“AS PESSOAS ESQUECEM DO ANIVERSARIANTE DO NATAL”

“AS PESSOAS ESQUECEM DO ANIVERSARIANTE DO NATAL”

Sonia Racy

24 de dezembro de 2012 | 01h02

IARA MORSELLI/ESTADÃO

Fenômeno de audiência, Facebook e livrarias, Padre Marcelo fala sobre o espírito natalino.

Padre Marcelo Rossi, “o evangelizador moderno”, recebeu a coluna na véspera da semana natalina, em seu novo santuário, projetado por Ruy Ohtake e recém inaugurado em Interlagos. O templo – que comporta 25 mil pessoas – é resultado de uma antiga promessa, feita em 1997, ao Papa João Paulo II.

Sorridente, calmo e calçando um par de tênis de corrida, o padre chega logo falando de uma de suas aventuras na esteira ergométrica: “Olha só o que fiz no meu pé”, diz, mostrando a foto de uma lesão. “Tenho que tomar cuidado e não exagerar”. Apaixonado por corrida e formado em educação física, explica: “O exercício libera endorfina, que dá uma sensação de bem estar. Também a serotonina, que tem no chocolate”. O sacerdote, apesar de adorar, abriu mão do doce há dez anos. Emagreceu 12 kg. Promessa? “Não, saúde mesmo. Tenho que estar bem fisicamente para estar bem psicologicamente e espiritualmente”, conta. Além de corredor, é fiel torcedor do Corinthians: “Estou esperando os jogadores aqui. Acho que eles vão me entregar uma medalha. Estava rezando a missa na hora da final contra o Chelsea e, quando descobri que estavam ganhando, falei para o santuário inteiro”.

Para se adequar à era virtual, decidiu aderir ao Facebook. Gostou. Desde que foi criada, sua página já foi curtida por 34 milhões de “amigos fiéis”. Indagado sobre o Twitter, diz bem humorado. “Se eu fosse o papa – com todo o respeito – faria um Facebook, é mais legal”, afirma, ele, que chega a mobilizar milhares de compartilhamentos diários de suas orações. Fenômeno que também repete nas vendas de livros, CDs e DVDs. Nas livrarias, bateu o recorde de 8 milhões de exemplares com o best-seller Ágape.

Quando o assunto é Natal, Padre Marcelo é enfático: “As pessoas tiram Jesus do Natal. É como ir a um aniversário e não lembrar do aniversariante”, afirma. “É a celebração da vida”. Preocupado com o aumento do consumo exagerado, ele acredita que a educação religiosa auxilia no espírito natalino “Acho imprescindível. Se tivéssemos educação religiosa, haveria menos violência. Uma pessoa que estuda em um colégio religioso tem uma índole diferente”, afirma.
Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Como o espirito cristão sobrevive com o consumo exagerado do Natal?

É importante entender que o Natal é aniversário da vida. É nascimento. E, infelizmente, muitas vezes as pessoas tiram Jesus do Natal. Esse é o verdadeiro espírito natalino. Eu não tenho nada contra o Papai Noel, inclusive já me vesti várias como o bom velhinho por conta das crianças. Mas, às 23h 30min, nós nos unimos, rezamos um Pai Nosso, uma Ave Maria. E só.

Mas o senhor acha que essa onda de espírito natalino está enfraquecendo?

Sim. Por conta do comércio. Sabe por que eu fiz o livro Ágapinho? Fiquei assustado com os meus sobrinhos. Quando passei as férias com eles, jogamos três jogos que eram de morte. Quanto mais matava, mais pontuava. Então eu pensei: “A que ponto chegamos?” Se meus sobrinhos, que estudam em um colégio religioso, estão assim, imagina… No mundo de hoje, nós vivemos o culto da morte. Olha a situação aqui em São Paulo como está complicada.

Sente essa angústia nos fiéis?

Muito.

E qual a orientação que o senhor dá?

Levar esses presentes, como os Reis Magos fizeram. O incenso, portanto, oferecer a Deus a oração. O aumento do consumo faz com que a pessoa perca a conexão com Deus. Eu conheço várias pessoas que preferem ir ao shopping só para espairecer, resolver problemas. Na igreja você resolve seus problemas.

E os milagres, padre. Existem?

Na verdade, o milagre existe. Na partilha, uso a matemática divina. Quem divide, multiplica. O verdadeiro milagre está em você conseguir fazer a pessoa dividir aquilo que ela tem. O seu carinho, amor e o afeto com os outros em um mundo em que as pessoas estão cada vez mais egoístas. Portanto, é esse o milagre da multiplicação. Trata-se de tirar a pessoa do narcisismo e levá-la a se abrir ao outro.

E a compaixão, tão praticada no Natal, some ao longo do ano?

Aí está o grande problema. Como celebrar a vida a cada dia? Jesus dizia: “A cada dia basta o seu cuidado”. Muitas vezes, dentro da própria igreja, a pessoa está do lado da outra e não sabe o nome. Uma das coisas desse santuário, não sei se você percebeu, é a sensação de acolhimento.

