“AS PORTAS JAMAIS SE FECHAM PARA QUEM É CORRETO”

“AS PORTAS JAMAIS SE FECHAM PARA QUEM É CORRETO”

Sonia Racy

20 de agosto de 2012 | 10h57

PAULO GIANDALIA/AE

A frase é de Muricy Ramalho. Seria um recado para quem acha que, convidado, ele não aceitaria ir para seleção?

Muricy Ramalho está, mais uma vez, na berlinda, cotado para assumir a seleção brasileira – sonho quase realizado no fim de julho de 2010, quando recebeu convite do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, após o fiasco de Dunga na África do Sul. Recusou.

Acabou ficando no Fluminense, decisão que surpreendeu muita gente. Se a porta se fechou? Ele acha que não. Obcecado pelo dia a dia no clube (daí a frase famosa “aqui é trabalho, meu!”), acredita que sua postura dentro e fora de campo é a melhor credencial para o cargo. Aliás, para qualquer cargo.

Aos 56 anos, tetracampeão brasileiro – três vezes pelo São Paulo e uma pelo Fluminense – e campeão da Libertadores com o Santos, o ex-craque do Tricolor aprendeu o duro ofício de treinar times com Telê Santana, mas teme se tornar vítima do futebol, como aconteceu com o mestre. “É muito sacrificada a nossa vida”, adverte.

Para piorar a situação, Muricy odeia com todas suas forças, perder – tem 15 títulos em 18 anos de carreira e é amado por torcidas de norte a sul do País. Por causa disso, está sempre concentrado, às voltas com estratégias de jogo, e na mira dos adversários, que sabem o risco que correm ao enfrentar os times que ele comanda.

Em entrevista à coluna no CT Rei Pelé, em Santos, no começo deste mês, Muricy falou sobre o futuro (“estou pensando, sim, em me aposentar, mas não é para agora”); os fantasmas da Copa de 1978, que ainda o assombram; e a necessidade de ficar mais com a família.

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Por que você não gosta de dar entrevistas?

Na verdade, eu não gosto é de entrevista coletiva. É um negócio muito chato, repetitivo. Os jornalistas reclamam que eu respondo sempre a mesma coisa. E têm razão, eu faço isso mesmo, mas é que eles fazem sempre as mesmas perguntas (risos). Além disso, tem muito jornalista esportivo que não sabe o que diz, não entende nada de futebol. Se você quiser falar de tática de jogo, de trabalho, eu falo até amanhã. Agora, coletiva é uma coisa chatíssima. Por isso que eu falo só uma vez por semana. E acho muito! Antes, falava duas, três vezes. E era um problema.

Quem é o melhor amigo do Muricy técnico de futebol?

Eu tenho o meu auxiliar técnico, o Tata, que é meu melhor amigo como profissional. Mas minha melhor amiga é a minha esposa, sem dúvida, que me acompanha há mais de 30 anos.

E quem é o melhor jogador do mundo hoje?

Ah, o Messi. Tem também o Cristiano Ronaldo. E o Neymar está bem perto. Eu tenho certeza que o Neymar ainda vai ser o melhor do mundo. Tem muito para corrigir ainda, tem de ir para a Europa, pegar um outro tipo de mercado.

Que time, na sua opinião, seria o melhor para o Neymar?

O Barcelona. Lá eles valorizam a parte técnica e o jogador.

Quem foi o melhor técnico e quem é o melhor hoje em dia?

O Telê, pra mim, foi o melhor. Ele me ensinou muito, né? Foi meu técnico quando eu jogava. Depois que parei, ele me chamou para ser auxiliar técnico. Tenho uma personalidade muito parecida com a dele, e isso facilitou muito as coisas. Hoje em dia, o Guardiola é o diferente, que sabe ver o jogo, sabe falar com os jogadores, é muito bom.

É verdade que você está pensando em se aposentar?

É uma vida cansativa. E eu estou um pouco cansado da rotina do futebol, que é muito desgastante. Ainda mais pra mim, que sou muito caxias. Praticamente moro aqui no CT, sou muito apegado, estou sempre acompanhando tudo, não abandono. Isso custa saúde, custa família. Você não vê os filhos crescerem. Eu tenho três filhos e não os vi crescer. Não tenho tempo para os amigos. Isso vai pegando, é muito complicado.

