Coronavírus no Nordeste: ‘Precisamos de ações humanitárias emergênciais na região’

Coronavírus no Nordeste: ‘Precisamos de ações humanitárias emergênciais na região’

Sonia Racy

01 de abril de 2020 | 00h54

FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Alcione Albanesi, à frente da ONG Amigos do Bem, colocou no ar campanha de urgência para arrecadação online, que financiará alimentos, distribuição de água e kits de higiene para 75 mil pessoas que vivem em extrema pobreza no sertão nordestino.  “São 130 povoados localizados em Alagoas, Ceará e Pernambuco. Mais de 15 mil famílias que vivem em casas de barro, em um único cômodo, sem alimentos, água ou infraestrutura”, explica a empresária, que teve o volume de arrecadações de alimentos das redes de supermercado prejudicada por causa do coronavírus. “Precisamos de ajuda para as ações humanitárias emergenciais na região mais carente do País”. As doações podem ser feitas pelo site da instituição.

Como estão fazendo para conscientizar a população das comunidades carentes sobre o coronavírus?
Capacitamos nossa equipe local e criamos um material educativo e didático para as famílias do sertão sobre os cuidadsinais dos primeiros sintomas sobre o vírus. Nossa equipe, junto com os agentes dos 130 povoados que atendemos, garantem os e que essas informações cheguem a todos.

Como reagem às informações? Estão se cuidando?
O grande desafio é as famílias que vivem em extrema pobreza no sertão nordestino conseguirem colocar em prática efetivamente as medidas de prevenção. Sem água para beber e para higiene pessoal, famílias de até 10 pessoas vivem em uma casa de barro de apenas um cômodo, ou seja, inviável o isolamento. Por isso, faremos uma ação humanitária emergencial, levando para 75 mil pessoas cestas básicas, água com caminhões-pipa, kits de higiene, como sabonetes e álcool gel, além de remédios.

Estão cientes das consequências econômicas que o vírus trará para a economia do País e, consequentemente, para seus empregos?
Está situação em que vivemos impacta, principalmente, a população mais vulnerável do nosso País. Em Alagoas, Pernambuco e Ceará, tivemos que fechar nossos centros educacionais e mais de 10 mil crianças deixaram de ser atendidas e de receber refeições diárias. Nossas 15 unidades produtivas no sertão, que geram emprego para centenas de pessoas, também foram paralisadas. No sertão nordestino, o que se planta se perde pela seca extrema e, sem oportunidades e trabalho, o cenário secular de miséria e fome se agrava. É um momento muito difícil para milhões de famílias dessa região. Ali, a miséria é gritante e não tem nem para quem pedir, porque o vizinho também vive na extrema pobreza.

Já foram reportados casos de Covid-19 nas comunidades?
Já existem casos isolados na região, inclusive o prefeito de Mauriti, um dos municípios que atendemos, no Ceará, está infectado. Nossa preocupação é que o vírus chegue por meio de familiares, na maioria homens, que voltaram do Sudeste por falta de trabalho nas capitais. Eles podem carregar o vírus e, com isso, a situação se agrava muito. Mas os casos nas regiões em que atuamos ainda são isolados e estamos monitorando as famílias por meio de um plantão 24h com voluntários médicos de São Paulo. Qualquer indício do sintoma é comunicado por nossa equipe local.

Como os hospitais estão sendo preparados para lidar com os casos mais graves do coronavírus?
No sertão, os hospitais locais ficam a muitos quilômetros de distância dos povoados atendidos. Famílias caminham mais de 10 km a pé para pegar um transporte e chegar a um dos hospitais da região que não estão preparados para atendimentos em geral, sem leitos, lençóis, álcool gel ou qualquer estrutura. Alguns municípios inclusive não possuem hospitais ou centros médicos. Em uma situação grave de saúde, a pessoa não sobrevive. Nossas ambulâncias locais estão preparadas para emergências e nós capacitamos enfermeiros da região e entregamos remédios para amenizar a dor até o atendimento médico.

Que itens de sobrevivência são mais urgentes para essa região?
Os itens de sobrevivência são alimento e água. Sem alimentos a pessoa não sobrevive e a imunidade fica muito baixa. Sem água para beber ou para higienizar as mãos, a situação fica ainda mais preocupante.

Como empresários podem ajudar essa população, muitas vezes esquecida, nesse momento?
Neste momento, estamos buscando recursos para a ação humanitária emergencial para atender 75 mil pessoas no sertão nordestino, a região que concentra o maior foco de fome e pobreza do país. O objetivo é abastecer as famílias com recursos básicos por, pelo menos três meses, até esta situação melhorar. Precisamos de recursos financeiros para a compra dos alimentos das cestas básicas e caminhões pipa para levar água, além da doação de itens básicos de higiene e manutenção dos diversos projetos existentes. Nossa instituição tem grandes dimensões e precisamos de ajuda. Se está difícil para nós, imagine para eles./SOFIA PATSCH

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