O senhor vai passar o Natal com a sua família?

Infelizmente, há muitas brigas nas famílias, o que divide o Natal. Vou bater nessa tecla esse ano. Nem vou passar o Natal com a família, vou estar na rádio. Existem pessoas que estão sozinhas, que não têm ninguém, elas vão se sentir consoladas. Vamos formar uma grande família, são 150 emissoras.

Como o senhor vê a convivência inter-religiosa?

É preciso ter tolerância religiosa. Busquei isso quando escrevi Ágape – que quer dizer amor incondicional. Infelizmente, nós não vemos isso, principalmente em Israel, onde estive duas vezes. E justamente lá, um local que é sagrado para judeus, católicos e cristãos.

Mas e aqui no Brasil?

Conheço muitos evangélicos que têm respeito pelo meu trabalho. Entretanto, há outras pessoas que considero serem parte de uma seita. Jesus diz que se deve “amar até seu próprio inimigo”. Eu devo saudar e ser carinhoso mesmo que eu não goste da pessoa, seja qual for o credo. Isso que Jesus ensinou. Então, quando alguns evangélicos não me cumprimentam, vejo que é um fanatismo. “Fanatizou” de tal modo, que a pessoa acaba tendo ódio de você. Uma coisa que não é legal.

O senhor mencionou a questão da educação religiosa.

Acho imprescindível. Se tivéssemos educação religiosa, haveria menos violência. Uma pessoa que estuda num colégio religioso tem uma índole diferente. Faz uma grande falta, porque forma na criança o sentido de Deus. Nem que se fosse ecumênica, mas falta essa educação. Infelizmente, no Brasil, mal tem a aula comum. Então, acho que não ter uma educação religiosa favorece muito a perda do sentido do Natal.

Como está o novo santuário?

As pessoas perguntam para mim por que ter um santuário tão grande. Essa foi uma promessa que eu fiz ao papa João Paulo II, em 1997, de levar a palavra de Deus em todos os meios. Ele veio para o Brasil, conversou com 300 padres jovens e falou da importância de sairmos de nossas paróquias e irmos ao encontro dos fiéis. Na época, tínhamos 83% de católicos. Hoje, esse porcentual é de 67%. E apenas 4% de praticantes, segundo o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais – órgão responsável pelo censo da Igreja.

Uma boa queda, não é?

Mas houve uma outra impressão. Eram 83% que se diziam católicos, mas só 4% praticavam. Esse número subiu para 34% que frequentam a igreja hoje. As pessoas voltaram a ir à igreja.

A que fatores o senhor atribuiu essa diminuição no número de católicos?

Alguns se tornaram evangélicos ou deixaram de ser evangélicos porque caíram em seitas que pedem muito dinheiro e se tornaram agnósticos. Me assusta o crescimento do ateísmo no Brasil, que subiu para 12%. Número altíssimo. Na Europa, há muitos ateus também. Eles ficaram chocados com o novo santuário.

Por que?

Lá, as igrejas estão fechando.Eles ficaram impressionados com a abertura de uma igreja católica para 25 mil pessoas. E tudo aqui foi adquirido com o dinheiro doado dos meus CDs e DVDs. Sou padre secular, não sou padre religioso. Posso ficar com o que é meu. Vendi 8,2 milhões de exemplares de Ágapes, senão eu não conseguiria abrir o santuário…

O senhor doou o dinheiro das vendas do seu livro para a construção da igreja?

Integralmente para a construção da igreja. Tanto que vou lançar um próximo livro no ano que vem, Kairos. É chamado assim porque Kairos é o tempo de Deus.

O senhor recebeu o prêmio de evangelizador moderno e agora até o papa abriu uma conta no Twitter. Ele também está se modernizando?

É. Só que, se eu fosse o papa –com todo o respeito à sua santidade – eu teria um Facebook. Porque o Facebook é muito legal. Para você ter uma ideia, desde que comecei, em agosto, minha página já foi curtida por 34 milhões de amigos fiéis.

Padre, como bom corintiano, como foi rezar a missa bem na hora da final do seu time contra o Chelsea?

Nossa, o santuário estava lotado. O legal foi que teve fogos, eu estava celebrando e pensei “Meu Deus”, achei que era do Corinthians, mas era o fim do primeiro tempo. Aí me avisaram que o jogo ia terminar em dez minutos e falei na missa: “O Corinthians está ganhando.”

Acompanha o time?

Fui na Libertadores, inaugurei a capela ecumênica deles, rezei para os jogadores, pedi para não se machucarem, expliquei que não dá para separar espirito, corpo e mente. Até caí da esteira quando o Corinthians foi eliminado da Libertadores em 201o… O Tite frequenta a missa aqui. Vem toda quinta (quando não tem jogo) com a esposa. / MARILIA NEUSTEIN

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