Mas não tem parte boa?

A parte boa é que, depois de todos esses anos, já não aceito mais pressão de ninguém (risos). Pô, meu, eu morei sozinho na China, quando fui treinar o Shanghai Shenhua (em 1998); morei sozinho em Recife (quando treinou o Náutico, entre 2001 e 2002) e em Florianópolis (quando foi contratado, em 2002, pelo Figueirense). É uma vida, muitas vezes, solitária. Isso me machuca. Para muitos técnicos é normal; para mim, não.

Quer sair do cenário antes que te custe demais?

Quero evitar para mim o que aconteceu com o Telê. Ele ficou doente por causa do futebol. Tenho certeza disso, afetou muito os nervos dele. Todo dia estava no campo, era um obsessivo, como eu também sou. E não quero isso pra mim, quero sair a tempo de poder ficar com a minha família. Mas não se trata de me aposentar agora…

Pensa na seleção? Arrepende-se de não ter aceitado o convite do Ricardo Teixeira em 2010?

Penso, claro. Quero ter a minha chance. E não acho, como muita gente disse na época, que eu fechei as portas na CBF por não ter aceitado o convite. O que aconteceu é que eu tinha empenhado minha palavra ao Fluminense… e minha palavra vale mais do que qualquer outra coisa. Eu quero é dormir tranquilo de que fiz a coisa certa. E a coisa certa, naquele momento, era ficar no Fluminense. Se me arrependo? Bom, fui campeão brasileiro lá naquele ano. Graças a isso, vim para o Santos. E aqui conquistei a Libertadores no ano passado, tive a chance de disputar o mundial. Se estivesse na seleção, nada disso teria sido possível. As coisas acontecem por alguma razão.

Acha, então, que as portas da CBF estão abertas?

As portas jamais se fecham para quem é correto. Acredito muito nisso. Eu fui absolutamente correto naquela ocasião. Agora, não dependo de ir para a seleção para ser feliz. Sou um cara realizado, não preciso de trampolim para me valorizar.

Teve vontade, alguma vez, de treinar times europeus?

Não. E poderia ter ido, bastaria ter falado com os empresários certos. Na minha vida tudo aconteceu de forma muito natural e nunca me organizei nesse sentido, nunca foi um desejo.

Quando você ganhou seu primeiro título paulista (pelo São Caetano, em 2004), fez questão de ressaltar o legado do Tite, que havia montado a equipe. Vocês são muito amigos?

Não somos tão amigos, porque o futebol acaba afastando as pessoas mais do que elas gostariam. Mas eu respeito muito o Tite, por tudo que ele faz em campo e pela postura fora de campo. Naquele episódio, ele me ajudou, porque eu herdei um time pronto e fui campeão. Acho que a coisa mais importante na vida é ser grato. Aqui no Santos, quando fomos campeões paulistas, eu também me lembrei do Marcelo (Martelotte), que era o treinador antes de mim. Tem gente que não vê problema em ficar com o louro dos outros, mas eu não preciso disso, nunca precisei, meu trabalho é muito reconhecido. Não é com essas coisas que você vai fazer diferença – aliás, muito pelo contrário. Não faço mais do que a minha obrigação em agradecer a quem merece.

Em 1979, você quase veio jogar no Santos. O que aconteceu de errado?

Ah, jogador era meio escravo naquela época. Não havia lei para nos defender. Os clubes eram donos da gente. E o São Paulo não aceitou a proposta que o Santos fez.

No seu tempo de jogador, você usava um cabelão rebelde. Como é que vê, hoje, essa garotada (vide Neymar) com tanta preocupação com o visual?

Os caras parecem estrela de rock! Eu usava mesmo um cabelo grande, e o pessoal enchia o meu saco. É por isso que eu, como técnico, não tô nem aí. Eles usam brinco, pulseira, um monte de coisas. Os cabeleireiros vêm na concentração. Eu fico abismado. Antes do jogo, eles ficam no espelho, é um tal de tirar brinco, colar, pentear o cabelo. E as roupas? Jeans rasgado, mas caro, viu? É muito diferente da minha época. Esses moleques parecem atores.

Como era o Muricy jogador fora de campo?

Eu usava aqueles macacões americanos, sabe? Tamanco… Gostava de rock, ouvia Rita Lee, ia nos botecos do centro de São Paulo, que eram os únicos lugares que a gente podia frequentar sem chamar a atenção. Porque jogador de futebol era um cara meio… tinha fama de malandro, vadio.

