“Cozinheiro tem dever de alimentar”, afirma chef Morena Leite

“Cozinheiro tem dever de alimentar”, afirma chef Morena Leite

Marcela Paes

07 de maio de 2020 | 00h40

CHEF MORENA LEITE – FOTO: LU PREZIA

Mesmo com os restaurantes fechados durante a quarentena, Morena Leite, do Capim Santo, não quis desacelerar. A chef e empresária resolveu unir a cozinha e “a facilidade para conectar pessoas” em uma corrente do bem e hoje produz em média 1300 marmitas por dia – em Trancoso, SP e Itacaré – que são distribuídas para instituições de caridade, hospitais e parte da comunidade local. Cuidando da filha de três meses, Morena coordena o projeto Capim Solidário diretamente de Trancoso. Leia abaixo a entrevista com a chef.

Como você reagiu à notícia da pandemia e, consequentemente, o fechamento dos restaurantes durante a quarentena?
Eu tinha vindo aqui pra Trancoso pro Festival de Música, já estava se falando da questão, mas ninguém sabia a proporção. De repente os aeroportos fecharam, o festival foi cancelado e eu não conseguia mais voltar pra São Paulo. Logo tomei a decisão de fechar a pousada que temos aqui. Nesse momento, conversando com os meus pais, fundadores do hotel, achei que também devia fechar os restaurantes em São Paulo e do Rio. Muita gente achou precipitado porque o Doria ainda não tinha determinado nada, mas algo me falava que era o que eu tinha que fazer.

E como está a situação com os funcionários?
A gente colocou a equipe de férias num primeiro momento. Depois eu tive que avaliar porque um dos restaurantes de SP estava em obras, faríamos a inauguração por volta de 20 de abril. A construção parou e quando acabar a pandemia, eu terei ainda dois meses de obra antes de reabrir. Do time de 500 pessoas, 60% estão com contrato suspenso, 10% continuam trabalhando recebendo 75% do salário, e 30% eu tive que dispensar. Eram pessoas que trabalhavam comigo há bastante tempo.

Como foi esse processo de demissões para você?
Eu passei uma semana, 10 horas por dia, ligando para todo mundo. E isso me exauriu, quando acabei eu estava destruída. Quando as pessoas me atendiam elas já sabiam o que ia acontecer. Eu sentia a respiração do outro lado, um chorando… Foram calls muito difíceis. Quando acabou eu senti uma tristeza, eu saí do meu corpo.

A ideia de fazer as marmitas surgiu depois disso?
Antes da Páscoa, uma pessoa me falou que tinha recebido uma doação da Cacau Show de 3 mil ovos e me pediu ajuda para distribuir. Isso me resgatou. Passei três dias ligando para instituições, conectando pontas. Organizamos motorista de táxi, motorista do Capim… Quando acabou, estava tão feliz que percebi: é isso. Tenho facilidade de conectar pessoas e não posso me dar o direito de ficar deprimida. Preciso fazer algo.

Era uma forma também de utilizar a comida armazenada dos restaurantes.
É. Eu, com a câmara fria lotada de alimentos, pensei ‘vou torrar essa comida’. Amanhã é amanhã, o hoje eu vou alimentar quem eu puder. No primeiro dia fizemos mil quentinhas com o pé nas costas porque usamos a cozinha do colégio São Luís, que é industrial. (Morena também é responsável pela alimentação dos alunos da escola).

Quantas marmitas vocês fazem em média por dia?
Em Trancoso, 200 por dia, em SP, mil, e em Itacaré, 100. O legal é que desde que o projeto foi divulgado, meu WhatsApp não para de receber ofertas de doações. São muitas empresas ajudando. É uma corrente do bem. As pessoas acham que essa onda de solidariedade vai acabar depois da pandemia, mas não vejo assim. Acho que as pessoas estão se transformando, prestando atenção. Os médicos têm o dever de cuidar e eu, como cozinheira, o dever de alimentar. /MARCELA PAES

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