Marina Person retoma em ‘California’ juventude dos anos 80

Marina Person retoma em ‘California’ juventude dos anos 80

Sonia Racy

03 de novembro de 2015 | 01h30

Foto: Denise Andrade

Foto: Denise Andrade

Marina Person está transbordando entusiasmo por voltar às suas raízes de cineasta. Depois de dirigir curtas e um documentário sobre seu pai, Luis Sérgio Person, agora prepara o lançamento de seu primeiro longa de ficção, Califórnia, em dezembro. O filme fala sobre a juventude e descobertas da adolescência nos anos 80. Abaixo os melhores trechos da entrevista.

Como surgiu a vontade de fazer esse filme? E por que falar sobre a adolescência?
A ideia de fazer esse filme apareceu em 2004. Eu queria falar sobre o que foi ser adolescente no meio dos anos 80, em um Brasil que estava se abrindo politicamente, depois de 20 anos de ditadura, como era iniciar a vida sexual em tempos de Aids e quais eram nossas influências. E além disso tudo, nessa época a cena musical era muito interessante, com um caldo muito saboroso. E queria falar um pouco sobre isso.

A trilha do filme chama a atenção pela qualidade. Foi difícil liberar as músicas?
Sim. Demorei um ano. Foi muito difícil. The Cure, David Bowie. Algumas eu não consegui – como The Smiths, que não tinha preço, Cindy Lauper, que não quis. Madonna era caro, Talking Heads também, The Clash era impossível. Tínhamos uma lista de 30 músicas e, no fim, fechamos em 15.

Você trabalhou com atores adolescentes. O que notou de diferente daquela geração para esta?
Algumas questões da adolescências são sempre iguais. A incerteza diante da vida, uma certa inquietação. Mas o que eles me falaram foi sobre o choque da comunicabilidade. Como isso mudou as relações. Eles usam e gostam do conforto da tecnologia, mas sentem uma espécie de nostalgia do que não viveram, como a expectativa de não saber se alguém tentou te ligar, por exemplo. Hoje em dia não tem mistério, você sabe e ponto. E acham um certo romantismo em coisas da época como fita cassete, carta, bilhete (risos). Hoje está tudo no telefone.

Você contou que filmou no colégio em que estudou e que ainda emprestou para a protagonista alguns objetos seus.
É. Tenho guardado tudo da época e emprestei várias coisas para Estela (personagem). Recortes do David Bowie, ingressos de shows, camisetas da Tikts… eu guardo muita coisa. Todas as cartas que eu recebi na vida estão guardadas. E o colégio da história tinha que o Santa Cruz. Onde eu estudei. Fiz o roteiro pensando nele.

Uma discussão muito atual é sobre diretoras mulheres, machismo no meio do cinema. Você sentiu algum tipo de resistência por ser mulher?
Olha a coincidência: no meu filme eu sou a diretora, a protagonista é uma mulher, assim como a diretora de fotografia, a produtora executiva, diretora de arte, maquiadora, figurista. As cabeças de equipe são mulheres. Não fiz de propósito, foi natural. Nunca senti esse machismo na pele. Mas, se olhar em volta, de fato tem alguma coisa estranha. Há muito mais homens dirigindo do que mulheres. Precisamos olhar para isso. Sobretudo a participação de mulheres em festivais de cinema. Mas, além da falta de oportunidade, um outro aspecto do machismo no cinema acontece no campo simbólico.

Como?
Devemos pensar como a mulher está sendo representada no cinema. Ela tem fala no filme? Conversa com outras mulheres sem ser sobre marido, namorado e filhos? As próprias atrizes de Hollywood estão se mobilizando por papéis mais interessantes e exigindo perguntas sobre os personagens nos tapetes vermelhos, não apenas sobre o que estão vestindo. Sou uma privilegiada. Mas e as outras meninas? Quero falar para elas que existe essa profissão para mulher.

E como foi atuar como protagonista em Voltando Pra Casa, que estreia em março?
Adorei. Quero outra experiência, mas bem preparada. Eu não tenho uma grande facilidade e controle das emoções, preciso de preparação./ MARILIA NEUSTEIN

Tendências: