Copan quer abrir ainda este ano museu para lembrar Niemeyer

Copan quer abrir ainda este ano museu para lembrar Niemeyer

Sonia Racy

08 Maio 2017 | 00h30

IARA MORSELLI / ESTADÃO

O síndico Affonso Prazeres, que passou 24 anos reunindo
material sobre Oscar Niemeyer, relata os desafios que
enfrenta, ao lado da Fundação Niemeyer, para modernizar
o edifício e criar um espaço
em seu terraço,
lembrar o que o arquiteto fez em São Paulo. 

O armário de duas portas com cinco prateleiras repletas de arquivos, na sala do síndico Affonso Prazeres, é só uma pequena parte do que, no futuro, comporá o acervo do Museu Copan. Nas paredes, uma pequena prévia desse sonho: fotos e painéis de elevadores antigos do edifício que, ao longo do tempo, se transformou em um dos símbolos do centro de São Paulo.

“Queremos vê-lo pronto e inaugurado até o final do ano. Será a realização de um sonho”, diz o síndico. Sonho que ele divide, desde o início, com Ciro Pirondi, diretor executivo da Fundação Oscar Niemeyer.

“Museu é uma palavra um pouco forte”, adverte Prazeres – ele prefere falar em acervo, ou memória. De qualquer modo, sua ideia é reunir lá no alto, no terraço do edifício, tudo o que seja ligado às obras do arquiteto na cidade. Para a fundação, o projeto é mais amplo. É montar em cada capital que abrigue trabalhos dele um espaço semelhante. Rio de Janeiro e Brasília já fizeram os seus. Estão em andamento, agora, os de Belo Horizonte e São Paulo.

O ponto de destaque, aqui, será a exposição do acervo permanente, que terá desde fotos da construção do prédio, entre 1951 e 1966, até peças de máquinas importadas que ali chegaram na década de 1950. Completando o conjunto (ver ilustração ao lado) haverá uma área para eventos, um pequeno auditório e um café. Valor estipulado? Algo como R$ 1 milhão. Para consegui-lo, a fundação e a administração do prédio estão à procura de parceiros da iniciativa privada dispostos a viabilizar a modernização do terraço. O síndico do edifício – projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012)– contou à repórter Julianna Granjeia os desafios que enfrenta para tornar seu sonho realidade.

Como surgiu a ideia de fazer um museu sobre o Copan?
É um projeto antigo. Em 2002 eu conversei com o Oscar (Niemeyer) sobre essa ideia de montar algo que guardasse o acervo do prédio. A palavra “museu” é um pouco forte. Ao longo dos 24 anos em que estou aqui, fui guardando o que eu entendia como material que pudesse, mais para a frente, servir de pesquisa. São poucos os prédios, na cidade, que mantêm suas plantas e projetos originais – e nesse aspecto o Copan sempre foi uma referência para a memória arquitetônica da cidade.

De que forma você organizou essas memórias?
Fui guardando aos poucos jornais, revistas, fotos, plantas, materiais que são desativados. Eu procuro sempre preservar alguma coisa do original, como um dos conjuntos da casa de bombas. Naquela época, pedi também ao Oscar que me cedesse parte do acervo pessoal sobre o Copan. Ele me respondeu: “De jeito nenhum. Você representa um bem privado, eu quero que meu acervo faça parte de um lugar público para que todos possam ter acesso”.

E o que foi que levou o arquiteto a mudar de ideia?
Quando eu estive no Rio para conversar sobre essa ideia, em 2002, ele me mostrou o trabalho que havia projetado para Niterói – e o comparou ao desenho do Copan. Hoje só tem, naquele local, uma igreja, mas o projeto original incluía um prédio de 50 andares, uma área de convenção, área administrativa – e sua intenção era instalar também sua fundação. O projeto não foi adiante. No final da conversa, ele disse que ia dar um jeito de nos ajudar.

E cumpriu essa promessa?
Quando ele completou 100 anos, o pessoal do Museu da Casa Brasileira fez-lhe uma homenagem com o número 100 com 100 rosas na fachada do Copan. Quando soube disso, ele me ligou e disse que tinha uma surpresa. No dia seguinte, eu li no jornal uma conversa dele com Gilberto Gil, que era o ministro da Cultura na época, na qual se informava que o Copan ia entrar na lista de obras dele que seriam tombadas pelo governo – seria o único patrimônio privado. Ele estava pensando na Lei Rouanet para a reforma do prédio. O Iphan até chegou a vir aqui, mas o prédio só foi tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e /cultural de SP).

Museu à parte, a história da reforma do Copan também é antiga. Por que está empacada?
Desde a época do prefeito Celso Pitta (que governou a cidade entre 1997 e 2000) estou tentando restaurar o prédio. Na gestão do Gilberto Kassab começou uma discussão que se arrastou por três anos. Até que o Pedro Herz (empresário e morador do prédio) marcou um encontro entre mim e o prefeito e conseguimos conversar melhor. Mostrei para ele fotos que reuni de diversos locais que exibiam publicidade durante o restauro. Ele se sensibilizou e assinou o decreto em 2010 – que eu, de brincadeira, apelidei de Lei Pedrão –, que autoriza a exibição de propaganda em até 10% da fachada.

Foi então que apareceu o problema das pastilhas?
Sim, no ano seguinte entrei com o processo no Conpresp porque as pastilhas estavam caindo. A autorização para reforma veio com uma expressão interessante, na qual se dizia que eu poderia “retirar as pastilhas desprendidas”. Se está desprendida, já caiu. Assim que comecei a colocar a tela protetora, tivemos problemas com a primeira empresa. A solução foi ir atrás de outra – e aí veio a tela azul que cobre as paredes do edifício hoje. No meio disso tudo, alguém fez uma denúncia no Ministério Público falando em depredação de patrimônio público. Fui até ao MP e mostrei a autorização do conselho. Agora, estamos empacados no tipo da pastilha.

Qual é, exatamente, o problema com a pastilha?
O problema é que a pastilha factível é a que dá para pagar. Em valores não atualizados, o custo total seria de R$ 23 milhões e hoje dispomos de R$ 15 milhões em caixa. Um novo decreto passou de 10% para 25% da fachada o espaço que podemos ceder para propaganda na tela durante a reforma, mas só vamos nos beneficiar dessa alteração quando se resolver o problema da pastilha. O prédio sempre foi branco e cinza. Hoje, as pastilhas que eles (Conpresp) querem oferecer é bege, porque nem existe mais o fabricante original.

Imagina qual a saída?
Falei pra me indicarem uma empresa que fabricasse a pastilha semelhante à original. E informei também que ela teria que ser minha parceira, patrocinando a reforma. Me responderam que seria possível indicar, que há fabricantes brasileiros que fazem similares. Mas não é igual. Hoje, eu tenho um mostruário de pastilhas que ninguém tem. Eu trouxe engenheiros para conversar e buscar uma solução. Até agora, a melhor e mais barata é uma chinesa, branca e de vidro. Mas o Conpresp determinou que teria de ser em cerâmica. Estamos parados. Pedi mais prazo e vou tentar conversar mais uma vez.

Além da reforma e do museu, tem mais algum projeto em andamento no Copan?
Estamos fazendo em parceria com a Promotoria do Idoso um clube da leitura do qual eu próprio pretendo fazer parte. Vamos deixar o prédio mais acessível para o pessoal da terceira idade. Também estamos montando uma sala para cursos. O primeiro será de informática e todos os 104 funcionários do condomínio passarão por ele. Também vamos começar a trocar as caixas de eletricidade do bloco E – que está com a fiação mais precária do que os outros – para poder-se instalar uma medição remota.