‘As pessoas morrem, as histórias têm de ficar’, reflete Rubens Ometto

‘As pessoas morrem, as histórias têm de ficar’, reflete Rubens Ometto

Sonia Racy

16 de maio de 2021 | 00h50

Rubens Ometto. Foto: Felipe Rau/Estadão

Foi numa conversa com Aguinaldo Silva que o empresário Rubens Ometto Silveira Mello, repassando seus 71 anos de vida, resumiu: “Desde garoto, fui uma pessoa que não aceitava as coisas impostas. Tudo tem de ser racional. Sempre fui um inconformista em aceitar as coisas como elas são”.

E assim foi definido o título do livro que o dramaturgo ajudou Binho, como é chamado pelos amigos, a escrever. Lançado, em março deste ano, O Inconformista conta passo a passo como o engenheiro, formado pela Poli, se tornou um dos pioneiros da modernização do setor sucroalcooleiro. Em lugar de se contentar em ser mais um dos muitos representantes de um setor considerado retrógrado, ele comandou a transformação da Usina Costa Pinto em Piracicaba, onde nasceu, em um dos maiores conglomerados do País.

Seu caminho incluiu brigas familiares e questionamentos de seus pares. “Ainda criança, eu já dava trabalho aos professores”, lembrou ele na entrevista que deu ao programa Show Business – que vai ao ar hoje à noite na Band. Com o passar dos anos, o jovem herdeiro assumiu as rédeas do grupo, promoveu um IPO cujo sucesso surpreendeu o mercado de ações, e acabou amadurecendo uma ideia: a de deixar a sua marca. “As pessoas morrem, as histórias têm de ficar, tem de deixar registrado como elas aconteceram”.

Desde cedo, segundo conta, o futuro já estava claro. “Eu sempre gostei de estudar negócios de empresários.” Nessa trilha, conheceu por dentro os dramas de uma empresa familiar. Ometto é defensor da profissionalização, mas entende empresas que têm dono. “É uma coisa muito boa, porque tem um comando claro, definido.” Entretanto, considera “muito ruim quando a politicagem toma conta das estruturas da empresa”. Foi por essa segunda razão que um dia, olhando as coisas à sua volta, decidiu-se por um caminho solo.

Por quase dez anos, ele exerceu cargos no Unibanco, na Votorantim e na TAM, até voltar ao grupo da família em 1986. A volta não foi fácil. “Tive uma disputa com meus tios, meus primos, depois outra mais suave com meus irmãos, mas foi tudo muito bem resolvido.” Ometto detalha esse “tudo resolvido”: na direção em que o grupo estava indo, “ia ficar todo mundo pobre”.

Durante 35 anos, ele viveu a trajetória de um empresário em construção. Na sua visão, os seus esforços e caminhos tomados deram bons resultados. Agora, na família, “todo mundo tem um patrimônio, ou ainda um dividendo constante”. Para Binho, as diferenças familiares foram superadas. E quanto ao Grupo como um todo? “Hoje ele é totalmente controlado por mim.” Ometto tem duas filhas, um genro, cinco netos. E, para o bem de todos, organizou sistemas de partnerships com pessoas que pensam como ele, entendendo que “ninguém faz nada sozinho”.

No topo dessa cadeia, o empresário plantou sua marca pessoal: “Eu sempre acreditei em empresa de dono”. Ele desconfia das “corporations”, que na prática, segundo ele, criam um clube que não é dono mas controla a empresa.

Na conversa, lembrou de frase antiga de Rolim Amaro, criador da TAM (a família Ometto foi sócia-fundadora da empresa aérea) que um certo dia, resolveu advertir um funcionário ambicioso. “Meu filho, trabalhe aqui na TAM como se ela fosse sua. Mas nunca se esqueça de que ela é minha.”
Adaptar-se aos novos tempos foi um dos desafios para o empresário – e novos tempos querem dizer, hoje em dia, focar na sustentabilidade. Organizou a virada e foi além: tornou-se um lutador da nova causa.

Sua ideia-mãe, entre tantas providências, é o etanol de segunda geração, produzido a partir do bagaço da cana. “Com ele você aumenta a produção de etanol sem aumentar a área plantada.” A Cosan, informa Ometto, é pioneira mundial nessa conquista, a única empresa a fazê-lo em escala industrial, com tecnologia que surgiu a partir de uma associação com a Shell. “Um produto requisitado no mundo inteiro, todo mundo quer comprar”, ressalta.

Além disso, acrescenta, o Grupo está ampliando em alta escala a produção do gás de biomassa, feito de linhaça. E daqui pra frente, qual o seu novo propósito? “Eu estou sempre pensando, desenvolvendo alguma coisa na cabeça. Como já disse, você não pode parar, precisa ser um inconformista.”

O assunto leva a conversa para a política, e o modo de entendê-la, para Ometto é, como em quase tudo mais, bastante pessoal. “A política faz parte das nossas vidas”, pondera, “você tem de ser político no casamento, político com os filhos, na empresa”. Dizer que empresário não deve se envolver na política “está errado, ele tem que se envolver”. Mas que ninguém entenda diferente, ele adverte, que o empresário tem de se candidatar a algum cargo público.

A propósito disso, ele traz à cena um episódio dos anos 1980, quando aconselhou o empresário Antonio Ermírio de Moraes, que saiu candidato ao governo paulista (em 1986), a largar a Votorantim. “Ele ficou bravo comigo!” Depois, acabou chegando a um lugar comum com o seu ex-patrão. “O ‘x’ da questão é que os políticos precisam da visão pragmática dos empresários”, completa.

E como não dá pra pensar em coisas pragmáticas sem falar da pandemia, ele traz de volta o seu olhar pessoal e otimista. “Estamos um pouco atrasados, mas a vacinação vem aumentando. Acredito que em junho, por aí, começa a haver sobra de vacina e com isso a economia pode voltar a rodar com mais tranquilidade”.

Quanto ao atual universo político conturbado, diz confiar nas correções que têm de ser feitas. “Estou aqui para continuar investindo. Tenho projetos novos que, quando amadurecerem mais, eu te conto…”

 

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