Para escritor, vitória do Brexit ameaça fragmentar a Europa

Para escritor, vitória do Brexit ameaça fragmentar a Europa

Sonia Racy

25 de junho de 2016 | 00h50

misha

Misha Glenny mal dormiu de quinta para ontem. O escritor britânico – que participa da Flip na semana que vem e já está no Brasil – varou a noite acompanhando o referendo na Inglaterra. Estudioso do Sudeste europeu, ele falou à coluna sobre como vê o futuro do continente.

O que achou do resultado do referendo do Brexit?
Uma catástrofe. Terá impactos profundos na Grã-Bretanha, como a provável saída da Escócia e uma situação muito difícil no processo de paz da Irlanda do Norte. Além disso, dá impulso à fragmentação da Europa. O governo já entrou em colapso. Boris Johnson, provavelmente, será o primeiro-ministro e está claro que seu governo não será tão interessante para o país. Então, para a maioria das pessoas que votaram para ficar na UE, a atmosfera do momento é desesperadora.

Acredita em um efeito dominó em outros países do continente?
Acredito que as potências europeias vão pressionar a Grã-Bretanha a sair o mais rápido possível. E acho que é provável que países como Itália, Holanda e Dinamarca façam seus referendos. No entanto, em termos culturais o movimento antieuropeu sempre foi mais forte na Inglaterra, por conta de nosso relativo isolamento. Temos que prestar atenção na França. Se Marine Le Pen ganhar as eleições em 2017, então saberemos que entramos em um novo e perigoso momento da história europeia.

Muitos entendem que a segurança do país será maior se ficar fora do bloco. Acredita nisso?
Acho que eles não falam de terrorismo, mas de número de imigrantes vindo do leste europeu, de países como a Polônia, por exemplo. Esse fluxo coloca muita pressão no serviço social. O curioso é que, na votação, regiões com altas taxas de imigração votaram pela permanência na UE. Então, essas afirmações são mais baseadas em percepções e medos do que em realidade.

A União Europeia é também um projeto de paz. Muitos se esquecem de que a Europa foi um lugar de grandes guerras. Qual o peso que tem hoje essa mensagem simbólica?
Fiz a cobertura das guerras na Iugoslávia nos anos 90. E o que percebi, naquele tempo, foi que europeus estão mais próximos de guerras e conflitos do que eles mesmos imaginam. A União Europeia tem sido absolutamente essencial para a ideia de uma Europa cooperativa. Se continuar a se fragmentar, eventos assustadores no longo prazo – como guerras nos moldes da antiga Iugoslávia – poderão acontecer novamente./ MARILIA NEUSTEIN

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