‘Com todo o respeito aos segmentos religiosos, mas tradição aqui é paz’

‘Com todo o respeito aos segmentos religiosos, mas tradição aqui é paz’

Sonia Racy

26 Janeiro 2015 | 01h00

Compositor e músico engajado, Carlinhos Brown defende diálogo entre as diferentes crenças e prepara uma exposição que terá como tema a “dificuldade da água”

Prestes a embarcar em uma intensa programação de carnaval – que começa dia 14 e termina dia 18 –, Carlinhos Brown conferiu, na semana passada, os detalhes da gravação da música Pronta Pra Divar, de Claudia Leitte e Ivete Sangalo, em seu estúdio, em Salvador.

Fundado há 18 anos pelo músico, o espaço faz parte de um complexo – o Guetho Square – que Brown criou no bairro do Candeal, onde nasceu e se engajou em projetos sociais e na construção de espaços comunitários. Além de brasileiros, artistas internacionais, como Björk e Black Eyed Peas, já gravaram seus sucessos ali. Foi no Guetho que nasceu também o célebre disco Tribalistas, que ele compôs com Marisa Monte e Arnaldo Antunes.

O bairro, explica o músico, tem uma carga histórica muito importante para a cidade e foi o berço do Timbalada, grupo afro que ele fundou no início dos anos 90 e virou símbolo do carnaval baiano. “Toda essa força do axé music, que construímos nesses 30 anos, está presente nos encontros que aconteciam aqui. Era necessário reordenar os ensaios comunitários e dar condições para as pessoas virem aos nossos bairros”, justifica.

O Guetho também ficou conhecido, na cidade, pela animação de suas festas. O evento costumava atrair artistas de peso, como Caetano e Gil, além de revelar cantoras – a começar pela própria Claudia Leitte. Trata-se de um local tão marcante que seu nome aparece em músicas, como Vamos Dar a Volta no Guetho e Festa, de Ivete Sangalo. Hoje, o local serve à comunidade local de diversas maneiras, como cenário para aulas, casamentos etc.

Além da música e dos projetos sociais, o compositor também se dedica a tema atualíssimo: os desafios da água. Para tanto, abre, em outubro, uma exposição que tratará do assunto, em São Paulo. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Como é a exposição sobre água que você vai abrir em São Paulo?

Eu já tinha feito uma instalação no Palácio do Planalto, há algum tempo, tratando desse tema. O projeto será mais que uma exposição. Chama-se Dificuldade da Água. Já temos prontas cerca de 80 instalações, para escolher 20. Estamos trabalhando duro no Ibirapuera. Será muito importante para nós a forma como vamos mostrar esses trabalhos, sobretudo em São Paulo.

Justamente em um momento de crise hídrica na cidade.

É, e que é cíclica, né? Eu era aguadeiro na infância, tive uma convivência enorme com isso. Servia água nas casas das pessoas. Subia esses morros, onde não havia água mesmo. Esse foi o meu primeiro contato. O primeiro jeito de me comunicar com as pessoas, por isso trago com muito respeito esse assunto. Ele está muito presente no meu trabalho.

De que maneira?

Em várias músicas. Eu fiz Água Mineral, que todo mundo conhece. E Água Também é Mar, com Marisa Monte e Arnaldo Antunes – que diz: “Água também é mar / e aqui na praia também é margem. / Já que não é urgente/ aguente, sente, / e aguarde o temporal.” E a minha música que talvez seja a mais bonita sobre o tema, Segue Seco, na qual eu digo: “Ó chuva vem me dizer / se posso ir lá em cima pra derramar você / Ó chuva, chuva, / preste atenção se o povo lá de cima / vive a solidão”. Essa solidão não é apenas dos humanos, mas a solidão da gota na garganta. Na época, foi uma música que ninguém entendia. Ou havia uma impressão de que era sertanista.

Parecia muito distante do Sudeste?

Sim, parecia. E quem é o sertão hoje? Quem se preparou para a desertificação, que são campanhas enormes, dentro dessa linguagem de construção das ONGs? Temos que olhar para isso.

Pretende levar a mostra para fora do País? 

Possivelmente. Estamos trabalhando pra levar à Europa, quem sabe para o Reina Sofia, o Guggenheim… Já tem muita gente ajudando. Vai começar em São Paulo, em outubro. Estamos trabalhando desde o ano passado. O mais importante de tudo isso não é pra mostrar arte, mas é a arte cumprindo seu papel de comunicação.

Foi para cumprir esse papel que você criou o Guetho Square? 

Esse bairro está para o Brasil e para os segmentos de terreiro como o terceiro altar do País. É tido também como um dos primeiros lugares em que se jogou capoeira. Devido a tudo isso, esse sentido que o bairro deu… ele acenava um sentido muito ecumênico. E o Guetho Square, que foi cantado por Ivete – “o povo do Guetho mandou avisar…” –, está dentro desse processo de aproximação social. Na verdade, para incluir é necessário primeiro se aproximar. A música termina tomando por responsabilidade isso, juntar pessoas. O Guetho Square foi criado para trazer de volta os cidadãos soteropolitanos até aqui, em torno dos tambores da Timbalada que despertaram no Candeal.

O que foi feito nessa tarefa? 

