Carol Solberg defende revisão das regras que impedem manifestação na quadra

Carol Solberg defende revisão das regras que impedem manifestação na quadra

Sonia Racy

09 de novembro de 2020 | 00h50

Carol Solberg. Foto: FIVB

Depois de ter gritado “Fora, Bolsonaro” ao ganhar medalha de bronze na primeira etapa do Circuito Brasileiro de vôlei de praia, Carol Solberg passou por um julgamento no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). “Senti como uma censura, então estou recorrendo”, explicou. Foi condenada a pagar, por três  votos a dois, multa de R$ 1 mil. A pena foi convertida em advertência no mês passado. Para ela, o atleta tem um papel que vai além de entreter e deve se posicionar: “Espero que o esporte seja palco de liberdade”.

A jogadora diz que as normas que impedem os atletas de se manifestar na quadra precisam ser revistas: “Acho que os atletas seguem regras antigas da época em que o esporte foi criado. Foram feitas por homens sexistas, racistas, na época em que a mulher nem podia participar do esporte”. A atleta, de 33 anos, celebrou a vitória do democrata Joe Biden – em especial da vice-presidente Kamala Harris por ser a primeira mulher a ocupar o posto nos EUA.

A mãe de Solberg é Maria Isabel Barroso Salgado, a “Isabel do vôlei”, como era chamada pela torcida a atleta de muitos títulos. A filha também já coleciona alguns feitos. Em 2018, foi eleita a melhor jogadora do Brasil de vôlei de praia pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) e foi vice-campeã mundial ao lado da irmã Maria Clara em 2013. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por videoconferência à repórter Paula Bonelli.

Sua mãe também se manifestava em quadra?
Sim, a minha mãe não conseguia ver covardia, ela sempre comprava o barulho dos outros, se metia nas brigas. Então não tem como separar, a pessoa que era fora da quadra era também em quadra. Acho que tiveram uns episódios na seleção brasileira, com os dirigentes, que ela se colocou contra eles quando achava que as coisas não estavam rolando do jeito certo, foi cortada duas vezes por conta disso. Também participou das Diretas Já.

Quais são as outras personalidades que admira?
Hoje em dia no esporte não tem como não falar do Lebron James, jogador do Los Angeles Lakers, do Lewis Hamilton, piloto da Fórmula 1. Me emociona muito ver esses atletas se colocando e sabendo da importância da sua voz nesse momento tão crucial no mundo. O Lebron James defendeu a importância do voto nos Estados Unidos. Lewis Hamilton bateu todos os recordes possíveis, foi lá e abriu um casaco com mensagem contra a Sars, a polícia nigeriana por causa da violência.

Acha que se fosse uma atleta em outro país e tivesse feito essa declaração teria sido diferente?
A gente está vivendo um momento no Brasil em que qualquer pessoa que se manifeste contra esse governo é totalmente criticada. Esse é um governo que não tolera críticas. É difícil. Acho que com certeza em outros países seria diferente. O Brasil está vivendo tempos sombrios. Até por isso foi tão importante eu ter me manifestado sim. Acho que os atletas seguem regras antigas da época que o esporte foi criado. Essas regras foram feitas por homens sexistas, racistas, na época em que a mulher nem podia participar do esporte.

Você está falando de não poder se manifestar?
Existe uma carta olímpica com vários artigos, a regra 50 diz que você não pode se manifestar politicamente fora da zona mista em Olimpíada, em competições internacionais. Por exemplo, não pode fazer qualquer tipo de gesto no pódio. Tem o caso dos Panteras Negras na Olimpíada de 68. Eles fizeram o gesto deles e foram banidos do esporte. Essas regras precisam ser revistas porque cada vez mais há atletas com medo, com razão, porque muitas vezes isso pode acabar com a sua carreira.

Fale sobre essa neutralidade exigida do atleta.
O Thomas Bach, que é o presidente do Comitê Olímpico Internacional, semana passada, escreveu um artigo falando como ele acredita que o atleta tem que ser neutro politicamente. Querem botar o atleta nesse lugar de fantoche, só de entreter.

A militância pode afetar o desempenho no esporte?
Se você começar a virar um ativista, participando de reuniões aí não dá. O atleta de alto nível tem uma rotina pesada – para cuidar do corpo, treinar, precisa descansar – mas não impede ele de se engajar minimamente, de estar atento. Acho que atrapalha a partir do momento que você é punido, que sente medo. Atrapalha quando sabe que se posicionar pode causar esse rebuliço todo.

