As regras à mesa, entre os amigos de Temer

As regras à mesa, entre os amigos de Temer

Sonia Racy

12 de maio de 2016 | 01h12

ARQUIVO PESSOAL

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O grupo de bacharéis (ao lado) reúne-se para almoço, todas as sextas-feiras, há mais de 30 anos. Começou no velho Cadoro e de lá se transferiu para o Esplanada. Depois para o Bela Sintra e, faz pouco tempo, para o Parigi. São advogados, juízes, até ministros do STF, e promotores. Alguns, como é o caso de Michel Temer, cooptados pela política.

Sem qualquer hierarquia ou mínimo cerimonial os lugares da mesa vão sendo ocupados, pelos comensais, à medida que chegam. Regada a vinhaços e caipirinhas, a pauta de conversas é inteiramente livre, variando de breves comentários sobre a atualidade às últimas fofocas. O único tema proibido é a conversa jurídica séria. “Por isso, quem se meter a falar de preclusão consumativa, ou do princípio da anterioridade da lei eleitoral, recebe dos companheiros um reprovador e sepulcral silêncio”, diz Manuel Alceu Affonso Ferreira (que não está na foto). O grupo já chegou a ser chamado, certa vez, de “amigos da lei” – mas ele discorda. “Acho inapropriado, desde logo porque soa pretensioso”. Por sinal, nem se acha tanto assim “amigo da lei”, pois nutre “profunda inimizade por algumas delas”.

O clima do grupo “é sempre de irreverência e bom humor”, destaca Eduardo Muylaert. “Ao contrário do que se pensa, não se trata de um celeiro de colaboradores” do hoje presidente. Ele apresenta sua definição: “Na maioria, cada um já deu sua contribuição. Aqui a amizade basta. Michel é admirado como um advogado que soube combinar o perfil de professor de direito com a ação política que agora o leva à Presidência”. E acrescenta: “Nada vai ser diferente se, numa sexta-feira qualquer, chegar sem séquito e sem aviso o presidente da República”.

E agora, já que as coisas estão como estão, pode-se perguntar: o que esperar de um governo Temer? “Uma transição de dois anos que permita chegar às presidenciais de 2018 com a economia sob controle e os ânimos apaziguados”, pondera Muylaert. E tudo “dentro do respeito à lei, pondo fim às prestidigitações que marcaram a última gestão”. Ressalta que o vice-presidente acredita “na sensibilidade política e formação jurídica do vice-presidente. E acha essencial “sair logo desse quadro de divisão radical”.

Manuel Alceu espera que, na cadeira presidencial, o amigo – “que sabe ouvir e prestar atenção” – consiga “resistir, sem temer, à forte reação” que virá contra as duras medidas que a economia exigirá. E espera que ele “não utilize os condenáveis métodos de negociação hoje adotados na política brasileira”. Em sua visão, Temer tem, sim, recursos para tanto: “É paciente, sabe ouvir, não esquece de responder…”

Outro jurista próximo do grupo, Eros Grau, não esconde as boas lembranças que guardou com o passar do tempo. “Não havia identidade ideológica completa entre nós – o tempo nos mostrou – mas éramos universais. Gente de fora da área jurídica, da FAU, da Poli, da Filosofia… Dito o que, ele retoma o presente: “Leio em um jornal, agora, que o Serra fará o possível para ajudar um eventual governo Temer. O tempo passa mesmo, de verdade, felizmente dando voltas sobre si mesmo.”