Você gosta dessa tecnologia que cerca os jogadores hoje? Celular, Twitter, iPod…

Aceito tudo. Faz parte do mundo em que eles vivem. Acho muito importante respeitar a individualidade deles. Acho que isso explica por que eu passo muito tempo nos clubes: consigo separar meu lado mais duro dentro de campo e minhas atitudes fora dele.

Como é para um ex-craque como você ver um jogador errar um lance simples em campo?

Nossa senhora, acho que sofro mais que todo mundo. Porque eu jogava alguma coisa, né? E ver como alguns jogadores tratam a bola hoje em dia, meu Deus do céu (risos). Eu não gosto de usar expressões como “quando eu jogava…” com eles, porque não tem cabimento. Mas é duro pra caramba. A bola é redonda, pô, muito melhor hoje do que na minha época, os campos também são melhores, as chuteiras. Para mim, que joguei um pouquinho, é muito sofrido.

Por falar em sofrimento, você ainda pensa na contusão e no corte às vésperas da Copa de 1978?

Ah, foi o momento mais triste da minha carreira. Eu estava muito bem, muito bem mesmo. Seria convocado com certeza. Não para ser titular, ia para ser reserva do Zico. Aí aconteceu aquela contusão no joelho, que, na época, era muito séria. Acabei não indo para o Mundial e isso me marcou pra sempre.

Você não costuma separar as carreiras como jogador e treinador?

Não, carreira é carreira.

Como foi na China?

Muito duro também. Eles estavam começando a se abrir para o capitalismo e o pessoal do Shanghai Shenhua queria mudar tudo. Chegou à conclusão de que o melhor modelo para ser seguido era o brasileiro. Mandaram os emissários para cá, eles foram ao São Paulo e me convidaram. Mas o desgaste foi muito grande, porque era preciso transformar a mentalidade deles. E, ao mesmo tempo, mostrar resultados, porque o chinês não acredita em você, ele quer algo palpável. Enfim, ganhamos até o campeonato, mas logo depois eu vim embora. Nem peguei o prêmio pelo título (risos), depois eles me mandaram.

O que doeu mais? A derrota para o Barcelona na final do mundial, ano passado, ou a desclassificação diante do Corinthians na Libertadores da América deste ano?

Foram duas coisas difíceis. Mas a derrota para o Barcelona era mais aceitável, porque a diferença era muito grande. Eu não podia dizer isso antes do jogo, porque iam me chamar de louco, mas a gente sabia da dificuldade. Só teríamos chance se desse tudo certo pra nós e tudo errado pra eles. Aconteceu exatamente o contrário. O Barcelona era uma seleção do mundo… Agora, contra o Corinthians doeu mais, porque havia, sim, a chance de vencer.

Você é do tipo que aprende com a derrota?

Não. Acho isso uma hipocrisia. É coisa de gente que quer aparentar humildade. Mas, no Brasil, funciona. Você fala que é humilde e as pessoas adoram. Só que humildade, mesmo, é respeitar os menos favorecidos. No Brasil é assim: você engana as pessoas com essa conversinha de aprender com a derrota. O cara fala isso e depois chora. Isso é pura demagogia. Você tem de aprender é com a vitória, é ganhando sempre. Tem de odiar a derrota. Senão, será sempre um profissional mais-ou-menos. Eu não aceito isso nem no futebol nem na vida. E tenho esse monte de títulos. Eu choro quando ganho, mas você nunca me viu chorar por perder.

O que costuma fazer quando não está no CT nem dando entrevistas?

Fico com a minha família. A gente tem uma casinha em Ibiúna, num condomínio, que é o lugar de que mais gostamos. E outra no Guarujá, minha segunda cidade, que também adoro. Não sou de sair, não gosto de badalação.

E os teus filhos?

Não vejo tanto quanto gostaria, não. A Fabiola está com 30 anos; o Muricy Jr., com 22; e o Fabinho tem 17.

O Muricy Jr. chegou a jogar bola também, né?

Jogou um pouco, mas viu que era uma vida muito sacrificada. Está se formando em Educação Física agora e eu vou trazê-lo, com certeza, para trabalhar comigo./DANIEL JAPIASSU