Em quais setores?
A Península (holding da família) tem um grupo de técnicos avaliando.

Algum em especial?
Estão estudando.

Entendi, não revela rumos. Voltando então para as paredes deste seu Espaço, observando sua trajetória, o que teria feito diferente?
Sempre digo aos meus alunos da FGV que a gente escolhe o que quer ser. E eu escolhi fazer algo importante, não necessariamente ser rico. Quando me formei, as possibilidades de emprego no Brasil não eram atraentes. Não conseguia enxergar um caminho, um rumo. Nada, nada, nada. Optei por ser professor na Universidade de Michigan. Estava decidido. Mas meu pai me pediu para ficar, para ajudá-lo. Fiquei.

Essa aulas são fruto de um desejo não realizado?
Acho que sim. Talvez eu não tivesse me dedicado a fazer supermercados, talvez tivesse me dedicado a algo mais professoral.

Do que se arrepende?
Meu grande erro foi o contrato que eu assinei em 2005 com o Casino.

O grupo Pão de Açúcar precisava de liquidez, né?
Não senhora. Precisava coisa nenhuma, porque o Ebitda estava bom. Eu queria dar liquidez às ações que meu pai tinha com minha irmã Lucília. Para que meu pai, inclusive, distribuísse sua herança ainda em vida e assim ficasse contente e feliz.

Então qual foi o erro?
Eu negligenciei os detalhes do contrato. E se eu tivesse que fazer de novo eu faria a mesma coisa, só que faria o contrato bem feito. Ensino aos meus alunos que a hora de se brigar numa negociação é justamente na hora de fazer contrato. Se você vai ‘contratar’ e não se acerta nas condições e não briga muito, ali no ato, vai ter dificuldade de brigar depois. Então essa é a hora em que tem você que se ir para o extremo. O erro que cometi foi o de negligenciar o detalhe.

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