Cantoras falam sobre funk de MC Diguinho

Cantoras falam sobre funk de MC Diguinho

Sonia Racy

19 Janeiro 2018 | 00h50

Depois de ter ocupado o primeiro lugar na lista “Brazil Viral 50”, do Spotify, na terça-feira, a música Só Uma Surubinha de Leve foi removida da plataforma no dia seguinte. A letra, de MC Diguinho – cujos os versos sugerem embriagar uma mulher, violentá-la e abandoná-la na rua – foi criticada na internet e considerada uma apologia do estupro. A coluna ouviu três cantoras a respeito.

Na visão de Alice Caymmi, a música “por si só já é um gatilho”. “Confesso ter tido que retomar o rumo dos pensamentos depois de ouvir. Muito por saber que há solo fértil para o sucesso dessas palavras. Acredito também ser muita ingenuidade nossa achar que é a canção que incita à violência. Ela é proveniente da violência. Existe porque o estupro é endêmico. Precisamos combater não só a propagação das ideias mas a sua fonte”, afirmou. “O foco do momento é o MC, mas, assim como esse, outros aparecerão. E aí o que vamos fazer? Atacar um por um e só? É preciso não abrir mais nenhuma concessão sequer, é preciso diálogo”, concluiu.

Para Ana Cañas, a música faz a apologia “do estupro, do assédio, da misoginia, do sexismo e machismo”. “É uma colocação infeliz e equivocadíssima, que não deve ser confundida jamais com licença poética. No Brasil, a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. É muito triste que um homem, compositor e cantor, não consiga enxergar a triste realidade de mulheres violentadas, abusadas e estupradas no País”.

Vanessa da Mata compartilha da mesma opinião: “Quando andar pelas ruas e ouvir uma música dessas, não fique parado. Proteste, isso é propaganda que vai influenciar o menino perdido da escola e que vai bater de alguma forma no geral de uma sociedade que poderia estar em paz”.

O cantor se defendeu das críticas em dois momentos, pelo Instagram: “A mídia manipulou os pensamentos onde um negro canta funk é crime/estupro, agora beijo gay em novela das 9 é lindo (…) Parabéns Brasil! Minha música foi retirada das plataformas digitais”. Posteriormente, publicou nota afirmando que jamais iria denegrir “a honra e moral das mulheres” e que vai lançar a música em formato mais “light”. / MARILIA NEUSTEIN