Barril a US$ 100 ‘é coisa do passado’, diz presidente da Petrobrás

Barril a US$ 100 ‘é coisa do passado’, diz presidente da Petrobrás

Sonia Racy

28 de outubro de 2019 | 00h50

ROBERTO CASTELLO BRANCO. FOTO: PETROBRÁS


Às vésperas de um leilão de quatro refinarias,
Roberto Castello Branco se diz otimista,
critica o ‘desenvolvimentismo’ do passado
e adverte: 
a estatal tem que se preparar
para viver com o barril de petróleo a US$ 50

 

Quando fala sobre as oito refinarias da Petrobrás a serem privatizadas – os interessados em quatro delas têm até dia 8 para apresentar proposta – Roberto Castello Branco não esconde sua satisfação. “Nossa expectativa é muito boa”, avisa, lembrando que, desde que ocupou cadeira no conselho de administração da estatal, entre 2015 e 2016, já tinha em mente o desenho de um caminho para tirá-la do fundo do poço: concentrar o foco em seu negócio básico.

Essas vendas também ajudam no funcionamento do livre mercado. Além dos recursos que vão entrar nos cofres da empresa, metade da capacidade do refino no Brasil passará para as mãos de empresas privadas. O que isso quer dizer? Cria-se um limitador para a tentativa de qualquer governante do País se sentir à vontade para intervir nos preços de combustíveis. Na realidade, a Lei do Petróleo, de 2002, já assegura liberdade de preços. Mas este novo passo ajudará no respeito do controlador da Petrobrás a essa antiga lei – pois ele terá também que negociar imposições com a iniciativa privada.

Economista formado pela FGV, ultraliberal, com pós-graduação na Universidade de Chicago, Castello Branco assumiu o comando da empresa no início do governo Bolsonaro, prometendo dar-lhe uma cara nova, depois de uma fase de escândalos e corrupção que custou bilhões aos cofres públicos.

A dívida da companhia, no fim do primeiro semestre de 2019, bateu na casa dos R$ 372 bilhões e foi comemorada pelo mercado. Ela esteve à beira do meio trilhão de reais no último ano do governo Dilma “Agora queremos o grau de investimento de volta”, avisa ele. O executivo é crítico do que chama de “desenvolvimentismo do BNDES”, que teria gerado um “excesso de oferta de fretes rodoviários”, principal fator da greve dos caminhoneiros em maio do ano passado, levando o governo de Michel Temer a intervir no preço do diesel. Algo impensável para Castello Branco. “A salvação para o intervencionismo estatal neste setor é privatizar as refinarias”, resume. A seguir, os melhores trechos da entrevista, concedida à coluna via Skype, diretamente da sede da Petrobrás, no Rio.

O que esperar da próxima rodada do pré-sal e que impacto ela terá nas contas públicas?
O impacto vai ser direto. O governo deve receber cerca de R$ 106 bilhões. Deste total, distribuirá parte para Estados e municípios (algo como R$ 34,6 bilhões) e o Tesouro ficará com o restante. Esse restante tem que ajudar a tapar o buraco das contas públicas. A parte da Petrobrás, muito provavelmente, será usada para investimentos na empresa. Estados e municípios estão em situação financeira muito difícil, com raras exceções. Essa distribuição, a ser feita pelo governo federal, é importantíssima.

Neste leilão a estatal vai receber alguma indenização, já que em 2010, o barril de petróleo estava a US$ 120?
Existem três variáveis relevantes no leilão. A primeira é o bônus de subscrição, que é fixo: qualquer empresa que pretenda entrar na licitação já tem esse custo como dado. A segunda é o porcentual de óleo ofertado ao governo pelas concorrentes e a terceira é justamente o ressarcimento à Petrobrás que está na conta dos investimentos que as empresas precisarão fazer. Na gestão anterior da Petrobrás, havia a intenção de vender as refinarias do Nordeste (que formariam um bloco) e criar um outro bloco na região Sul, para fomentar a competitividade no setor.

O sr. resolveu criar competição em todas as regiões. Por quê?
Achamos mais viável colocar primeiro, à venda, oito refinarias distribuídas pelo Norte, Nordeste, Sudeste e Sul. E, no próximo dia 8 de novembro vamos receber as propostas não vinculantes para quatro delas – Mataripe, na Bahia; Abreu e Lima, em Pernambuco; Alberto Pasqualini, no Rio Grande do Sul; e a Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná.

‘AGORA QUEREMOS 
O GRAU DE INVESTIMENTO
DE VOLTA’

O interesse tem sido grande?
Tem, sim. Estamos muito felizes, e posso dizer que nossa expectativa é muito boa.
Mesmo com o fantasma da intervenção estatal sobre o preço dos combustíveis?
A percepção de risco da intervenção do Estado na precificação de combustíveis está ainda razoavelmente presente. Embora os preços sejam livres por lei desde 2002 – é uma cláusula da Lei do Petróleo –, assistimos a intervenções no decorrer dos últimos governos. Só mais recentemente é que a lei voltou a se impor, ainda que, na época da crise dos caminhoneiros (maio de 2018), tenha havido novamente uma intervenção. Este ano, o governo não interveio. Nesse nosso modelo, metade da capacidade das refinarias do Brasil passará às mãos de empresas privadas. Ou seja, se o governo resolver intervir na determinação de preços de combustíveis, os refinadores poderão reagir, o mercado poderá reagir, produzir menos, cortar mais. Na nossa visão, para evitar a interferência do governo a melhor solução é aumentar, significativamente, a participação do setor privado.

