‘Contratamos 10 mil pessoas nesta pandemia’, afirma presidente do conselho da Porto Seguro

‘Contratamos 10 mil pessoas nesta pandemia’, afirma presidente do conselho da Porto Seguro

Sonia Racy

15 de fevereiro de 2021 | 00h40

Bruno Garfinkel. Foto: Iara Morselli/Estadão

Bruno Garfinkel aprendeu, em casa, que só se pode ser plenamente feliz quando o mundo a sua volta é menos injusto e desigual. Trata-se de uma herança global e multicultural: “Meu avô e minha avó, por parte de pai, vieram da Romênia; por parte de mãe, da Itália. Temos duas vertentes na família, uma judia, uma cristã. Somos uma grande salada mista”, explica.

Terceira geração à frente da Porto Seguro, o executivo, que é presidente do conselho de administração do Grupo, acredita que muita coisa vai mudar no pós-covid, e que a chamada “volta à normalidade” será bem diferente do que muita gente espera.

Para enfrentar a pandemia, a companhia escolheu a contramão do mercado, dizendo “não” a subsídios e outras ajudas governamentais. “Preferimos ir atrás de empréstimos regulares, para deixar a companhia sólida” diz Garfinkel. Parece ter sido a melhor decisão, já que a Porto contratou 10 mil funcionários novos e terminou 2020 melhor do que começou. A empresa também criou o projeto Meu Porto Seguro para ensinar as pessoas uma nova profissão. “Destinamos ao projeto 10% do lucro da empresa, algo em torno de R$ 120 milhões.” A seguir, os melhores momentos da conversa:

Como uma empresa de seguros, como a Porto Seguro, vem trabalhando em meio a cenário tão inseguro? 

Olha, nos contratos de seguro, especialmente no Brasil, geralmente não constam coberturas de pandemia, de asteroide, de guerras. São questões não previstas. O caso da covid-19 foi bastante delicado, pois temos uma função social, de restabelecer patrimônio para aquelas pessoas que confiam nas seguradoras. Logo no começo da pandemia, tomamos a decisão, em especial sobre o seguro de vida, para que as pessoas pudessem seguir suas vidas e não deixassem de acreditar na instituição “seguro”. Foi um ano bem atípico, porque tivemos de fazer concessões para proteger o mercado e as pessoas.

Como ficaram, neste período, os seguros de vida?

Mudou o interesse das pessoas. Seguro, no Brasil, ainda é um produto que pouca gente consome. Por exemplo: só 30% dos veículos emplacados no País têm seguro; de residência, em torno de 15%. Quando falamos de seguro de vida, esse número cai ainda mais. Então, o interesse do brasileiro por seguro como um todo é uma novidade. Trata-se de um produto em desenvolvimento e tem muito espaço para crescer. Durante a pandemia, muita gente começou a procurar o seguro de vida. Não tem como não ter medo com o número de óbitos pela covid. Na Porto Seguro, a demanda aumentou cerca de 15%.

Esperava mais?

Achei, no dia seguinte ao começo da pandemia, que as pessoas iam parar de comprar seguro e que a gente ia passar por maus bocados. Então, foi surpreendente. Quando tiveram mais receio, as pessoas perceberam que já estavam com tanta dificuldade que não podiam correr o risco de enfrentar mais um problema. Mantiveram o seguro do carro e o de vida.

A inadimplência aumentou?

Quase nada. Ela caiu, em especial, no seguro de automóveis, mas porque houve menor venda de carros novos no período. Os contratos vigentes tiveram um pequeno aumento de inadimplência, mas nada significativo.

E o seguro saúde?

A gente conseguiu transformar uma ideia de muitos anos em realidade durante a pandemia. Sempre olhamos para o setor de saúde no Brasil, o seguro saúde, com certa ressalva, porque tem muita interferência do governo, nos reajustes, então é muito difícil operar nesse mercado. Mas sabíamos que a telemedicina seria uma saída excelente para reduzir custos e poder atender mais pessoas. Pois a covid trouxe essa oportunidade, porque as pessoas não estão mais indo ao hospital para serem atendidas, embora precisem de tratamento. Essas novas modalidades, que foram liberadas pela ANS, permitiram que as operadoras começassem a atender melhor o público, o que dá abertura para novos produtos mais competitivos e permite maior inclusão de pessoas na saúde privada, o que é fantástico para desafogar o sistema público. De tudo de ruim que está acontecendo, esse é um legado positivo.

