‘Chegou o momento de Neymar ser o homem decisivo da seleção’

‘Chegou o momento de Neymar ser o homem decisivo da seleção’

Sonia Racy

19 de maio de 2014 | 01h02

Dunga (Foto: Denise Andrade/Estadão)

Sem qualquer arrependimento em relação à Copa de 2010, Dunga foge do carimbo de injustiçado: “Nunca fui criticado por ser um treinador ruim”.

Quatro anos após ignorar os apelos populares, deixando Neymar fora da Copa de 2010, e amargar dura derrota para a Holanda, Dunga se rende: Neymar é o cara do Brasil – “chegou o momento dele”. O que não significa que Carlos Caetano Bledorn Verri se arrepende de não ter levado a então promessa do Santos ao Mundial da África do Sul. “Em dezembro de 2009, o Neymar era reserva do time. Ele começou a estourar no Campeonato Paulista de 2010. E nós tínhamos só mais um amistoso. Não haveria tempo para testá-lo.”

Agora é diferente, diz. A Copa vem em boa hora para o craque, ainda em fase de adaptação no Barcelona, incluindo vários jogos no banco de reservas. “Ele vai chegar aqui mordido, querendo mostrar do que é realmente capaz.” Neymar pode ser decisivo? “Para conquistarmos o hexa, ele tem de ser.”

Aos 50 anos, o ex-volante foi contratado por uma emissora de TV mexicana para comentar os jogos da seleção asteca, segundo adversário do Brasil. E mais: acaba de ser convidado pela Fifa para integrar, durante o Mundial, seu Grupo de Estudos Técnicos (TSG) – responsável por produzir um relatório sobre as novas tendências do futebol que surgirão durante o torneio. Dunga é, aliás, o único brasileiro da lista.

A seguir, os melhores momentos da conversa com o gaúcho, que recebeu a coluna em meio aos compromissos com a Technos. A marca acaba de lançar coleção de relógios em homenagem aos cinco capitães brasileiros das seleções campeãs do mundo e abre hoje, em São Paulo, a exposição Capitães da Taça.

Uma crítica à seleção de Felipão é a falta de experiência dos jogadores em Copas.

Isso é relativo. Às vezes, um jogador mais velho não é experiente, e um jogador novo é experiente. A experiência não vem só de jogos da seleção – até porque a seleção faz uma partida por mês. O jogador cria experiência dentro de seu clube, com jogos internacionais. E nós temos esses jogadores. A maioria joga Copa dos Campeões e outros torneios internacionais, o que é uma ótima experiência.

Concorda com o Pelé? Kaká e Robinho podem fazer falta?

Depende do conceito do treinador. São jogadores que iriam ajudar muito, pela experiência e pela qualidade técnica que têm.

Concorda com a convocação do Julio Cesar como titular do gol da seleção?

É um jogador muito experiente. E que, infelizmente, teve esse problema na Inglaterra. Ele jogou pouco por lá, depois foi para o Toronto, jogar um campeonato sem muita competitividade. Ou seja, a avaliação tem de ser em cima do potencial dele.

Mas ele estaria em uma convocação sua?

Ah, sim.

Em algum momento, se arrepende de não ter levado o Neymar e o Ganso em 2010?

Não. É momento. Se voltarmos àquela época, quem estava em melhor fase era o Ganso, não o Neymar. Em dezembro de 2009, o Neymar era reserva do Santos, começou a estourar no Campeonato Paulista de 2010, depois de um mês de preparação, de férias. E nós tínhamos só mais um amistoso, em março. Não havia tempo de testar para saber se daria certo ou não. E mais: ele teve dificuldade na seleção durante a Copa América. Mas que tem um talento nato, isso sem dúvida nenhuma. É um jogador em que se tem de apostar. E acho que agora chegou o momento dele. Quatro anos depois, mais experiente, jogando na Europa. É o momento de ele ser o homem decisivo da seleção.

Neymar pode ser decisivo?

