Bolsonaro ‘é um meme ambulante’, diz cineasta ‘de direita’

Bolsonaro ‘é um meme ambulante’, diz cineasta ‘de direita’

Sonia Racy

19 de novembro de 2019 | 00h30

CINEASTA JOSIAS TEÓFILO. FOTO: PAVEL TAVARES

Josias Teófilo, autor de documentário sobre Olavo de Carvalho,
finaliza seu segundo filme, Nem Tudo se Desfaz,
que aborda a ‘guinada conservadora’ no País. Para ele, ‘o humor 
foi decisivo’ para a vitória de Bolsonaro na eleição de 2018

 

Autor do documentário sobre o “guru” de Bolsonaro, Olavo de Carvalho – O Jardim das Aflições –, o cineasta Josias Teófilo, 32 anos, está finalizando o segundo filme. Nem Tudo se Desfaz, narrado por Carlos Vereza, retrata a “guinada conservadora” no Brasil, desde os protestos de 2013 até a vitória bolsonarista. A estreia será em março – mas, antes, o cineasta exibirá o filme ao seu primeiro espectador, Olavo, na casa dele, na Virgínia (EUA), em janeiro. Eles se falam por mensagem inbox do Facebook. O professor não usa WhatsApp.

Teófilo também foi a Washington entrevistar Steve Bannon, ex-estrategista de Trump. Já o episódio da facada será contado por Eduardo Bolsonaro. “Não quis entrevistar o presidente para não ficar um filme institucional. Mas quero que ele vá na estreia.”

O que esperar de Nem Tudo se Desfaz?
Destaco o nascimento da nova direita, que ainda não foi retratado no cinema brasileiro. Falo da facada. O filme da Petra Costa (Democracia em Vertigem) não traz isso. Quer dizer, Bolsonaro ganhou, sem isso, no filme dela. Também tem entrevistas com criadores de memes para Bolsonaro e Olavo. O humor foi decisivo para a vitória do presidente. Ele quebrou o gelo da política. A esquerda não sabe fazer meme. A direita domina.

Qual a sua relação com o presidente Bolsonaro e sua família?
Conheci Bolsonaro (pai) em 2015, na Câmara, em Brasília. Ele me mandou cortar o cabelo, o que eu só fiz em 2018. Ele estava certo, fiquei melhor (risos). Naquela época, ele estava com Marco Feliciano. Tentou ser presidente em 2014, mas não tinha se destacado tanto. Bolsonaro fala coisas de verdade, mesmo que sem propósito. Ele é um meme ambulante. O presidente e os filhos me seguem no Twitter (Teófilo tem 50,9 mil seguidores).

Os memes, então, cumprem um papel para Bolsonaro?
Isso é muito importante na comunicação. Um meme pode ser repetido mil vezes sem enjoar. E Bolsonaro faz isso todo dia. Isso ‘pega’ na população. É impressionante essa capacidade. Por isso ele é ‘o mito’. O que ele fala, chama atenção e o meme surge com naturalidade. Ele e o Olavo são muito parecidos, são pessoas muito sinceras e combativas. E são dois grandes produtores de memes.

Hoje como é sua relação com Olavo Carvalho?
Eu o conheci em 2015, via Daniela Gouveia, uma amiga pernambucana. Foi em sua casa na Virgínia, nos EUA. Fiz o roteiro e gravamos o documentário sobre ele. Olavo é uma pessoa encantadora. A gente se divertiu muito. Ele contava piada, ficava até de madrugada batendo papo. Tem vídeo do Olavo de 2008 já falando em Bolsonaro. Hoje, falo com ele (Olavo) pelo inbox do Facebook. Ele não usa WhatsApp. Jamais! Às vezes ele me liga do celular da Roxane (a esposa). Ele mesmo posta as coisas no Face e aí vai automaticamente para as outras redes. Olavo não ia se dar bem no Twitter porque limita os caracteres e ele gosta de escrever.

Por que não entrevistou o presidente para o filme?
Eu não quis entrevistar Bolsonaro para não ficar um filme institucional, governista. Nem ele e nem figuras do governo. Mas quero que ele vá na estreia. Ele e os filhos. Eduardo fala muito, no filme, sobre o episódio da facada (Bolsonaro levou uma facada em um ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, em setembro de 2018). Não entrevistei o Carlos… Ele é muito fechado. Da esquerda, (o filme) tem depoimentos de Idelbar Avelar (professor e crítico cultural) e João Cezar de Castro Rocha (professor da UERJ). Tem os jornalistas Alexandre Garcia e Augusto Nunes também, que gravamos uns três dias antes da briga dele com o Glenn (Greenwald, na Jovem Pan).

Você se autointitula um ‘direitoso’ (de direita) e diz que o cinema no País é de esquerda. Sofre preconceito do setor?
No Recife é assustadora a rejeição (Teófilo é pernambucano, mas mora em SP). Aqui em SP, me tratam bem. Mas não sou chamado para nenhum festival no Brasil. O Wagner (Moura) disse, em Lisboa, que Marighella foi censurado aqui. Não foi. Eles é que não entregaram a documentação em tempo (à Ancine). Censura foi o que eu passei no Recife, no Cine PE de 2017 e na UFPE. Teve espectador do meu filme que apanhou e foi sangrando para o hospital.

Seu filme foi autorizado pela Ancine a captar R$ 530 mil. E Bolsonaro falou em acabar com a Ancine, com a Lei Rouanet, mas recuou.
Captamos até agora 79 mil. É difícil captar, as pessoas estão inseguras para investir. E já temos R$ 40 mil via crowdfunding. Sobre o governo, tenho dialogado com algumas pessoas. Ainda bem que desistiram. Sem isso (incentivo) não existe cinema no Brasil. E, aos poucos, eu espero ajudar a mudar essa visão na direita. Bom lembrar também que não foi o atual governo que usou o cinema como instrumento de propaganda política. A instrumentalização do cinema brasileiro já existia na Embrafilme. Parte do governo (Bolsonaro) quer acabar com Ancine, com Rouanet, mas outra parte, não. O Ricardo Rihan (secretário do Audiovisual), por exemplo, apoia a permanência. Quem é próximo (do setor da cultura) apoia.

Com a ascensão da direita, acha que tem mais espaço?
Durante muito tempo, a esquerda dominou as ruas. A nova direita começou a nascer aqui no Brasil com as manifestações ocorridas em 2013. Bannon fala sobre isso no filme. Ali começaram as pautas conservadoras, o nacionalismo. Foi uma revolução. E derrubamos o petismo. Tem uma massa aí sedenta por produtos culturais da direita, que não teve contato com cinema brasileiro por ele ter uma tendência de esquerda. Para este filme, em dois dias, captamos R$ 20 mil via crowdfunding. Mas tudo na direita ainda é precário.

Como avalia a disseminação de fake news na campanha de 2018 e qual o peso que elas terão na próxima?
Acho que fake news é uma coisa que sempre aconteceu. Lembre do que se dizia que se o PT perdesse a eleição acabaria o Bolsa Família. Mas nenhuma eleição jamais foi definida por fake news. As notícias falsas têm circulação restrita. A verdade sempre acaba prevalecendo. Eu não acho que teve grande peso em 2018 e nem terá de novo. Nunca vi ninguém decidir o voto por causa de notícia falsa. / CECÍLIA RAMOS

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