Mas já existe pressão para que a telemedicina seja revista no pós-pandemia, não?

A associação médica vai ter de se adaptar, porque a receita do médico é a consulta, é difícil substituir um momento pessoal, no qual você tem a empatia de falar com o seu paciente e transmitir confiança a ele. A telemedicina tem de ser vista como uma atenção primária. É aquele bate-papo que você vai ter com um pediatra quando está em casa, à noite, e o bebê está chorando. Para que ir até um hospital se uma simples ligação em vídeo com o médico pode te acalmar? A questão da telemedicina é que, antes da covid, ela era nada; agora, na pandemia, virou tudo. Quando passar o momento mais grave do corona, poderemos atingir aquele meio-termo em que uma atenção primária de menor custo pode se tornar realidade definitiva e as especialidades médicas continuarão tendo todo um carinho pessoal e a empatia que merecem. Muita coisa vai mudar, a gente vai ter uma volta à normalidade bem diferente do que se imagina.

A Porto Seguro colocou todo mundo em home office?

Sempre investimos em tecnologia de home office, há mais de cinco anos temos mil posições nesse sistema Então, quando a pandemia começou, em uma semana a gente conseguiu transferir 8 mil funcionários (dos 12 mil que temos) para trabalhar de suas casas. Isso foi algo que nos tranquilizou. Outro ponto importante: aprendi com meu pai que a empresa precisa ter caixa para enfrentar momentos como este. Sou adepto da expressão americana “cash is king” e sempre me pergunto “será que temos caixa para suportar as nossas obrigações?” e “quantos dias ou meses de caixa temos para suportar as nossas operações?”. Porque temos funcionários, clientes, prestadores de serviço, fornecedores que atendem com diversas plataformas tecnológicas. Quando li no jornal que o pessoal da 3G Capital, lá na Europa, já estava contratando empréstimo antes mesmo de a pandemia tomar forma, telefonei para o nosso diretor financeiro e disse: “Vamos pegar empréstimo agora, é melhor ter caixa sobrando do que faltar”. Uma semana depois, percebi o caixa robusto e que a gente podia ficar um ano sem faturamento e, mesmo assim, pagar todo mundo.

A companhia chegou a reduzir salários e jornada dos funcionários?

Não, fomos por outra linha. Juntei um grupo de empresários e criamos o movimento #nãodemita. Congelamos todas as movimentações de desligamento pelos primeiros três meses, quando tivemos o lockdown; depois, optamos por oferecer antecipação de férias aos funcionários, além de redução de banco de horas. Depois de três meses, quando as pessoas voltaram a circular, retomamos a gestão por performance. Mas, nos primeiros meses de pandemia, decidimos não agravar a situação na qual o País já se encontrava.

Há espaço para novas contratações?

Abrimos dez mil vagas durante a pandemia e contratamos 8,5 mil pessoas para trabalhar como temporários, salário de R$ 1.500 por mês. Todas passaram por um treinamento sobre o que é o setor de seguros, para que possam, depois da covid, buscar uma posição no mercado ou levar esses ensinamentos para a vida. Esse projeto se chama Meu Porto Seguro e ele foi criado para ser mais do que uma cesta básica, que a gente também distribuiu por todo o País. Montamos um modelo que ensinasse às pessoas uma nova profissão. Destinamos ao projeto 10% do lucro da empresa, algo em torno de R$ 120 milhões, e isso nos dá muito orgulho.

O ramo de seguros é um porto seguro? Qual a fórmula do sucesso?

Diversificação. Assim como as pessoas devem diversificar seus investimentos, empresas também precisam diversificar seus portfólios. A Porto nasceu como companhia de seguro de automóvel e, nos últimos 20 anos, temos investido em muitas outras linhas de negócio. Hoje, seguro de carro representa cada vez menos do resultado da companhia, cerca de 55% da receita.

Levando em conta os tempos atuais, algum dia vamos ter seguro para felicidade?

A gente ainda precisa falar de saúde, de educação, de economia que são as grandes carências dos brasileiros. Nunca seremos felizes enquanto não pudermos olhar para o lado e ver o mínimo de igualdade, de equilíbrio social. Vamos ter seguro para felicidade quando conseguirmos reduzir essa desigualdade.

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