‘Caco Antibes não teria como existir hoje em dia’, diz Falabella sobre adaptação do humor

‘Caco Antibes não teria como existir hoje em dia’, diz Falabella sobre adaptação do humor

Sonia Racy

08 de fevereiro de 2021 | 00h30

 

Miguel Falabella. Foto: Silvana Garzaro

Miguel Falabella não tem tempo a perder. Nem para se lamentar. Um dos mais prolíficos roteiristas e dramaturgos da televisão saiu da Globo – onde passou 38 anos de sua carreira – no fim do ano passado. Incluído em uma leva que acabou com grande parte dos maiores contratos da emissora, mudou-se do Rio para São Paulo e já engatou projetos em diferentes frentes: vai escrever e produzir para o streaming Disney Plus e também assinou como curador criativo da gigante farmacêutica Hypera Pharma. “Sou uma pessoa que olha a vida com muito bom humor, mesmo nos piores momentos. Acho que foi ótimo, a transição foi muito suave”. Professor há muitos anos, o ator acha que falta base educacional e leitura à nova geração e enxerga como “passageiro” o boom das celebridades de internet. “Vai passar porque vai chegar um momento em que as pessoas vão ver que precisam investir em educação, numa vida com mais consistência intelectual”, diz à repórter Marcela Paes. Leia abaixo a entrevista.

Como você vem passando a quarentena?
No começo foi muito complicado porque me isolei em março. Vai fazer quase um ano que eu estou dentro de casa, que loucura! Me isolei em março e em maio fui demitido, então foi um baque. No começo fiquei meio atarantado dentro de casa, mas depois não parei mais de escrever.

Como foi pegar covid?
Graças a Deus o meu foi quase assintomático. Quer dizer, só estive dois dias mal. Desconfiei que era covid quando me levantei para ir ao banheiro e parecia que eu tinha escalado o Everest. Mas depois de dois dias eu estava normal. Fiquei na cama vendo série.

Muitos autores dizem que o isolamento influi na criatividade. Foi assim para você?
Pela primeira vez eu tive tempo. Eu fiz uma devassa no meu computador e achei coisas maravilhosas que eu tinha largado pra lá, não tinha dado continuidade. Esse tempo de monge, trancado em casa comigo mesmo e com a criação, foi muito interessante.

Você tem feito no Instagram o Bom Dia com Poesia, em que declama trechos de poetas brasileiros. Acha que a plataforma é uma boa forma de criar conteúdo?
Eu não costumo fazer lives, essas coisas que as pessoas estão fazendo, não sou dos mais atuantes. Agora eu que virei curador criativo da Hypera Pharma estou criando mais conteúdos para as redes sociais. São dois projetos: um desenhos para adultos, o Família Fármaco, que é bem engraçado e tem um elenco maravilhoso só de gente do teatro que trabalha comigo a vida inteira como a Marisa Orth, o Ney Latorraca, a Stela Miranda… E o Saber Não Ocupa Espaço, que é sobre história, costumes. O primeiro episódio é sobre a Monalisa.

Você também fechou parceria de série com a Disney Plus. Criar para o streaming é muito diferente de fazer conteúdo para TV aberta?
Cada companhia tem o seu perfil e faz parte da profissão cada vez mais se adequar, mas eu não abro mão daquilo que eu acredito. No fim das contas acho que no streaming você tem mais liberdade.

Como foi quando você saiu da Globo? Já esperava?
Claro. Todos nós já sabíamos que os maiores contratos seriam os primeiros. Também né, meu amor, a única constância do universo é a mudança, se você não entende isso você está errado. Estamos sempre em mudança e temos que nos adaptar e aprender. Não foi nenhuma surpresa pra mim, não foi ‘oh meu Deus’. Foram 38 anos na Globo. Foi maravilhoso, não posso me queixar, tive um casamento lindo lá dentro, fui muito bem tratado a vida inteira.

Teve algum receio com o andamento da sua carreira?
No começo eu pensei que podia dar uma parada, ficar só dando as aulas, que é uma coisa que eu adoro fazer, mas ainda tem muita coisa que eu quero escrever. E eu sou uma pessoa que olha a vida com muito bom humor, então, mesmo nos piores momentos, eu falei ‘bom, já que estamos aqui embaixo vamos ver se tem água lá no fundo do poço (risos). Acho que a transição foi muito suave. E foi bom também porque eu dei uma reviravolta na minha vida. Fechei meu apartamento no Rio e vim de vez pra São Paulo. E vamos embora, vamos em frente, entendeu?

Não demoraram para aparecer novos trabalhos.
Na verdade nunca imaginei que ficaria desempregado, até porque, sem falsa modéstia, tenho muita capacidade criativa, sou um criador. Vendi imediatamente O Som e a Sílaba para Disney, por exemplo.

Hoje se fala muito em cultura do cancelamento e a internet também se tornou um tribunal em que se julga o tempo todo a atitude de artistas. Como avalia isso?
Meu amor, há um velho ditado que diz: se você me dá um presente e eu não quero o presente, de quem é o presente? É seu. Fica com você. Não aceito ódio, não aceito esse tipo de coisa. A minha carreira nunca foi isso. Eu não sou pastor, não quero ter seguidor, não quero ter quantidade. Eu quero ter qualidade. Até porque quantidade vai embora, qualidade fica. Eu vou morrer e as minhas coisas vão ficar. E quando você for bem velhinha você vai falar, ‘Falabella tinha razão, olha uma peça dele sendo remontada’.

Isso criou limites para o processo de criação?
Eu acho que tudo mudou e sobre esse aspecto acho que tem que mudar mesmo. O Caco Antibes não teria como hoje existir hoje em dia. Ele é representativo de uma época. Idiota seria eu se quisesse repetir o Caco Antibes. É claro que como escritor eu tenho que ver o que está à minha volta. Eu tenho uma personagem no desenho animado que anda o tempo inteiro com um pau de selfie filmando as pessoas, esperando que falem algo. Agora, o humor também vem da informação, também vem da elaboração das ideias. Até para que você entenda o humor você precisa ler A Moreninha e eu acho que ninguém mais lê A Moreninha.

E o que acha dessa era de celebridades da internet?
Isso é uma onda, isso vai passar. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Essa loucura narcísica não leva a lugar nenhum. Quanto tempo você pode ser um influencer se você não ganhar nada? Todo mundo hoje em dia é influencer, todo mundo é ator. A vida vai separando. Eu não sou isso. Esse delírio narcísico passa. Vai passar porque vai chegar um momento em que as pessoas vão ver que precisam investir em educação, numa vida com mais consistência intelectual até para que nós possamos viver melhor. Sem educação não há respeito. Não tem civilização, a gente dá na cara um do outro.

O meio artístico vem reclamando de descaso com a cultura e com a educação por parte do governo.
Eu acho que de uns de 50 anos pra cá a educação foi largada. Não sei se foi um projeto maquiavélico de algum inimigo do James Bond, mas a verdade é que eu estudei em colégio público e tive uma formação inacreditável. Você não precisava ter grana para o seu filho conseguir estudar. Era mais justo. Hoje em dia se você não tiver dinheiro seu filho não aprende nada.

Mas em relação ao momento atual, como por exemplo a atuação da Secretaria de Cultura do governo Bolsonaro.
Agora acabou tudo mesmo: cultura, educação… Agora é Damares Alves (Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) discursando. Enfim…

Você dá aulas. O que sente da nova geração?
Você tem que se reestruturar para ensinar a nova geração de que é preciso ler, de que antes deles veio alguém. Tento ensinar que se você conhecer o trabalho de quem veio antes, seu próprio trabalho será melhor, porque terá base, uma estrutura. Esse imediatismo que a internet trouxe e essa geração vive vai implodir, não tenho dúvida.

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