Tem de ser. Para conquistarmos o hexa, ele tem de ser.

Ele foi tarde para a Europa?

Acho que não. Já tinha jogado Libertadores, Copa América e muitos jogos na seleção. O bom de estar jogando na Europa agora é que ele vai vir para a Copa meio mordido, vai querer mostrar o que ele é realmente. Porque tem de se levar em conta que a adaptação é difícil para todo mundo. Poucos jogadores chegam lá e se adaptam de cara. Também tem de se levar em consideração que, no Barcelona, houve duas trocas de treinador seguidas. Claro que o torcedor só quer falar do jogador, mas tem de ver todo um contexto, não somente um ponto específico.

A gente não vê nesta seleção tantos craques como em seleções do passado. A impressão que se tem é de que o Neymar vai ter de carregar essa responsabilidade. Ele está preparado?

Se o cara é craque, tem responsabilidade com 14, 15 anos e vai continuar tendo. Uma coisa que acontece aqui, diferentemente de outros países, é que nós começamos a ter responsabilidade nas peneiras dos clubes, com 5 mil crianças. A competitividade começa aí. O problema da seleção do Felipão é que seus jogadores foram muito novos lá para fora, exatamente quando iam começar a ter um nome por aqui. É o caso do Oscar, do Hulk.

Jogadores que não têm identificação com o torcedor.

E com a própria imprensa. Porque a imprensa precisa criar um ídolo no Brasil e ela não tem esse ídolo. Eles vão embora cedo demais.

Ainda mais com a Copa acontecendo no Brasil.

Tanto é que a seleção não tem nenhum jogador que atue em São Paulo – de onde sempre partiu muita pressão na hora da convocação. Desta vez, não foi possível fazer pressão. Então, não tem polêmica. Até nisso o Felipão tem sorte.

É mais fácil ser jogador ou técnico da seleção?

Ah, mais fácil ser jogador, bah (risos). Porque tu é convocado e ponto. Ser técnico da seleção brasileira é outra história. Nem todo mundo quer se meter em política, mas todo mundo quer falar de futebol. Artista, cantor, político. Quer dar opinião sem ter conhecimento de causa. Não que o cara não saiba nada de futebol, mas não está no dia a dia para entender o que se passa e o porquê de certas decisões. Por exemplo, se o treinador da seleção não der entrevistas, vai levar pau de todo mundo. Agora, se o presidente da República manda um ministro ou assessor falar em seu lugar, não acontece nada. Essa é a diferença.

No período em que esteve à frente da seleção brasileira, o que mais te aborrecia no relacionamento com a imprensa?

O que mais me aborrece, não como treinador, mas como homem, é mentira. Acho que ser criticado faz parte, mas o problema é que a imprensa não gosta de ser rebatida. A opinião dela tem de ser definitiva. A figura do treinador fica muito exposta, e uma hora tu vai ter que bater em alguém. Não tem jeito. Tu é ser humano.

Você se considera injustiçado?

Injustiçado é uma palavra muito forte. Quando tu não consegue uma coisa de uma pessoa, passa a criticá-la. Nunca fui criticado por ser um treinador ruim. As críticas eram porque eu não dava entrevista, porque o torcedor não entrava no treino, porque a mídia não tinha livre acesso. Falaram que eu barrei a torcida, quando a seleção foi para Curitiba. Mas o time estava lá para fazer exame médico e teste físico… Nem eu fiquei perto deles naquele momento.

Por que, depois da Copa, ficou tanto tempo sem trabalhar?

Nunca tinha pensado em ser treinador. Pensava em trabalhar no futebol. Quando fui convidado pelo presidente da CBF, eu pensava, ingenuamente, que todos torciam pela seleção. E não é assim. Tem muita gente que torce pela desgraça. O tal fogo amigo. Essas são as decepções que tu tens, mas não acontece só no futebol.

Te irrita que os jornalistas incensem a seleção de 1982, que não ganhou nada, e façam pouco da campeã de 1994?

