‘Cada um tem de ser o responsável pela própria saúde’, avisa Drauzio

Sonia Racy

29 Agosto 2016 | 00h15

RAMON VASCONCELOS/GLOBO

RAMON VASCONCELOS/GLOBO

Prestes a inaugurar nova série
na TV – agora, sobre menopausa –, o médico
diz que o sistema de saúde do País
não é ruim, mas adverte: a população
está envelhecendo mal 

Vem aí um novo quadro do médico Drauzio Varella na tevê. A partir de setembro ele vai discutir, no Fantástico da Globo, os mitos e verdades sobre a menopausa. Velho conhecido dos telespectadores, ele adverte que os ciclos hormonais da mulher são muitas vezes negligenciados . “A tendência da sociedade é menosprezar os sintomas das mulheres. Não só da sociedade, dos próprios médicos”. Sobre a reposição hormonal – para muitos, um tema polêmico – , ele diz ainda existir muita ignorância dos médicos na questão. “Cada caso deve ser analisado individualmente. A reposição hormonal é o único tratamento para a menopausa e ele é ótimo. Você dá os hormônios e os sintomas passam em dias.”

Questionado pela repórter Sofia Patsch sobre por que o sistema de saúde brasileiro não funciona direito, Drauzio foi categórico: “Não é verdade que ele não funciona. Ele tem ilhas de excelência de padrão mundial. Por exemplo, o maior programa de transplante de órgãos gratuito do mundo”. Mas o grande desafio, avisa o médico, é que a população brasileira está envelhecendo… e muito mal. “Envelhece com obesidade, hipertensão arterial, diabetes e problemas ortopédicos causados pelo excesso de peso. É um problema sério: 52% dos brasileiros estão com excesso de peso.”

Ele também não concorda com o slogan do SUS segundo o qual a saúde é um bem de todos e um dever do Estado. “Eu detesto essa afirmação. Dever do Estado não, o cidadão também tem responsabilidade pela sua saúde. Então eu fumo, bebo, passo o dia sentado, não faço exercício nenhum e na hora em que eu fico doente é dever do Estado me tratar? Isso tira a responsabilidade e infantiliza o cidadão.” A seguir, os melhores momentos da entrevista.

O sistema de saúde brasileiro tem sido muito cobrado e criticado. Por que, a seu ver, ele não funciona?
Não é verdade que ele não funciona. Ele tem ilhas de excelência de padrão mundial. Por exemplo: temos o maior programa de transplante de órgãos gratuito do mundo. O maior programa de vacinações do mundo. Temos um programa de AIDS que é exemplar, apesar dos defeitos. Temos o SAMU, que atua bem e para todo mundo – pode ser para um bêbado caído na rua ou uma pessoa que mora num prédio de luxo ele vai funcionar igual. Temos programas de saúde da família que são muito interessantes — e que, como regra, funcionam bem.

E quais são os problemas?
Primeiro, nossa população está envelhecendo. A faixa da população que mais cresce é aquela acima dos 60 anos. E temos uma população que envelhece mal. Envelhece com obesidade, hipertensão arterial, diabetes e problemas ortopédicos causados por excesso de peso. É um desafio sério: 52% dos brasileiros com excesso de peso, mais da metade da população.

E a mudança desse cenário aconteceu em curto tempo.
Em pouquíssimos anos. Ninguém faz exercício, as pessoas comem muito mais do que precisam, comem coisas que engordam e ganham peso. Aí aparece todo tipo de complicação. E nosso trabalho preventivo é pífio, irrisório. Em face desse desafio, é praticamente nada.

Mas convivemos com frequentes imagens de filas, gente esperando horas pra ser atendida…
Sim você tem uma população que é mal atendida, e o que é que ela faz quando passa mal? Quando está com amidalite, com a garganta ardendo e com febre? Vai a um pronto-socorro. O certo seria ir ao médico especialista, que vai olhar a garganta e passar o antibiótico certo e mandar voltar em uma semana. Por isso é que vemos essas imagens dos prontos-socorros cheios de gente. Se você for lá, 70% – eu estou chutando um número, mas não estou tão errado –, 70% daquelas pessoas não tinham que estar ali. Tinham que ser atendidas, lógico, mas não naquele lugar. Então se cria um desafio enorme. A consequência é que o dinheiro não dá, você tem uma saúde subfinanciada.

