Antonio Fagundes fala sobre Pantanal e critica o governo federal  

Antonio Fagundes fala sobre Pantanal e critica o governo federal  

Sonia Racy

12 de outubro de 2020 | 00h50

Antonio Fagundes. Foto: Alex Silva/Estadão

Após 44 anos de casa, Antonio Fagundes não tem mais contrato fixo com a Globo. Para ele, isso significa mais liberdade: “Estou livre para fazer o que eu quiser”. Mas mesmo sem elo fixo, o ator foi convidado para atuar no remake da novela Pantanal, revista pelo autor Benedito Ruy Barbosa e programada para estrear em 2021. No seu ver, a novela tem que ser rodada com urgência ante a triste devastação do bioma causada pelos incêndios que, até agora, consumiram nada menos que 26,5% da área. “Temos que mostrar o Pantanal ao Brasil de novo”.   

Aos 71 anos, Fagundes não foge de perguntas sobre política. E confessa sentir raiva e pena dos atores que assumem cargos políticos, como recentemente fez Regina Duarte e Mário Frias. “Eles não têm a menor noção de como funciona aquilo ali,” aponta. Fechado em sua casa no Rio de Janeiro desde  março, diz temer mais transmitir covid-19 para alguém do que padecer ele próprio do  vírus. 

Neste Dia das Crianças, ele relembra um projeto especial, de sua longa carreira, O Mundo da Lua, onde interpretou Rogério Silva – pai do personagem Lucas Silva e Silva, o menino que soltava sua imaginação por meio de um gravador. “São mais de 20 anos reprisando na TV Cultura, criando uma fidelidade tal que crianças crescem assistindo e depois mostram para os filhos.” 

O ator não acredita ter algo como um público fiel – apesar das 300 mil pessoas que foram ao teatro para assistir Baixa Terapia, temporada interrompida pela pandemia. Reconhece, entretanto, sua necessidade de dialogar com a plateia, mantendo aceso o interesse das pessoas. 

Fagundes sempre produziu suas peças para o teatro porque prefere escolher com quem atua e principalmente quem está ao seu lado na coxia: “Posso contracenar com um ator ou atriz extraordinária, que vai te dar mil prêmios, mas se o ambiente no camarim não é bom… prefiro não”. Entre os eleitos para atuar em Baixa Terapia estão: a atual mulher Alexandra Martins, a ex Mara Carvalho e o filho Bruno Fagundes.

Lembra que uma das primeiras peças, Os Fuzis da Senhora Carrar, de Bertolt Brecht, foi censurada pela ditadura, fato que o empurrou a trilhar a carreira teatral aos 14 anos. A censura o fez acreditar que aquilo que estava fazendo para se divertir era coisa importante já que incomodava tanta gente. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por videoconferência à  repórter Paula Bonelli.

Como enxerga atores liderando a Secretaria Especial de Cultura do governo Bolsonaro, primeiro Regina Duarte e depois Mário Frias?  

Tenho pena de atores que aceitam esse tipo de coisa. Eles não têm a menor noção de como funciona aquilo ali. Não é uma novela, é um circo com regras próprias. E dependendo do governo, as regras são mais loucas ainda. Agora, não tenho pena não de quem aceita trabalhar neste governo atual. Tenho até um pouco de raiva. A única proposta que temos visto nesses quase dois anos desta secretaria é a de acabar com a Cultura, uma proposta de desmanche, bastante coerente com a filosofia do governo que está desmanchando o meio ambiente, a saúde, a educação, e está quase desmanchando a economia também.

Houve algum acontecimento ou medida em especial que te deixou mais inconformado nos últimos tempos? 

Acho que é o conjunto, já vinha de antes da pandemia e agora se exacerbou. Começaram a fazer uma campanha de que os artistas mamavam nas tetas do governo. Você já percebia aí uma coisa de mau-caratismo. Eles eram contra a Lei Rouanet. Todo o patrimônio histórico brasileiro está sendo dilapidado, as sinfônicas não estão podendo sobreviver, calaram os circos. E espere: vão destruir também o cinema. 

Como se sente na pandemia? Tem medo?

Sim, como todo mundo que tem um pouco de consciência, estou preocupado com isso. Mas confesso que tenho mais medo de passar o vírus e ser responsável pela morte de alguém do que temer por mim.

Foi vingança da natureza? 

As epidemias da humanidade, como varíola e ebola, surgiram quando começamos a ter contato com animais que não deveríamos ter. Essa da covid-19 não será a última pandemia que a humanidade vai enfrentar. A gente precisa se preparar. Dá pra combater e prevenir se houver bom senso. Por exemplo, são imprescindíveis o uso da máscara e o distanciamento social até a descoberta de uma boa vacina. 

Tem projetos para agora, apesar da pandemia? 

Sempre produzi para teatro, desde 1975, mas em cinema não. Quero pesquisar gêneros no audiovisual. A gente quase não ousa, não tem filmes de ficção científica, de terror, de bang-bang.

