Autora revela como mulheres de cabelo cacheado podem enfrentar preconceito e machismo

Autora revela como mulheres de cabelo cacheado podem enfrentar preconceito e machismo

Sonia Racy

25 de novembro de 2016 | 15h00

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Foto: Daniel Borges Zago

Foi a partir de sua própria experiência – com seus cabelos cacheados  – que a jornalista e cabeleireira Sabrinah Giampá resolveu criar o blog Cachos e Fatos, em 2012. Ela conta que, redescobrir o próprio cabelo, após 30 anos, de tratamentos químicos foi bem libertador. Agora, reúne toda sua expertise em O Livro dos Cachos, que acaba de ser lançado pela Editora Paralela. Nas mais de 140 páginas, a autora, além de dicas práticas, fala sobre questões como racismo, preconceito e democratização da beleza. Abaixo, o bate-papo da escritora com a coluna.

Como começou com o seu blog? O blog surgiu para mim como uma espécie de catarse. Redescobrir meu cabelo natural após 30 anos de torturas sufocantes como químicas alisantes, secadores e chapinhas foi libertador em todos os sentidos. Posso afirmar com todas as letras que não é só cabelo, é identidade. É um processo mais interno que externo, e isso é realmente uma experiência que transcende. Você passa a se reconhecer no espelho e faz as pazes consigo mesma. É impressionante como os preconceitos internalizados ao longo dos anos fazem com que você se mutile não apenas fisicamente, mas emocionalmente, e sem perceber. Assumir seus cachos naturais, além de ser um ato político que desafia a sociedade que nos estabelece desde o nascimento um padrão de beleza falso e cruel, é acima de tudo, uma experiência de empoderamento. É assumir a própria essência, é encontrar a felicidade nos braços do amor próprio, essencial para nossas conquistas diárias e realizações. E foi esse resgate da própria identidade que me fez descobrir minha missão na vida: ajudar outras pessoas a se libertarem também, a se amarem de verdade, e assim surgiu o Cachos e Fatos.

Qual foi o impacto que ele causou na sua vida e na de outras pessoas?
Quando falamos de cabelo e blog, a maioria das pessoas associam rapidamente à futilidade. Mas o Cachos e Fatos vai muito além disso. A estética é apenas a moldura de algo muito mais profundo. Muitas das minhas leitoras, principalmente as mulheres negras, tiveram a autoestima mutilada desde a primeira infância. Uma vez, li um artigo científico interessante, que dizia que o cérebro aprende por repetição, e acredito muito nisso. Pensa numa criança, que mesmo antes de aprender a falar sentiu a agressividade do pente quebrando os seus cabelos, os olhares zombeteiros, a sensação de ser inapropriada por conta da textura do cabelo e cor da pele. Isso é muito cruel. E meu papel é cortar esse mal pela raiz, afinal, mulheres empoderadas formam crianças empoderadas.

Quando decidiu que queria transformar sua experiência e relatos em livro?
Quando percebi que o blog havia atingido seu objetivo primordial, e se tornado uma grande rede colaborativa, onde mais e mais mulheres se ajudavam mutuamente, trocando experiências e dando força uma para as outras para enfrentar todo tipo de preconceito, que quem rema contra os padrões de beleza sabe muito bem o quanto são difíceis, percebi que tinha um diamante bruto em mãos. Pensava muito em transformar tudo isso em um livro que conseguisse levar essa mensagem para mais e mais pessoas, mas ainda não tinha elaborado um projeto e nem procurado nenhuma editora. Foi quando a Paralela (selo da Cia das Letras), me encontrou. Haviam descoberto meu humilde blog e enxergaram ali o que eu havia visto desde o começo: a rede colaborativa, e o livro conseguiu imortalizar isso.

Você dedica o livro às mulheres que já se sentiram inadequadas por não estarem de acordo com o padrão de beleza vigente. Como romper esses padrões?
Contestando. Escancarando os cachos pela rua, pelo mundo. Digo sempre isso às minhas clientes na Garagem dos Cachos (acabei também me tornando cabeleireira especializada em cachos por conta do blog). Já descobrimos que não precisamos nos encaixar nos padrões para enxergarmos nossa real beleza, como romper com os preconceitos? Com resistência. Mas este discurso é muito lindo na teoria, mas absurdamente difícil na prática. A pessoa tem que ter uma força sobre humana para não sucumbir. Pensa você numa mulher negra, com o black assumido no mundo corporativo? O racismo está tão enraizado na nossa cultura, que tudo que se aproxime do negro é repudiado, e é isso que está por trás do preconceito velado que vemos por aqui. É muito fácil uma pessoa branca dizer que não existe racismo no mundo corporativo, quando não é chamada para a saleta ao lado com um discurso de ‘cabelo profissional que transmita seriedade’. É a mesma coisa que pedir para uma funcionária de olho azul usar lentes castanhas para ser competente. E isso acontece o tempo todo. O difícil é manter a resistência com uma casa para manter e 8 filhos para sustentar. Por isso que ainda temos um longo trabalho de denúncia a fazer. Sempre oriento a todas sobre injúria racial, não dá para se calar, tem que fazer barulho mesmo.

Quais são as maiores dificuldades que as mulheres de cabelo cacheado enfrentam?
O racismo e o machismo. O primeiro é o que eu citei acima. O preconceito velado que repudia tudo que se associe à identidade africana, e o segundo é a questão de atrelar a feminilidade e sensualidade da mulher ao cabelo longo e liso, o que faz com que muitas mulheres desistam de assumir o cabelo natural e fazer um simples corte de cabelo se tornar uma espécie de amputação. Muitas que fazem o big chop à máquina comigo (grande corte onde se remove a parte alisada) me relatam os absurdos que escutam de conhecidos e familiares: – Você está com câncer? – Quer virar homem? – Trocou de sexualidade? – Vai perder o marido, cuidado! – O que é que você fez? Já tive casos do namorado terminar o relacionamento por conta disso. Por outro lado, se um homem raspa o cabelo, ou faz um corte curto, é algo natural. Ninguém comenta.

Acredita que isso é algo mundial ou uma particularidade do Brasil?
O racismo infelizmente não é uma particularidade nossa, mas acontece aqui na maioria das vezes de forma velada. As pessoas chamam uma pessoa negra de morena, como se denominá-la negra fosse uma ofensa, e ao mesmo tempo falam que o cabelo dela é ‘inapropriado para aquele cargo’, que precisa ser alisado. Já o machismo é um pouco mais escancarado. Se compararmos com o Canadá, e alguns países da Europa, estamos anos luz de distância.

Abandonar a escova é algo libertador?
Poder tomar chuva sem se preocupar, viajar para praia sem se preocupar com a voltagem do hotel e não perder a confraternização com os amigos porque está secando o cabelo é realmente indescritível. (risos)

Chimamanda Ngozi Adichie já escreveu sobre a importância do cabelo na afirmação da identidade feminina. Acredita que ainda temos um longo caminho pela frente na luta contra o preconceito e na aceitação da mulher?
Chimamanda pra mim é uma das maiores autoras feministas da atualidade. E  sim, ainda temos um longo caminho pela frente na luta contra o preconceito e autoaceitação. A boa notícia é que estamos aos poucos ingressando na era da democratização da beleza, mas para que esta seja concluída, precisamos quebrar estes padrões cruéis de uma vez por todas. Com as redes sociais, o movimento feminista e militância negra ganhou forças, e as sementes estão sendo plantadas. Vamos fazer nossa parte, regar, e esperar/ MARILIA NEUSTEIN