“ATUAR NÃO PRECISA SER UM PROCESSO DOLOROSO”

Sonia Racy

19 de novembro de 2012 | 01h10

JULIA RETTMANN/ESTADÃO

Durante passagem por São Paulo, James Franco falou de seu lado professor e dos projetos cinematográficos.

James Franco é um dos galãs do momento em Hollywood. Ao lado de Ryan Gosling, Jake Gyllenhaal e Bradley Cooper, o ator sedimenta a nova geração de bonitões da indústria do cinema americano. O moço, no entanto, – claro – não gosta do rótulo de rapaz bonito. E, apesar de ter despontado no cinema por seu papel no blockbuster O Homem Aranha, é duro, seco e direto na resposta sobre os diretores com quem gostaria de trabalhar: “Se eu só pudesse trabalhar com Gus Van Sant e Harmony Korine pelo resto de minha carreira, ficaria feliz”, fala o ator, cheio de certeza.

Seguindo a linha dos já consagrados George Clooney, Johnny Depp e Brad Pitt e inclinado ao tipo “cult”, ele quer se sobrepor ao título de rostinho bonito e busca ganhar a credibilidade da crítica, aceitando papéis como Scott Smith, em Milk, e Aron Ralston (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), em 127 Horas. Além de encarar o desafio de dirigir pequenos curtas-metragens. “Eu não acho atuar algo difícil. Para mim, é muito natural”, diz.

Franco passou pelo Brasil, semana passada, para a inauguração da loja Gucci – marca da qual é garoto propaganda há 4 anos – no Shopping JK. Recebeu a coluna para entrevista exclusiva no Fasano, durante passagem relâmpago pela capital paulista. Apaixonado por artes, esse californiano – filho de uma escritora – fez questão de visitar a Bienal e anotar impressões. As referências artísticas, aliás, estão na ponta da língua quando o assunto é seu curta Joan of Arc, exibido por ele no Bar Numero: “Busquei inspiração em La Notte, de Antonioni”, relata.

Além da exposição, o ator foi a uma casa noturna, restaurantes renomados e aproveitou para… ler. E leu muito. Até a um jantar levou a tiracolo o livro The Executioner’s Song, de Norman Mailer, do qual não desgrudou também durante a sessão de fotos para a coluna. Por que tanta dedicação? Diz estar preparando aulas, já que é professor de direção e artes performáticas em universidades como UCLA e NYU. A história – sobre a execução de Gary Gilmore no estado de Utah –, afirma Franco, pode também se desdobrar em um futuro projeto para o cinema.

O interesse do moço pelas artes não se repete no campo político. Na contramão de muitos colegas que se engajaram nas últimas eleições americanas, fazendo campanha para seus candidatos, Franco fica desconfortável com o tema: “Você não vai querer me perguntar sobre isso”, afirma, emendando com um rápido e também direto “fico realmente feliz que Obama tenha sido reeleito”.

A seguir, os melhores trechos da conversa.

Como foi a experiência de dirigir o curta Joan Of Arc?

Foi ótima. Tive um design de produção muito legal. E como não é para o cinema, não há o mesmo tipo de pressão para contar essa história de uma maneira mais convencional.

É verdade que você usou referências do cinema italiano?

Sim. Essa produção foi muito inspirada no filme mudo de Dreyer, A Paixão de Joana d’Arc. E também em La Notte, de Antonioni.

Um dos próximos filmes que você protagoniza, Oz, será lançado em breve no Brasil. O que achou de trabalhar no longa?

O filme é inovador e diferente de tudo o que já vimos. Quando entrei no processo, já estavam trabalhando nele havia um ano. Já tinham, inclusive, convidado Robert Downey Jr. e Johnny Depp para o papel. Mas eles não puderam. Então, Sam Raimi, o diretor que é meu amigo, me pediu para fazer. E eu pensei: “claro”.

Como você também dirige filmes, quando está atuando, presta atenção na direção, dá palpites ou não?

Não… agora que posso dirigir meus próprios filmes, não tenho essa necessidade. Não preciso me impor ao diretor. Tipo, hoje, fizemos uma sessão de fotos. Não preciso dizer: “Ah, devo posar aqui ou ali”, certo? Vocês que decidem.

E o que você considera mais desafiador e instigante na hora de interpretar?

Na verdade não acho que atuar seja muito difícil. Faço isso há 16 anos e trabalho com pessoas boas. Então é fácil.

Você foi fotografado, chegando ao Brasil, segurando o livro The Executioner’s Song, de Norman Mailer. É para algum trabalho?

Sim, sou estudante de doutorado da língua inglesa e, de fato, leio muito. E esse livro, particularmente, tem mil páginas e ganhou o Prêmio Pulitzer em 1980. E é uma linda obra sobre um homem, Gary Gilmore, que foi julgado e condenado por assassinato nos Estados Unidos. Trata-se de um caso bem polêmico. Como dou aulas, vou usá-lo com meus alunos.

Poderá virar um filme?

Bom, podemos transformá-lo em um projeto, sim.

Sua mãe é escritora, você acha que é daí que nasceu o seu interesse por literatura?

Sim. Fui criado em volta disso e ela me incluía no processo criativo. Isso acaba criando uma forte influência. Mas, atualmente, acho que eu a influencio (risos). Ela atua em meus filmes e fazemos diferentes tipos de projetos.

Ainda sobre literatura, você gravou vídeos para o escritor Gary Shteyngart, certo?

Sim, ele foi um dos meus professores favoritos na Universidade de Columbia. E, quando seu livro mais recente saiu, fizemos um trailer do livro, nos moldes dos que são feitos no cinema.

Do que você dá aulas?

Eu ensino direção de filmes. Mas também dou aulas sobre como escrever ficção, sobre artes performáticas e atuação. Leciono na UCLA, na CalArts, UFC e também na NYU.

Qual foi o personagem mais importante que você já interpretou?

É difícil dizer. Tive um monte de experiências positivas. Quando fiz Segurando as Pontas foi um papel divertido. E justamente em uma época em que eu precisava aprender a relaxar e a me divertir. Percebi que atuar não precisa ser um processo doloroso. Já em Milk e a A Voz da Igualdade pude trabalhar com alguns de meus heróis – Sean Penn e Gus Van Sant.

Existe algum diretor de cinema com o qual você gostaria de trabalhar?

Se eu só pudesse trabalhar com Gus Van Sant e Harmony Korine pelo resto de minha carreira, ficaria muito feliz.

Muitos atores se envolveram nas campanhas da última eleição. Política é algo que te interessa?

Um pouco, mas você não quer me perguntar sobre isso.

Não?

Fico feliz que o presidente Obama tenha sido reeleito. Estou muito feliz.

Você está no Brasil para a abertura da Gucci e parece apreciar moda. Qual é seu estilo? O que veste?

Gosto muito de suéteres. Suéter apertado, como o pessoal da Gucci lhe diria. Peço todos os suéteres novos a eles. E gosto de jaquetas de todos os tipos: de couro, jaqueta marinha, casacos de chuva, esse tipo de coisa.

Como a Gucci te convidou para esse trabalho?

Trabalho com a marca – acabo de perceber – há quatro anos. Esse evento em si veio como todos os outros, sabe, que é sempre conversando, falando sobre fazer coisas./MARILIA NEUSTEIN

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