Como foi a sua relação com o teatro no início?

Afinal, umas das primeiras peças que você fez acabou censurada, “Os Fuzis da Senhora Carrar”, de Bertolt Brecht. Exatamente. O Brecht já era um autor visado e comunista. Mas não montamos por isso, mas sim porque era um texto fantástico e impactante. No dia da estreia a peça foi censurada. Ela teve importância para mim porque me fez conhecer o Brecht com 14 anos; segundo, porque senti na pele a realidade brutal que vivíamos com a censura. E terceiro, achei que aquilo ali que eu estava fazendo mais para me divertir fosse uma coisa importante já que incomodava tanta gente…. 

Você tem um público fiel?

Não acredito em fidelidade, talvez atraia um interesse, mas sei que no segundo erro, mesmo esse público absolutamente fiel vai deixar de me assistir. O que acho que sempre tive foi uma necessidade minha, particular, de conversar com plateias e de formas diferentes. Se você pegar o meu currículo, eu fiz de tudo desde comédia, comercial, até aquela obra mais cult. 

A peça Baixa Terapia fala sobre o encontro de três casais na antessala do psicólogo. Já fez terapia? 

Não fiz. Penso que o trabalho do ator é um pouco psicanalítico, acaba se analisando diariamente quando é obrigado a ter compaixão pelo personagem que se está fazendo. Só se consegue interpretar um personagem se você compreendê-lo… 

O programa Mundo da Lua é lembrado por muitas pessoas com carinho. 

Nunca tinha feito nada para crianças até o Mundo da Lua, um grande trabalho do Flávio de Souza, que é um autor magnífico de obras infantis. Estava restrito ali a TV Cultura, mas acabou adquirindo uma dimensão monstruosa e é reprisado duas vezes por ano, há mais de 20 anos, na mesma emissora. Criou fidelidade com as crianças hoje já crescidas que por sua vez mostram a obra para os filhos. É muito bonitinha a trajetória de o Mundo da Lua.

Conte sobre o convite para atuar na novela Pantanal, passada na TV Manchete em 1990? 

Esse convite surgiu do Benedito Ruy Barbosa que considero meu irmão. Não teve uma obra dele que eu não tenha participado sempre com muito carinho. O Benedito é um autor fabuloso, além de ser uma pessoa queridíssima que conhece o “Brasil profundo” de uma forma única. Quando ele me chamou pra fazer o Pantanal, eu fiquei muito feliz. Mas isso ainda depende também de negociações com a TV Globo, ainda não acertadas. 

Por que a novela já está tendo repercussão? 

Acredito que seja porque o Pantanal está pegando fogo literalmente. Diria que é uma novela que precisa ser feita urgentemente, mostrando o Pantanal sem esses incêndios e, sim, com toda a biodiversidade e beleza. Temos que mostrar o Pantanal ao Brasil de novo. Fora isso, trata-se de uma grande novela, uma história com personagens muito fortes, bonitos, enraizados no nosso folclore, na nossa vida rural, de uma forma brilhante que o Benedito sempre consegue aprofundar. Então, tem tudo de bom. 

Em termos de audiência, essa questão dos incêndios ajuda ou atrapalha? 

Se não resolverem o problema que ainda está aí, vai atrapalhar a produção porque será impossível você filmar no Pantanal pegando fogo. Agora, se continuar assim, o bioma vai é deixar de existir. Aí, a novela, se feita, será uma peça de ficção científica ou uma lembrança de como era bonita a área e como hoje ela se transformou em um deserto.

É difícil atuar com alguém com o qual você não se dá bem ou não tem empatia? 

É, melhor não, né. Principalmente em teatro, como sou o produtor sempre monto o elenco, mesmo que o diretor sugira alguém eu aprovo ou não aprovo. Se a pessoa for mau-caráter, antipática, chata, irresponsável, indisciplinada, o clima no camarim será ruim e isso será transportado para a cena. Pode ter um ator ou uma atriz extraordinária atuando, alguém que vai talvez te trazer mil prêmios, mas se o tempo no camarim não for bom, eu prefiro não.

Como você encarou a interrupção do seu contrato fixo com a TV Globo? 

Quando entrei na Globo, levei alguns anos pra aceitar assinar um contrato de longo prazo porque estaria preso em uma emissora só. Mas acho, hoje, o contrato por obra encenada uma coisa boa para o ator e para empresa, no sentido que você tem mais liberdade. Estive trabalhando na TV Globo nos últimos 44 anos, recebi um milhão de convites para fazer coisas e eu não pude aceitar porque estava preso contratualmente à emissora. O fim do meu contrato é consequência de uma mudança operacional da empresa e não vejo isso como um problema não.

Como funciona o contrato por obra encenada? Você poderia trabalhar em outras emissoras? 

Agora eu estou livre para fazer o que quiser, o que também não me impede de acertar contrato para fazer Pantanal. Posso voltar a trabalhar na TV Globo por obra, faria o Pantanal e depois…estaria livre de novo.

 

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