Como avalia hoje seu julgamento no STJD?
Achei que foi muito desrespeitoso o julgamento em si. Acho que a fala final do Otacílio Soares de Araújo, presidente da comissão do STJD, o último voto foi feito de uma forma muito machista, muito desrespeitosa. Ele falou coisas do tipo que eu não estava ali nas quatro linhas para dizer o que pensava, que estava ali para dizer o que tinha acontecido no vôlei, falou que me deu um puxão de orelha, que eu tomei um susto. Eu me senti muito ofendida, e recorri à decisão… Eu tive multas que foram convertidas em uma advertência. Senti como uma censura, então estou recorrendo.

A denúncia do STJD foi dura.
Achei a denúncia em si uma grande hipocrisia porque atletas do vôlei de quadra já tinham se manifestado a favor do presidente Bolsonaro durante as eleições fazendo sinal de 17 com a mão, em um jogo da seleção brasileira televisionado, e a confederação brasileira emitiu uma nota de repúdio falando que não podia se manifestar politicamente, mas que acreditava na liberdade de expressão dos atletas. E no meu caso foi totalmente diferente. Acredito na liberdade de expressão deles e é importantíssimo respeitarmos isso. Só acho que não pode ter tratamento diferente quando essa manifestação é contrária ao governo, são dois pesos e duas medidas

Achou que ia ser punida?
Não achei, até porque não acho que infringi nada. O termo de compromisso que eu assinei não diz que não posso me manifestar politicamente, diz que não posso me manifestar de uma forma que prejudique a CBV. Então não falei mal da confederação brasileira, muito pelo contrário, tinha até elogiado eles durante a competição, que o torneio estava muito legal diante da pandemia, que a estrutura estava bacana.

Dá pra viver financeiramente como jogadora de vôlei de praia?
Acredito que sim se você vai bem nos campeonatos, agora se passar anos sem patrocínio é impossível, fica muito difícil. As contas simplesmente não fecham porque o atleta tem que manter uma equipe, um treinador, preparador físico, terapeuta, auxiliar, toda uma estrutura de treinamento e viagens. Eu na maior parte da minha carreira tive patrocinadores incríveis.

O que está passando te ajuda ou atrapalha para conseguir patrocinador?
Eu não estou pensando nisso não, me sinto muito feliz de ter me posicionado, há muitas marcas que não gostam de atletas que se envolvem em polêmicas, mas não tenho esse medo. Eu amo jogar vôlei, estar em quadra ali exposta, e ter que enfrentar meus medos, e ficar feliz como criança quando faz ponto, sabe.

Quem te apoiou pós-polêmica do gesto político no vôlei?
Eu me senti totalmente abraçada. Teve muita gente que me apoiou. Recebi mensagens de pessoas que eu admiro pra caramba como Chico Buarque. Caetano Veloso repostou algo sobre o assunto nas redes me apoiando, o comentarista Walter Casagrande, as pessoas do grupo Esporte pela Democracia, como Joanna Maranhão.

Quais são os seus planos a curto e longo prazo no vôlei?
Meu plano é continuar jogando. Agora está um momento difícil, foi um ano sem circuito mundial 100%. Foi muito duro para todos. E está um pouco complicado fazer planos porque a gente não sabe nem se vai ter o circuito mundial no ano que vem. O circuito mundial se concentra muito na Europa, é um torneio atrás do outro e ainda não há a vacina contra o covid-19. E a longo prazo quero estar entre as melhores no vôlei de praia, participando de circuito mundial.

O que mais te decepcionou na carreira?
O que mais me decepciona foi o que eu vivi no ano passado que estava em segundo do ranking quando começou a classificação olímpica para Tóquio 2020 e perdi essa vaga. Foi muito duro. Eu estava no meu melhor momento e fiquei em terceiro, foi muito próximo.

Algo mais que gostaria de acrescentar?
Sim, espero muito que o Brasil evolua e que a gente volte a ter governantes sérios e comprometidos com a saúde, a educação, com o meio ambiente, que o esporte seja palco de liberdade, não de censura. Nós atletas também temos este poder de educar, de alertar. A nossa voz é muito potente, é importante a gente saber usá-la e ter liberdade para isso.

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