Contra a crise, o ‘bico’

Contra a crise, o ‘bico’

Sonia Racy

10 Julho 2015 | 01h06

Renato Meirelles (Foto: Iara Morselli/Estadão)

“Je vis de bec”, bordão criado por Jô Soares para um de seus personagens em antigo programa da TV Globo, está cada vez mais atual. Segundo Renato Meirelles, do Data Popular, de 2010 até hoje o empregado brasileiro está fazendo mais “bicos” para complementar sua renda. O hábito cresceu… 37%. “O melhor lado do nosso jeitinho apareceu nessa pesquisa”, afirmou à coluna o pesquisador contratado pelo Santander para fazer levantamento exclusivo sobre como os latino-americanos estão enfrentando as atuais dificuldades econômicas, apresentado ontem em seminário em Madri. E acrescentou: para 88% dos brasileiros, a crise já afetou sua vida.

Onde ele buscou dados? Entrevistando 2.644 pessoas de Brasil, Uruguai, Chile, México e Argentina. Considerou como classe alta quem ganha mais de U$ 50 por dia, classe média os que faturam mais de U$ 10 por dia e baixa quem põe no bolso menos que U$ 10.

Quanto ao “bico”, nada menos que 72% dos entrevistados no Brasil estão fazendo algo extra para melhor suas finanças. Na média, no continente, essa porcentagem é de 71% – mas cai para 64% entre os considerados ricos. “Um número significativo, resultado do amadurecimento e empoderamento do consumidor”, destaca Meirelles.

As populações não querem perder o que conquistaram nos últimos anos com aumento de renda. Isso quer dizer que estão perdendo renda? Não há dados específicos sobre isso na pesquisa mas é certo que a atitude proativa, de buscar outras fontes de renda, está ajudando na manutenção do status quo do consumo. Tampouco há números sobre o medo de perder emprego. Mas apesar de 58% acreditarem que a AL não passa por um bom momento econômico – liderados por México (69%) e, como era de se esperar, o Chile com o menor índice (37%) –, pouco menos da metade está otimista em relação ao futuro.

“Economias desorganizadas e desconfiança em relação a estruturas são compensadas pela crença em si mesmo, na capacidade dos latino-americanos” explica o pesquisador, fazendo um paralelo com o ajuste fiscal no Brasil. “Cada lar tem um ministro da economia cortando custos e brigando por aumentar a renda.” O Brasil lidera (68%) no recurso aos “bicos”. Ou como define Meirelles, na “renda de difícil comprovação”.

A informalidade está aumentando com a crise econômica? “Não há como quantificar isso, mas, provavelmente, sim”. Há possibilidade de o PIB estar caindo menos do que os índices apontam? “Esse efeito bico tem impacto, mas não acredito ser grande”, diz o criador do Data Popular.

Também na função “fazer economia” o Brasil sai na frente (88%) ante a média do continente, que é de 84%. Banhos mais curtos, economia de luz água? “Olha, o Brasil vem em primeiro lugar com 90% e a Argentina – que vive dificuldade econômica muita maior – por último, com 62%.” Quanto a pechinchar (78%), pesquisar preços (88%) e fazer rodízio na hora de pagar contas em tempos de cobertor curto (42%), o Brasil está na liderança. Comprar fiado? A Argentina (73%) vai na frente e o Brasil fica em último (44%). O quadro se inverte quando se fala em pedir dinheiro emprestado a parentes ou amigos. Só 9% dos hermanos se arriscam a tanto, enquanto 24% dos brasileiros engolem seu orgulho e… pedem.

Sonia Racy viajou a convite do Santander