Diversas coisas. Nós precisávamos cuidar dos esgotos. Cuidamos dos esgotos, fizemos um projeto com a Caixa Econômica. Tanto assim que foi uma prática que ganhou prêmios no Fórum Mundial de Cultura. Até 1999, a Unesco chancelou a Bahia com índice zero de violência graças a esse trabalho que estava sendo feito nos bairros, aqui, na Liberdade etc. Por quê? Porque toda essa noção cívica e educada que os terreiros propõem para líderes comunitários culminou nesses últimos 30 anos. Isso é mais axé do que a música que nós fazemos (risos).

Como você vê a Bahia hoje? 

A Bahia tem estado mais tranquila e segura. Nós temos problemas, é claro. E muitos são causados não só pelo crescimento populacional, mas devido à luta das pessoas por sobrevivência. Então, se você olhar na rua, está todo mundo se vestindo igual, com carro igual e bens iguais. Existe uma fatia da sociedade que também quer tudo isso. Por isso que eu sempre digo que é importante destacar o trabalho das ONGs.

De que maneira? 

Olhando para o grande trabalho do Olodum e de outros grupos afros dos quais se ouve falar e que, além de fazer um grande trabalho social, são a matriz de toda essa música.

E o projeto do Afródromo? 

O Afródromo nasce um pouco para trazer o modelo do sambódromo de apresentar essas comunidades. Esses grupos culturais precisam ter um espaço pra se mostrar. E esse ano foi especial, porque conseguimos parte do patrocínio. Resolvemos deixar pro ano que vem para fazer como é. Ele vem sendo amadurecido.

Temos visto, nos últimos anos, manifestações de intolerância religiosa, como o atentado na França. A Bahia é, hoje, reconhecida pela tolerância entre diferentes religiões e pelo seu sincretismo religioso. Como vê esse movimento fora do Brasil? 

O comportamento de paz é algo que você traz dentro de si. Faz parte de uma disciplina interna. É um querer olhar o homem nos olhos e não sentir dor por isso. As pessoas que se comprometem dentro de uma visão religiosa política estão buscando um discurso ainda incompreensível. O que nós sabemos de Deus é que é um homem sem dor. E o que Ele busca é a oportunidade da vida. Então, se existe um paraíso prometido, é esse, é esse que Deus me deu. Quem não souber esse valor do ventre e do nascer, o valor da mãe, não compreenderá a paz. Para ele, a vida vai se tornar banal. Com todo o respeito aos segmentos, mas tradição aqui é paz, as outras coisas são quereres. E os quereres estão se tornando absurdos.

Acredita que está crescendo a intolerância no mundo?

O que está acontecendo conosco é uma falência de diálogo. Porque os discursos são preparados, muito ligados a esse discurso que cabe no papel, em que você não pode dizer tudo. As novas mídias têm demonstrado muito esse ser humano que se esconde atrás do codinome para ofender o outro.

Você vê agressividade nessa nova comunicação? 

Sim. O desejo de diminuir o outro é que realmente atua como raiz da violência e das guerras. É necessário perceber que o universo está pesado dentro dessa linguagem.

Cabe ao artista alguma tarefa nesse contexto? 

O papel do artista é isso que o axé music tem proposto o tempo inteiro. Embora no afã dos êxitos, somos apenas segmentos culturais ou intérpretes de uma cultura, a cultura brasileira. E os novos vão surgir sempre.

Você considerou uma grande vitória a aprovação da união homoafetiva?

Sim. Isso achei um êxito enorme. Eu escrevi, há muitos anos, “a namorada tem namorada” justamente para defender isso. E é claro que, em algum momento, (a ideia) foi rechaçada porque parecia estranha, mas isso se chama respeito ao outro, entendeu? Em todos esses neologismos, essas onomatopeias que criamos em nossas músicas, busca-se um sentido em que as palavras já não cabem, é o âmbito do sentimento. Se eu consigo, de alguma forma, me lembrar de sonoridades infantis, eu conecto uma coisa ali no meu cérebro que me fará infantil e me fará mais puro. E assim vou me conectar melhor com o outro.

Onde você mora? 

Eu tenho uma família vasta. Tenho uma filha no Colorado, filhos na Bahia e filho no Rio. Então, um pouco eu me divido. Mas fico mais na Bahia do que no Colorado…

Como foi cantar com sua filha Clara, na final do The Voice Brasil? Vai repetir? 

Foi uma delícia! Eu que propus, porque minha filha participa de um coral de que eu sou padrinho. Mas vamos com calma. Eu acho que, pra Clara, pra Chico e pra meus filhos, existe um empenho de tentar evitar qualquer glamurização, entende? Eles são muito maduros, sendo netos de quem são. Dos dois lindos, uma dama do teatro (Marieta Severo) e o maior poeta de todos os tempos da música brasileira, que é Chico (Buarque). São pessoas lindas, que eu amo de paixão. Isso, é claro, tem um peso. Ainda tem o fato de eu ser o pai deles. Sendo assim, eles gostam de música, mas, na verdade não têm pressa.

Há algum tempo circularam boatos de que você estaria envolvido em projetos com a Beyoncé. É verdade?

Não tenho projeto com a Beyoncé, não (risos). A verdade é que eu sou convidado para muitas coisas. Falei já com o pai dela, eu trabalho muito com Venus Brown, o grande produtor dela. A cada dia esses acessos na América se modificam. Minhas primeiras chances, inclusive, foram na América, né? Foi onde eu gravei meu primeiro álbum. /MARILIA NEUSTEIN