O sr. disse, recentemente, que o consumo de petróleo está crescendo lentamente no mundo inteiro e pode até estagnar. Qual o papel do Brasil nesse cenário tão pouco animador?
O consumo de petróleo está crescendo lentamente no mundo – está abaixo de 2%. Aqui mesmo, no Brasil, nós vemos plantas industriais procurando opções, como o gás natural, para substituir o óleo combustível. Então, a perspectiva de crescimento da demanda pelo petróleo, a longo prazo, é pobre. E o que é que estamos fazendo? O Brasil tem um ativo de classe mundial, que é o pré-sal. Então, vamos investir maciçamente nele, criar condições para aproveitar essa oportunidade. Porque petróleo no fundo do mar não serve nada, e a transformação desse recurso em riqueza só se dá por meio de investimento em exploração e desenvolvimento de projetos e da produção. Isso transformará o pré-sal em riqueza, beneficiando a sociedade brasileira.

‘NESSE NOSSO MODELO,
METADE DAS REFINARIAS 
VAI PARA O SETOR PRIVADO’

Como o sr. vê, hoje, a situação do preço do barril do petróleo?
Olha, se você pegar uma série histórica longa – desde 1900 até agora, por exemplo –, verá que o “normal” do preço do petróleo é exatamente a volatilidade. Portanto, é preciso distinguir duas coisas no comportamento do preço: tendências de longo prazo e ciclos de curto prazo. Se pegar de 1900 até 2014, os preços reais do petróleo sempre aumentaram. Desfazendo aquela tese do (economista argentino) Raúl Prebisch, de que o preço das commodities é sempre decrescente, o que justificaria a substituição de importações a todo custo na América Latina. Hoje, se você pedir a especialistas uma projeção da tendência de preços reais do petróleo, verá que eles não esperam que isso se repita. A era do petróleo a US$ 100 o barril não vai voltar. Hoje temos de nos preparar para viver com o petróleo a preço baixo.

O que seria um “preço baixo” para o senhor?
Aqui na Petrobrás estamos nos preparando para viver com o barril a US$ 50, namorando um patamar de US$ 60. Então, o que é que temos de fazer? Reduzir custos e aumentar eficiência. E temos feito vários esforços nessa direção, porque sabemos que a maturação não acontece no curto prazo. O que determina os preços é, principalmente, o movimento da demanda global, como acontece com outras commodities. A mesma metodologia que se usa para analisar, por exemplo, os preços do cobre ou da soja é usada para o petróleo. Se a economia mundial está crescendo muito, todos eles vão na mesma direção, no sentido de alta; se a economia mundial está crescendo menos, como agora, todos experimentam movimento de baixa. Houve, recentemente, um bombardeio aos campos de petróleo da Arábia Saudita. Em uma noite, o preço do petróleo foi a US$ 71. Depois de muita volatilidade, ele retornou aos US$ 60. Por quê? Porque a demanda não está tão alta, não está forte.

Assim que assumiu a empresa, no começo do governo Bolsonaro, o que o sr. sentiu?
Fui conselheiro da Petrobrás entre 2015 e 2016 e, naquela época, foi preciso lidar muito com os efeitos da Lava Jato – aliás, lidamos com isso até hoje. Mas a companhia passava por uma séria crise financeira, com os limites de crédito cortados, tendo bonds emitidos pela companhia com taxas de 15% ao ano. Então, na época, eu pude perceber muitas coisas: a necessidade de vender ativos, de reduzir custos, aumentar a eficiência. De certa forma, quando assumi a presidência – na verdade, quando fui indicado, em novembro de 2018 –, já tinha um plano em mente.

A Petrobrás vai investir em energias renováveis, como a eólica ou a solar?
Não temos as competências necessárias para obter sucesso nessas áreas. Estamos fazendo pesquisas, é claro. Mas não quero investir nisso agora, quero reforçar nossos pontos fortes. Pensando no meio ambiente, antes de investir em energia renovável, estamos usando tecnologia para reduzir a emissão de gás de efeito estufa, por exemplo. Isso é muito importante. E estamos aumentando a produção de gás natural, que também é um combustível limpo. Outro exemplo: estamos produzindo, e já começamos até a exportar, diesel com baixo teor de enxofre, que é obrigatório para a navegação marítima de longo curso, de acordo com as novas regras da IMO (International Maritime Organization). Trata-se de um movimento organizado dentro da Petrobrás. É nesse tipo de movimento que eu acredito.

 

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: