Com o tempo, ‘você busca papéis mais profundos e tem mais pra dar’, diz Carolina Dieckmann

Com o tempo, ‘você busca papéis mais profundos e tem mais pra dar’, diz Carolina Dieckmann

Sonia Racy

14 de novembro de 2016 | 00h30

carolina 2 Aos 38 anos, a atriz Carolina Dieckmann comemora
boa fase
no cinema, curte
o anonimato em Miami,
se organiza para nova
série na  TV e diz que papel
de bonita ‘não é o mais interessante’

Ela ainda não chegou aos 40 anos mas já soma 24 de carreira. Mãe de dois filhos, um de 17 e outro de 9, foi precoce em tudo, mas não deseja que eles sigam seus passos. “Acho que um menino de 13 anos tem que estudar, morar fora do País, namorar e principalmente, ter a liberdade de errar”, pondera a atriz Carolina Dieckmann, que há seis meses trocou o Rio por Miami, onde está por um ano acompanhando o marido, que está trabalhando na Florida.

Lá, Carol – que aos 13 anos já era celebridade por aqui – está curtindo a sensação de ser anônima. E está gostando. Admite que precisava mesmo dessa pausa. “A experiência está sendo ótima. Posso ir e vir sem ser observada toda a hora”, disse à repórter Sofia Patsch durante um ensaio fotográfico para a marca de calçados Mundial, em São Paulo. A propósito, comentou também que o papel de mocinha bonita “não é o mais interessante” e com o tempo os papéis “vão ficando mais profundos, você também tem mais pra dar”.

De licença da TV, a atriz já tem o que fazer na volta: estará ao lado de Selton Mello na série 13 Dias Longe do Sol, produzida pela O2 para a Globo. Sobre o elogiado papel em O Silêncio do Céu, do diretor Marco Dutra, em que protagonizou uma forte cena de estupro, Carol conta que se entregou de corpo e alma. “Mas quando acabou, eu estava exausta”, admitiu. A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Como está sendo a experiência de morar em Miami?
Tô lá e cá, na verdade. Meu filho mais velho, Davi, ficou no Rio. Ele quer se formar com os amigos da vida inteira, só falta um ano. Estou vindo uma vez por mês.

Adaptou-se bem à sua nova rotina nos EUA?
Estou superadaptada, gostando muito da experiência.

Você tem sido muito elogiada por seu trabalho no filme O Silêncio do Céu, de Marco Dutra. Como foi a experiência? Como se preparou para fazer a forte cena de estupro?
Foi difícil. Não houve uma grande preparação para filmar, minha única preocupação com a cena foi estar disponível o tempo inteiro para o diretor e reagir instintivamente com os atores. Foi forte, chorei muito quando terminou. A situação era muito tensa e isso ficava ainda pior com os barulhos, a força que precisei fazer, a faca. Fiquei exausta.

O ator argentino Leonardo Sbaraglia, seu parceiro de cena no filme, disse que além de linda você é muito talentosa. Como foi trabalhar com ele?
Foi uma delícia trabalhar com o Leo. Ele é um ator intenso, com muita experiência e profundidade, colega incrível, que se interessa pelo outro.

Como lidou com a questão da língua, já que o filme foi gravado em espanhol e você já disse que não domina o idioma?
Sobre essa questão da língua foi muito bom ter vencido essa barreira. Eu tinha muito medo, mas quando comecei a estudar percebi que o medo era bem maior do que a dificuldade real. Adoro desafios e me sinto bem ao enfrentá-los. Adoraria ter novas oportunidades.

‘NÃO SEI O QUE GANHEI OU PERDI. 
ESSA É MINHA ÚNICA EXPERIÊNCIA’

Você começou a trabalhar cedo, casou e teve filho cedo. Olhando para trás, arrepende-se de algo?
Esse pensamento e esse julgamento são muito difíceis porque eu só vivi desse jeito, não sei o que ganhei ou perdi porque essa é a minha única experiência. Mas não desejo, por exemplo, para os meus filhos, a vida que tive, não por ter uma crítica e achar que foi ruim ou bom, simplesmente porque entendo que um menino de 13 anos tem que estudar, morar fora do País, namorar e principalmente, ter a liberdade de errar. Quando você começa muito cedo a dar entrevistas, ser famosa e tudo, fica sendo cobrada o tempo todo, e lidar com isso é difícil, né?

Como reagia a tudo isso quando começou?
Não tinha noção do que era errar naquela época. Eu só sabia ser verdadeira. Não existia esse pensamento: “ah, o que eu estou fazendo está certo, está errado”. Com 13 anos não tem isso. E eu não tenho arrependimento não, sempre fui precoce, quando era criança só queria saber de coisa de adulto, queria ter filho bem nova, ter uma família. E sempre fui muito responsável com horário, com o que eu tinha que fazer, com o que eu sabia que era certo. Eu tinha muito comprometimento com aquilo. Já tinha uma seriedade fora do normal, assim, de lidar com a profissão e com o que eu me propunha. Acho que não teria como ser diferente por ser eu. A Carolina é assim.

‘SER ANÔNIMA É ÓTIMO. SER
NOTADA O TEMPO TODO CANSA’

Você passa a impressão de ser uma pessoa muito segura de si, toma conta da sua carreira desde o início. O que acha da questão do feminismo? Se identifica?
Eu não me sinto representante de nada. Isso é uma das coisas que mais me angustiam na vida, em vários momentos ter que pensar sobre o que vou falar ou como vou agir porque vai influenciar as pessoas. Quando é através do trabalho é diferente, porque é um personagem que vai levar a uma discussão, abordar um assunto A, B ou C e fazer as pessoas pensarem sobre a questão. Mas quando se trata de pessoa física é muito complicado, ninguém é exemplo, né? As pessoas são sempre pessoas, com suas histórias, seus erros e acertos.

Sente-se muito cobrada nesse aspecto?
Procuro não estar nesse lugar. Sou uma cidadã comum. Não acho que a minha opinião tenha mais importância do que a dos outros, embora, às vezes, as pessoas me vejam desse jeito. Não me sinto assim, me vejo igual a todo mundo, com as mesmas dificuldades ou facilidades – e é bom que seja assim. Eu gosto de me sentir normal.

Mas, tendo sido famosa desde adolescente, acha que sabe o que é ser ‘normal’?
Olha, essa experiência que eu estou tendo agora de morar fora do País está sendo ótima para mim. Posso ir e vir sem ser observada toda a hora, o fato de você ser observada o tempo inteiro cansa. Não cansa no sentido de ser chato, mas é sempre um olhar sobre você. Então o tempo inteiro aquele olhar, você acaba sentindo e cansando. Quando tira isso, dá um alívio.

Como uma atriz muito bonita, fez muito o papel da mocinha. Com o passar dos anos, que papéis se vê fazendo?
Ah, os mais interessantes. Porque o da bonita com certeza não é o mais interessante. Acho que com o tempo os papéis vão ficando mais profundos, você também tem mais pra dar, mais conteúdo. Tudo tem seu tempo, o papel da mocinha também é legal quando somos jovens. A vida é assim, tudo tem o seu momento.

Como está lidando com a passagem dos anos?
Vejo a passagem do tempo com muita beleza e com cada vez mais maturidade e profundidade. Acho que a beleza vai se transformando em outra coisa, vai deixando de ser plástica.

Pretende investir em uma carreira internacional?
Não existe um projeto, mas achei curioso. Quem sabe acontece naturalmente.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.