Não. Sabe por quê? Porque minha geração foi a primeira medalha olímpica, primeira a ganhar o mundial de juniores, primeira a vencer a Copa América depois de 40 anos e a primeira a ganhá-la também fora do Brasil, a primeira a vencer a Copa das Confederações e a primeira a ser campeã do mundo depois de 24 anos. E ainda chegamos à final na Copa seguinte. Contra resultados não há argumentos. Sem talento tu não ganha. O time de 1982 era fantástico. Não há o que falar dos jogadores, mas não ganharam. Além disso, a seleção de 1994 sofria pressão de todo mundo. Nos jornais da época, era só desgraça. Antes da final contra a Itália, já diziam que a gente tinha perdido. O Parreira chegou a falar que as críticas eram contra ele – para nos proteger. A gente disse: “Não, professor, são contra todos nós e vamos com o senhor até o fim”. Tu não vai ganhar sempre, mas, no trajeto inteiro, tem que ganhar alguma coisa.

Em relação à seleção de hoje, há menos expectativa?

Eles vão ter tranquilidade para trabalhar, mas a cobrança haverá, com certeza. Times de ponta que jogam em casa têm obrigação de ganhar. É preciso trabalhar para ganhar. Até porque os jogadores da seleção trabalharam a vida toda por isso, para participar de uma Copa, para estar na seleção. Agora, vamos pra luta, vamos jogar.

Você deixou o Inter em outubro. Quer voltar a treinar?

Vou voltar, mas não tenho muita pressa. Estive com alguns times de fora.

Não tem nenhum técnico brasileiro nos clubes europeus. Os técnicos brasileiros são mal preparados?

Não! Muito pelo contrário, aliás. Nossos técnicos são muito bem preparados. Mas eles têm um defeito que todo brasileiro tem: quando chegam lá fora, querem economizar. Já os treinadores europeus pedem o melhor jogador do mundo. O problema é do clube, se vai comprar ou não. A gente se contenta com a terceira ou quarta opção, porque viemos de um futebol no qual tem de se gastar o menos possível e se reinventar todos os dias.

A Copa corre o risco de ser um fracasso em termos de organização e infraestrutura?

Fracasso, não. Vai haver dificuldades, é claro. Não precisa dizer que, sem a Copa, já enfrentamos problemas nos aeroportos, nas estradas e na comunicação. Imagina com a quantidade de turistas que virão para os jogos. Só que o povo brasileiro é muito festivo, muito receptivo, e quem vem assistir à Copa vem para ser feliz, não para criar confusão. O torcedor que vem de fora não vai pagar 15, 20 mil dólares para não se divertir. Ele vai tentar driblar os problemas para aproveitar o que o Brasil tem de melhor: o futebol, a alegria, a natureza.

E as manifestações?

Em algum momento, vão perturbar. Mas nossa melhor manifestação, mesmo, é na eleição. Não adianta nada fazermos a maior confusão agora e quando chegar nas eleições deixar tudo como está. Essa é a consciência que temos de ter. Vão dizer que sou polêmico por estar falando isso.

Como técnico, qual sua postura em relação a episódios de racismo e o que achou da atitude do Daniel Alves?

Tem de ter pena do cara que joga banana em campo. Pensa bem: ele se dispôs a sair de casa, deixar a família, pagar o ingresso… e, ao invés de se divertir, prefere xingar um jogador, agredi-lo. E por quê? Por que ele é bem-sucedido? Por que joga para 100 mil pessoas? Por que saiu da pobreza e hoje é conhecido no mundo todo? Por que fala três idiomas, se veste bem? O Daniel deu a melhor resposta. Ignorou o cara, foi irônico sem ser agressivo, não poderia ter sido mais feliz. Agora, acho que se deveria colocar o rosto desses caras em todos os jornais, para que todo mundo saiba que ele são uns imbecis. O problema é que a gente esconde esses sujeitos. Se expuséssemos o rosto, quero ver se eles faziam de novo. /DANIEL JAPIASSU E THAIS ARBEX

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