‘Coloquei toda minha angústia na pintura’, diz Vanessa da Mata, que se descobriu artista plástica na pandemia

Sonia Racy

02 de agosto de 2021 | 00h00

Vanessa da Mata. Crédito: Gil Inoue

Autodidata, Vanessa da Mata descobriu mais um talento na pandemia: a pintura. “No começo do isolamento passei cinco meses na casa da minha mãe, em Alto Garças, cidade do Mato Grosso, onde nasci e lá pintei mais de 30 telas”, conta.

Assim como foi com a música – Vanessa recebeu a bênção de Chico César e Maria Bethânia no começo da carreira – e com a literatura – seu primeiro e único livro A Filha das Flores, lançado em 2014, recebeu criticas positivas – seu recém talento descoberto na arte já caiu nas graças de quem entende do assunto. “Gente legal do ramo gostou das minhas telas e até recebei um convite para expor em Paris”, adiantou a cantora na entrevista que concebeu, via vídeo, à repórter Sofia Patsch.

Uma novidade digital que Vanessa experimentou recentemente foi gravar o primeiro ‘clipe-commerce’ de sua carreira, para a plataforma de lifestyle Westwing, que pode ser visto a partir de hoje. E como foi a experiência? “Muito legal, enquanto as pessoas assistem, todos os 400 itens que compõem o cenário podem ser comprados na hora”, explica da Mata.

A cantora também comentou sobre a maternidade tardia. Em 2013 ela adotou os irmãos Bianca, Felipe e Micael, que na época tinham 5, 6 e 8 anos, respectivamente. “No Brasil ainda é um tabu enorme adotar uma criança crescida. Já com meus amigos gringos sentei e brindei minha decisão”, relembra ela, que enfrentou muitas críticas de pessoas próxima na época. “Na minha família sempre foi natural adotar; minha avó materna adotou 20 crianças ao longo da vida”.

Inquieta, Vanessa, que já chegou a compor três músicas por dia, disse que se vê como escritora num futuro próximo. “Tenho coisas em andamento”. Confira os melhores momentos da conversa a seguir.

Como foi essa experiência que veio junto com a pandemia, de ficar mais em casa, ter uma rotina?
No começo da pandemia fui com meus filhos pra casa da minha mãe, no Mato Grosso, ficamos cinco meses lá, nesse tempo comprei muitas telas e tintas e comecei a pintar, sem parar, coloquei toda minha angústia na pintura e para minha surpresa, acabaram saindo quadros lindos disso tudo.

Então surgiu a Vanessa artista plástica agora na pandemia. Pretende continuar essa história?
Sim, a coisa tá ficando séria. Nesse meio tempo fiz quase 30 quadros enormes, 2X2 metros, sou workaholic num grau que se não faço alguma coisa fico louca, tenho muita energia, não parece, sou calmíssima aparentemente, mas tenho muita energia e preciso botar isso de alguma forma pra fora. Mostrei minhas telas pra algumas pessoas aqui de São Paulo que entendem de arte contemporânea e elas levaram muito a sério, gostaram muito, acham que os quadros dizem muito do feminino brasileiro e querem levar pra Paris.

Vai fazer uma exposição em Paris?
É, não sei quando porque agora tem uma fila de artistas querendo abrir exposição lá, mas meu trabalho já foi muito bem recebido, existem interessados e eu tô muito feliz com isso.

E a música, como ficou com toda essa novidade?
E a música continua, não fica pra trás, é uma coisa muito natural pra mim. Não consigo ficar sem fazer, não tem como. Vou lançar um single daqui um mês e pouquinho e também tenho uma música nova, que não posso falar muito
Anda compondo muita coisa? Música sempre surge, em qualquer lugar, no avião, na casa da amiga, é instintivo, é muito natural. Quando morava em São Paulo era muito produtiva, sentava em um café e fazia três músicas por dia.

Pela primeira vez, você também foi produtora do seu último álbum, Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina. Como foi a experiência?
Sempre estive perto, mas ainda não tinha tido coragem, dessa vez tive e adorei, não foi muito diferente do que eu já fazia, a não ser por não ter muita interferência, porque produção sempre interfere conforme o gosto pessoal do cara ou conforme como ele te entende.

Então é uma fórmula que deu certo, pretende repetir nos próximos trabalhos?
Olha, o disco está super bem falado, as pessoas falam que ele é um dos melhores da minha carreira, ganhou até disco de platina. Vamos ver, por enquanto tenho total intenção de continuar sim.

É multitarefa nata, é verdade que também desenhava seu figurino no começo da carreira?
Verdade, quando cheguei em São Paulo não tinha grana e tive que me virar, então aprendi a costurar meus figurinos e fiz isso por muito tempo. Sou uma aquariana inveterada, para quem gosta de signos. Sou aquário com ascendente em gêmeos, entre gêmeos e touro e lua em libra. Tenho horror a dependência. Também tive o exemplo da minha avó materna, que adotou 20 filhos. Para as meninas ela dizia: mulher precisa se formar, porque se acontece alguma coisa no casamento, ela pode pegar a trouxinha dela e ir embora.

Assim como sua avó, também é mãe de coração de três irmãos que adotou já ‘crescidinhos’, com 8, 6 e 5 anos. Enfrentou muito preconceito no processo?
Lembro que muitas pessoas falaram muito mal, pra eu não fazer porque ia me arrepender muito. Mas também lembro dos meus amigos gringos indo jantar comigo para comemorar, é uma cabeça muito diferente. A gente realmente não tem crianças bem assistidas nos abrigos do Brasil. Não tem. É uma mulher tomando conta de 50 crianças de várias idades, já dá pra imaginar o que pode acontecer. Então é praticamente um abandono, sem estrutura psicológica e escolar.

Como foi com seus filhos?
Meus filhos vieram com muitas dificuldades, o mais velho sabia três cores e só, ele tinha 8 anos e meio. Sabia preto, branco e vermelho por causa do Flamengo e mais nada. Então ele teve que voltar pra primeira série, enfrentou muitas dificuldades, mas foi alfabetizado em um ano, normal, como todos os outros. Eu sabia das dificuldades de ter um filho de coração porque como minha avó materna adotou 20, sabia que a autoestima deles é difícil, que é dolorida. Que eles, por causa da rejeição dos pais, têm uma dureza; ou às vezes uma tristeza; que às vezes se manifesta de maneira violenta. Mas as coisas boas foram gigantes.

Teve que abrir mão de algo da carreira para se dedicar a eles nesse começo?
Parei minhas turnês internacionais, por exemplo, pra ficar com eles. Deixei de trabalhar fora durante a semana, trabalhava só aos finais de semana. Quando você pergunta para uma criança que vive em abrigo o que eles querem, todos dizem que querem uma família.

Começou a cantar cedo, com 15 anos, mas na época não tinha o apoio do seu pai, até mentiu que ia cursar medicina para ir para Uberlândia. Como foi essa questão no começo da sua carreira?
Nossa, meu pai era uma coisa muito confusa e um homem muito bravo, um cara do interior. Ele tinha uma dicotomia, porque ao mesmo tempo que ele me dava uma moto com 12 anos, dizia que tinha que me casar aos 14 com um fazendeiro que ele conhecia. Era uma mistura entre me libertar e me acorrentar. Ele tinha aquele pensamento antigo, da década de 1950, que mulher cantora era como se fosse uma dançarina de boate de prostituição.

Deu muito trabalho quando era adolescente?
Nada, sempre fui muito na minha, as minhas loucuras eu fazia, montava casinha no meio do mato, tive experiência biológica com a flora do lugar, fazia perfume, era tudo diferente comparado ao que as meninas fazem normalmente. Não queria namorar, tinha muito mais uma questão de explorar algo maior do que isso.

Como vê a volta do mercado pós-pandemia?
Existem duas possibilidades. Tem muita gente falando que quando voltar vai voltar com tudo, que as pessoas estão cansadas de ficar em casa, que vai ser um boom, que os shows vão retornar. Essa comoção é necessária, as pessoas querem estar num bolo de gente dançando, cantando. Mas tenho minhas dúvidas.

Por quê?
Acho que tem muita gente que começou uma outra rotina, de ficar mais em casa e gostou, mas estou torcendo por um equilíbrio.

Como está se preparando para esse retorno?
Vou lançar um single que traz uma mensagem muito forte, inclusive falando da pandemia. Tomara que traga um alívio para as pessoas. Essa é a intenção.

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