Cara nada pálida

Cara nada pálida

Sonia Racy

11 de abril de 2015 | 01h20

Foto: Bosco Nunes

Lá no fundão do Acre, ela é apenas Mariazinha. Mas, no São Paulo Fashion Week, que começa nesta segunda, a cacique – isso mesmo, a cacique – Maria Luiza Yawanawá vai fazer história. Ao lado de outros 23 índios da tribo indígena Mutum, que fica às margens do Rio Gregório, vai comandar a trilha sonora do desfile da Cavalera, de Alberto Hiar. O que quer fazer no evento? Levar “a mensagem da floresta a esse mundo civilizado que não sabe o que é paz”, diz a líder da tribo Yawanawá, de 47 anos. A seguir, trechos da conversa da cacique com a coluna.

O que significa para vocês participar do SPFW? Já conhecia o evento?
Sim, porque fico conectada com a internet. É a realização de um sonho de meu pai. Ele já tinha dito que iríamos participar de algo grande.

Que mensagem levará para a plateia branca?
O orgulho de ser o que somos: índios com cara pintada levando a mensagem da floresta para esse mundo civilizado que não sabe o que é paz.

O que significa vaidade para uma índia?
Ser bonita para nós é se pintar, é cantar, sentar com os homens e tomar o uni (chá que contém ayahuasca, usado nos rituais de purificação espiritual da tribo). Nossa vaidade é de espírito.

Como é ser uma cacique mulher? A tribo respeita?
Cacique já nasce líder. E a mulher – que tem mais tolerância e responsabilidade – já nasce com o espírito de liderança, mas nunca é apontada como tal, então foi preciso correr atrás. Não foi nada fácil. Como mulher, apresento fragilidades, mas desde pequena meu pai me preparou para ser o que sou hoje. Ao sentar com os homens, aprendi a dar minha opinião – e eles, a me ouvirem.

Sua tribo fica a oito horas da cidade mais próxima. Como é o contato de vocês com os homens brancos?
A força dos espíritos conduz nosso caminho até as pessoas de bom coração. Gostamos do contato, desde que não interfira em nossos costumes.

É primeira vez em SP? É comum vocês saírem da tribo?
(Saímos) Quando há algum trabalho com o governo, por exemplo. Mas a maioria fica na tribo, tem gente que jamais saiu de lá. Estamos felizes em fazer algo inédito, como essa viagem a SP, para levar nossa crença, alegria e purificação para esse povo. / SOFIA PATSCH

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