O que se conclui disso? O governo precisa de mais dinheiro ou se trata só de má administração?
Ele precisa das duas coisas. Você não pode ter uma saúde financiada do jeito atual. Não há condição de se prestar uma assistência médica como a que temos aqui. Você tem, de um lado, uma saúde subfinanciada e de outro lado tem a corrupção na área da saúde. Eu li uma estatística, parece que 30% do dinheiro da saúde desaparece pelos ralos, dá pra imaginar? Não adianta dobrar o atual volume de recursos, eles vão sumir na mesma proporção. E agora temos um fenômeno recente, que a meu ver vai desestruturar completamente o sistema de saúde, que é a judicialização.

Que problema é esse?
É a questão do papel do SUS e dos planos de saúde. O que o SUS diz? Que saúde é um bem de todos e um dever do Estado. Eu detesto essa afirmação. “Dever do Estado”, não. O cidadão também tem responsabilidade pela sua saúde. Então eu fumo, bebo, passo o dia sentado, não faço exercício nenhum e na hora em que fico doente é dever do Estado me tratar? Ora, um slogan desse tipo infantiliza o cidadão. Cada um de nós tem que assumir a responsabilidade por sua própria saúde.

Mas parece-lhe justo o cidadão ter que recorrer a um sistema privado que tampouco funciona?
Não se trata de discutir se é justo ou injusto. Essa é a realidade. O Brasil tem 50 milhões de pessoas que dependem de planos de saúde e 150 milhões que dependem só do SUS. Você imaginou se, de um dia pro outro, a gente proibisse os planos de saúde? Iríamos jogar 50 milhões de pessoas a mais em cima do SUS. O que ia acontecer? Além do que, estaríamos jogando na rua 50 milhões das pessoas mais influentes do País. Isso acontecendo, na hora de ser atendido você acha que iam passar quem na frente, eu e você ou o pedreiro que saiu às 5 horas da manhã e pegou três lotações para chegar ao pronto socorro? Percebe? Se 50 milhões podem pagar o plano de saúde, ótimo. Queria que 100 milhões pagassem, sobraria mais para os que não têm como pagar.

O senhor está prestes a estrear um quadro no Fantástico sobre a menopausa, um assunto de interesse geral mas muito pouco explorado na mídia. Quais são os mitos e as verdades sobre essa fase da mulher?
A tendência da sociedade – e de muitos médicos –é menosprezar os sintomas das mulheres com relação aos ciclos hormonais. Então a menina já com 16, 17 anos começa a ter dor forte na fase menstrual, e aí dizem “Ah, não é nada, isso é assim mesmo”. E aí aparece a avó dizendo: “Eu passei por isso…” Muitas vezes o sangramento é um problema sério. Vejo casos de endometriose que provocam dores horríveis, as mulheres sofrem anos sem que alguém pense em investigar de onde vem aquela dor, que é considerada uma “coisa de mulher”. E a menopausa é uma dessas fases. A mulher começa a sentir calores, irritação, começa a perder a paciência com os que estão perto, de repente começa a chorar sem nenhum motivo… e as pessoas repetem que “isso é assim mesmo, é a menopausa”. Como se essa fase fosse uma via crúcis que ela tivesse que passar sem nenhuma ajuda.

Acredita que a menopausa tem que ser entendida como uma espécie de doença, então?
Não, não é uma doença, porque a única forma de uma mulher não passar pela menopausa é morrendo antes de chegar a ela. Mas é uma fase em que surgem sintomas e problemas que precisam ser estudados e avaliados. Por exemplo: a mulher pode não ter sintoma nenhum e ter um quadro grave de osteoporose — essa perda da massa óssea costuma ocorrer nos primeiros cinco anos da menopausa. Outro grande problema desse período é que a deficiência hormonal provoca alterações tróficas na vagina. E isso, além de atrapalhar a vida sexual, predispõe a infecções várias. Enfim, a complexidade do período é grande.

