Corrupção de cima ‘depende da corrupção de baixo’, diz juiz da Mãos Limpas

Sonia Racy

05 de novembro de 2016 | 10h56

Para que as coisas funcionem numa sociedade, “é necessário que as pessoas saibam que a corrupção de cima depende da corrupção de baixo”. Tanto no Brasil como na Itália, “os políticos são escolhidos pelos cidadãos. E eles continuam escolhendo as mesmas pessoas”. A advertência foi feita em um debate de juízes em Arraial d’Ajuda, na Bahia, ontem, pelo juiz italiano Gherardo Colombo, da operação Mãos Limpas — que investigou a corrupção no alto escalão da política daquele país nos anos 80 e 90.

Gherardo trocou experiências, diante de cerca de 700 juízes presentes ao evento, com o colega brasileiro Sergio Moro, da Lava Jato, no Encontro Nacional de Juízes Estaduais, promovido pela Associação dos Magistrados Brasileiros. No encontro falou também o ministro Ricardo Lewandowski, do STF. Carmen Lúcia, convidada, não compareceu, quando se divulgou que uma empresa judicialmente condenada estava entre os patrocinadores.

O juiz paranaense disse ainda que a corrupção vai existir sempre em qualquer lugar, mas não do jeito como é hoje no Brasil,  “como um sistema, uma prática habitual”. E citou, como exemplo, o encontro prévio de fornecedores da Petrobrás para combinar quem seria o vencedor das licitações. “Empresas poderiam colocar o preço sem que houvesse uma concorrência real. (…) O pagamento de propina na Petrobrás era ‘a regra do jogo'”.

Colombo falou ainda sobre delação premiada. Para ele, é fundamental ter prova da corroboração para aceitá-la. “Nunca vai se confiar apenas na palavra de um criminoso”. E Moro encerrou sua parte com um recado:
“É necessária uma mudança de comportamento por parte do setor privado. Não existe corrupção apenas no setor público.”

Tendências: