BRASIL, COME HOME

BRASIL, COME HOME

Sonia Racy

19 de setembro de 2015 | 01h31

Foto: Marina Malheiros

Há 22 anos atuando na política externa americana, dois deles como conselheiro político em Brasília, Ricardo Zuniga assumiu a cadeira de cônsul dos EUA em São Paulo com três prioridades na agenda. Uma, lutar para simplificar a concessão de vistos. Outra, aumentar o intercâmbio cultural. Terceira, ampliar o comércio. Ele considera “underperforming”, ou seja, muito abaixo do ideal, o atual volume de trocas, em torno dos US$ 100 bilhões. Habilidade para a missão não lhe falta. Entre outras coisas, ele ajudou a negociar, nos últimos anos, a reaproximação de Cuba com os Estados Unidos.

Zuniga se diz otimista ao perceber “a visão global de muitas empresas brasileiras”, que mudaram o enfoque da economia interna para um modelo exportador – mas sem esquecer do… custo Brasil. E a questão dos vistos, ressalta, não é só de imigração, mas de segurança. Nesta entrevista à coluna, ele afirma: o Congresso de lá “tem papel decisivo no assunto, e não gosta da ideia de se baixar a guarda” quanto à segurança nacional.

Quais considera os maiores desafios de sua missão?
O importante é avançar a relação, concretizar o que sinalizaram os presidentes Obama e Dilma Rousseff em junho. No consulado, vejo três temas importantes. O processo dos vistos precisa tornar-se rápido e flexível. Temos de elevar o intercâmbio cultural – Brasil e EUA são duas potências no soft power.

E a terceira missão?
É o comércio. Que acho mais importante que nunca, pois queremos incrementar. O potencial é bem mais elevado que os atuais UD$ 100 bilhões. O papel do Brasil na economia dos EUA vem crescendo de forma notável, pelos investimentos de empresas brasileiras. E elas têm uma visão global, com um enfoque que já está passando da economia interna para outra, bem diferente, de país exportador.

Acha que o Brasil é um país fechado?
Vejo que elementos do modelo industrial brasileiro estão mudando para um outro, bem mais aberto, com multinaci0nais de presença global. Para tanto, a prioridade tem de ser na produtividade. E, claro, com isso o modelo tem de ter mais fluidez, para dentro e para fora.

Empresários brasileiros falam de dificuldades, de “barreiras invisíveis” para se entrar lá. Isso pode ser discutido também?
O setor privado de ambos os lados pode acionar os governos para eliminar qualquer barreira técnica que exista. O ponto essencial é que a aposta dos EUA no mercado do Brasil é fundamental. Estamos apostando no Brasil. É isso. Fala-se muito do custo Brasil, mas se fala disso também em qualquer outro país. Precisamos buscar formas de reduzir esse custo, o que está relacionado diretamente com produtividade. O país tem de ganhar é na produtividade, para ser exportador e ter uma economia balanceada. E o custo do trabalho é diferente em diferentes áreas, sabemos.

Que tipo de cenário imagina para o futuro dessa relação?
Para nós, o alvo é duplicar o intercâmbio entre os dois países. Queremos um mercado ativo, forte, para o qual os EUA possam vender, e serem igualmente um bom mercado. O caso da Embraer é marcante. A maior parte de suas vendas é no mercado americano e a relação é ótima, eles têm uma parceria com a Boeing. A GM vai fazer investimentos fortes aqui. A GE mantém centro de pesquisa. Tudo isso é um ciclo longo, mas o relacionamento é que importa.

E os vistos, não havia um plano de acabar com eles?
Isso é um assunto no longo prazo. Temos uma regulamentação e uma lei que estabelece as condições para o visa waiver, o programa de isenção.

Quais países já o têm?
A maiorias dos europeus, não todos. A Argentina tinha e perdeu. O caso é que nosso Congresso é cético quanto ao programa de isenção, seja com que país for, porque implica em baixar a guarda quanto à movimentação de pessoas. Não é só questão de imigração, mas de segurança, de se ter certeza de quem é que está entrando no país. A lei requer um forte sistema de checagem de nomes. Nos EUA é preciso ter certeza se uma pessoa pode representar algum perigo. Isso foi negociado por muitos anos com a União Europeia, por exemplo. Mas há um dado geral: temos uma média de recusa de vistos em torno dos 3%.

Qual a média do Brasil? Há outros com média alta? Como o Oriente Médio?
A média do Brasil é bastante baixa. Quanto à de outros países, isso muda conforme o período do ano. No Oriente Médio não é tanto, porque só um certo setor da população é que pede. Aqui, estamos trabalhando isso de forma séria. É importante o lado brasileiro entender os requisitos do Congresso. Veja, são uns 3.500 vistos emitidos por dia. No Brasil, hoje, é menos de uma semana para agendar, outros dois ou três dias para finalizar. No máximo dez dias. Já foi bem pior que isso.