Axé modo acústico

Axé modo acústico

Sonia Racy

11 Julho 2015 | 01h14

Daniela Mercury (Foto: Divulgação)

Daniela Mercury se prepara para algo inédito: fazer um show de voz e violão. Festejada como uma das rainhas do axé, a cantora se empenha agora em adaptar seu jeito rítmico ao tom intimista do novo espetáculo – que começa dia 31, no Teatro J. Safra, sua temporada paulista. Sobre esse novo projeto, a baiana falou com a coluna por telefone. Os principais trechos da entrevista:

Como surgiu a ideia de fazer um show de voz e violão?

Na verdade, o meu grande desafio é rítmico. Na minha opinião, isso é uma busca de síntese, trata-se de desnudar a canção sem que ela perca a sua essência. E minha essência é o ritmo. Sou do suingue. Por isso, tem sido bastante desafiador. Veja: os sambas do Olodum nunca foram feitos com voz e violão. Então, estamos encontrando caminhos para que tenha um sabor diferente. Mas para mim é difícil ficar quieta. A bailarina não quer ficar sentada (risos).

Já era uma vontade antiga?

Não. Foi um desejo recente. O acústico é agradável, carinhoso. Pensei que agora, fazendo o disco novo, de 30 anos, muitas canções ficariam bonitas nesse formato. E isso vai dar muita base para novas possibilidades. Como meu trabalho é essencialmente percussivo, estou sofrendo, não vou mentir.

Fez alguma adaptação?

Tenho cantado e ensaiado muito. E meu violão está quase um pandeiro. Quase um repique. É um violão que foi adaptado para mim. Está divertido. Todo trabalho musical tem uma parte de laboratório que é essa atual.

Qual a sua expectativa para esse novo show?

Vou mostrar algumas músicas do disco novo, desse jeito “sem roupa”. Em uma delas, que fiz em homenagem ao Gilberto Gil, por exemplo, digo que a música é a voz de Deus e Gil é a voz da música. Vou cantar também algumas coisas afro de Olodum, para homenagear esses grupos percussivos. Outra canção que vou mostrar, ainda não batizada, tem os seguintes versos: Meu dogma é a melodia/ heresia é não ter coração/ pecado é não ter poesia,/ batucada, voz e violão.

Falando em música e religião, o que achou do episódio da menina Kailane, que foi apedrejada ao sair de um culto de candomblé, no Rio?

Meu trabalho todo é de sincretismo. Fiz diversas música sobre isso, como a Rainha do Axé, que fala de Martin Luther King, Mandela e Mãe Stella. É uma homenagem ao candomblé e um reforço dessa luta contra intolerância.

Acredita que essas manifestações contra a intolerância religiosa ajudam?

Sim. As mães de santo fizeram passeata depois que tiveram seus terreiros invadidos, na Bahia. É fundamental que se mude o status dessa religião. O candomblé foi colocado na marginalidade por muitos anos e hoje as pessoas têm que reconhecer o valor dessa religião e respeitar os terreiros como lugares sagrados. E isso é um desafio dos espaços urbanos, porque as cidades aglomeram muitas culturas e tribos diferentes. É preciso respeitar. / MARILIA NEUSTEIN