Círio de Nazaré, um dos maiores eventos religiosos do mundo, deverá ser virtual, diz Fafá de Belém

Círio de Nazaré, um dos maiores eventos religiosos do mundo, deverá ser virtual, diz Fafá de Belém

Sonia Racy

10 de julho de 2020 | 00h55

FAFÁ DE BELÉM – FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Se avizinha, conta Fafá de Belém, um de seus grandes desafios: pela primeira vez em anos, o Círio de Nazaré – uma das maiores festas religiosas do mundo – deverá ser virtual. “Até se reduzíssemos o público em 50%, seria 1,5 milhão e pessoas. Básico”, disse à coluna a madrinha do evento – que ela capitaneia, em outubro, em Belém do Pará, junto com a direção do Círio.

Nem com a descoberta de uma vacina o evento religioso poderá ser presencial? “Nem assim. A arquidiocese está estudando isso com médicos, pesquisadores, orientações da OMS, mas nenhum procedimento garante que a gente não vá ter uma segunda onda (de covid-19)”.

Diante desse quadro, Fafá já decidiu: realizará sua famosa Varanda de Nazaré, onde recebe celebridades, políticos, religiosos, também de modo… virtual. É o 10º ano desse espaço, que terá dez embaixadores, entre eles Leandro Karnal, Dira Paes, André Lima e Marcelo Rosembaum. “Já comecei a movimentar o meu instagram @varandasdenazare porque isso acalma o coração dos paraenses. O Círio não é uma procissão, é uma renovação de vida, e ela pode ser comemorada mesmo de casa, em grande corrente de fé e parceria”.

O ‘apê’ de Fafá, em SP – a cantora vive entre Portugal e Brasil – virou um verdadeiro “centro de desinfecção”. O edifício ocupa dois andares, nos Jardins, onde ela faz suas lives acompanhada de músicos in loco. “Não faço playback. Gosto de live, live mesmo, ao vivo”, avisa.

O novo “modus operandi” também impôs uma barreira. “Tô com pavor de elevador (por conta de contaminação). Quando tem live aqui, mando forrá-lo todinho”. E mais: quem entra no duplex, é convidado a trocar a roupa por um roupão, tirar os sapatos, usar desinfetante… “Com ou sem intimidade, o procedimento é esse”, conta Fafá, com sua gargalhada inconfundível.

E quando sai de casa, o que é raro, redobra cuidados. “Puxo o elevador de luvas, aperto o andar com cotovelo e empurro a porta de costas. Isso é uma forma de proteger a mim e aos outros. É preciso pensar coletivo. Não dá pra bater de frente com um vírus dessa magnitude”, diz a cantora que testou negativo para a covid-19 “várias vezes”.

Fafá comenta sobre a cloroquina que Bolsonaro – com coronavírus – está usando.”Vamos ver a evolução, porque está comprovado que isso não é a salvação”.

A cantora perdeu, recentemente, Hercília, que cuidou de sua filha, Mariana, por mais de 20 anos. “Ela era cardíaca, mas reagia bem (ao tratamento), estava num quadro de melhora mas aí trocou o plantão e deram cloroquina. Isso acabou com o coração dela. Pra algumas pessoas, pode funcionar, mas o que é bom pra uns não é bom pra todos. O coronavírus é devastador. Em Belém, perdi três amigos num dia só”, lamenta.

Mariana passou a morar com Fafá – só no período da pandemia.  “Não vou ser hipócrita, não dou conta sozinha. Foi uma loucura no começo”, admite a cantora, que precisou adaptar os planos para comemorar 45 anos de carreira, em maio passado.

As lives viraram, então, parte da celebração. A próxima será no dia 27, dedicada a mulheres que inspiraram Fafá. Repertório vai de Maria Bethânia, Elis Regina, Gal Costa e Rita Lee a Marília Mendonça – “que eu acho o máximo”, disse, sobre a cantora de Goiás de 24 anos e campeã de audiência nas lives no isolamento social.

Nessa readaptação, Fafá aproveitou a pandemia também para realizar desejo antigo – deixar os cabelos brancos e cuidar ainda mais de si. Contratou um nutricionista.

No fim do mês, ela voa para Lisboa (cidade já ‘reaberta’), de onde intercalará suas lives – “vai ser lá e cá”. “Agora que tenho dois tripés, um com luz especial, ninguém me segura. Antes, era celular na mão”. Numa dessas lives (bate-papo com Padre Fábio de Melo), ela chutou o tripé, o celular voou. “Falei, Padre, o senhor foi ao céu e voltou ao vivo”.

Fafá  viu suas redes sociais ‘bombarem’ quando começou a transmitir as cantorias – o Instagram ganhou 200 mil novos seguidores, o YouTube e o Facebook triplicaram a audiência. “Ganhei muito seguidor jovem, da faixa de 15 e 19 anos, é hilário, tô adorando”.

Mas ela lembra que “antes de botar a boca no trombone – ao reclamar da “invisibilidade de artistas com mais de 50 que fizeram a história do Brasil” – não via a cor do patrocínio. “Virei e disse: se os garotos de marketing não sabem, eu sei quem sou. Eu não vou ‘pirangar’ (economizar). Eu banco. Aí apareceram retorno, como o Magalu, a MDS… Da nossa geração, antes de mim, ninguém tinha feito. Depois da minha, fizeram lives o Gil, o Milton…”.

Para a cantora, a pandemia levantou  questões geracionais. Inclusive, debateu esse tema com a atriz Vera Fisher, em sua última live. “Uma mulher dessa, bicho, é um símbolo”, diz, frisando que – mesmo assim -, a amiga também tenta conseguir parcerias para suas lives.

“Quem está em casa, precisa ser abraçado. E é para essas pessoas que faço minhas lives. É preciso lembrar também que essas pessoas com mais de 60 anos que estão em casa, consomem. É um consumo de luxo ou não, mas é pensado e que se fideliza”. Ela própria conta que se “reinventou aos 60”, quando fez o disco “Guitarradas do Pará” e depois “Humana”. “Isso tudo está dentro de mim, porque todos nós, aqui dentro (aponta para o coração), somos vários”, finaliza Fafá.
\CECÍLIA RAMOS

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