A partir de que idade a mulher deve procurar ajuda de um médico para amenizar os sintomas?
Normalmente as mulheres costumam ir ao ginecologista uma vez por ano. Mesmo as mais pobres, que dependem das unidades básicas de saúde, fazem o Papanicolaou periodicamente. Mas a hora ideal é quando surgem os primeiros sintomas. Que sintomas são esses? Irregularidade menstrual e, o mais importante, os calores. Quando começam esses calores é porque já existe deficiência hormonal. Mas há mulheres que passam batidas por essa fase.

Qual é a proporção?
De cada quatro mulheres, uma não sente praticamente nada, duas vão ter sintomas, mas não muito exuberantes e uma vai ter sintomas mais intensos.

A reposição hormonal ainda é o melhor tratamento ou já existem outras soluções? Muitos dizem o uso de hormônios pode causar câncer de mama, trombose. Até que ponto isso é verdade?
Cada caso deve ser analisado individualmente. A reposição hormonal é um tratamento ótimo, mas não é pra todo mundo. Por exemplo, uma mulher que teve câncer de mama não pode tomar hormônio de jeito nenhum. Uma mulher que já enfartou ou que tem casos de parentes que enfartaram jovens na família também não pode. Por quê? Porque quando você faz o tratamento hormonal aumenta um pouquinho o risco de câncer de mama e de ataques cardíacos.

Quanto aumenta esse risco?
Num estudo que mostrou o maior índice de elevação, chegamos a 26%. Quando você fala em 26%, quer dizer que de cada quatro, uma vai ter câncer de mama? Não, esse número é o que chamamos de risco relativo. Qual é o risco de uma mulher ter câncer de mama na vida, sem nenhum hormônio? É de 10%. Aumentar 26% é 26% de 10. Portanto, o risco de 10% passa a ser de 12,6%. Percebe? É um aumento muito pequeno, na verdade.

Por que esses números assustam tanto as mulheres?
Quando você coloca esses números assim assustam, e não só as mulheres, assustam muitos médicos que não têm uma visão crítica para interpretar adequadamente aqueles estudos.

A menopausa passa?
Passa. Minha especialidade é tratar mulheres com câncer de mama e elas entram na menopausa e você não pode dar hormônio. Lido com esse problema de perto, vejo o que elas enfrentam. Então alguma vem me perguntar “quando vai passar isso?” e eu digo: “olha, no primeiro ano é pior, no segundo começa a melhorar, depois vai melhorando”. Coisa mais vaga do que uma resposta dessas, impossível. É a mesma coisa que dizer: “Se Deus quiser um dia acaba…” É ruim. Ser mulher é ruim. Pode escrever isso. Agora, dentro do que é ruim, podemos melhorar.

Outro assunto que assusta as mulheres é a pílula anticoncepcional, tida por muitas como um veneno para a saúde. A seu ver, quais os prós e contras da pílula?
Tem mulheres que não são candidatas a tomar a pílula, têm que usar métodos mecânicos mesmo, DIU – enfim, a pílula aumenta um pouco o risco de trombose, principalmente para as que têm deficiência de coagulação, o chamado fator V. Outro risco importante é a pílula para fumante. Sou totalmente contra. A menina que fuma tem que colocar DIU, não tem que tomar pílula. “Ah, mas vou colocar DIU com 15 anos?” Qual é o problema? Eu já vi casos de trombose na carreira que ocorrem porque a pessoa é fumante e toma pílula. Não é todo dia, mas tem cabimento acontecer?

Muitas mulheres tomam testosterona para aumentar a libido. Isso realmente funciona?
Funciona sim. Tenho uma paciente que teve um câncer de mama aos 50 anos e perdeu completamente a libido. Dei um creme vaginal com testosterona e ela veio me falar que parou de usá-lo porque começou a olhar para os homens como nós, homens, olhamos para as mulheres.