‘Covid escancarou crise no patriarcado’, diz Anna Muylaert, após mudar roteiro de filme

Sonia Racy

22 de março de 2021 | 00h00

Anna Muylaert – Foto: Daniela Ramiro/ Estadão

A pandemia trouxe muitos momentos de reflexão para Anna Muylaert, mas também uma grande mudança. A diretora do sucesso Que Horas Ela Volta? aproveitou o momento forçado em casa para mudar o roteiro de seu novo longa. Influenciada pelas boas gestões de chefes de Estado como Angela Merkel e Jacinda Ardern no combate à pandemia – em detrimento de administrações como as de Trump e Bolsonaro – a cineasta quer mostrar em O Clube das Mulheres de Negócio, seu novo filme, uma espécie de mundo invertido, onde o gênero feminino ocupa os espaços de poder. “É um filme mais distópico, que procura chegar no tom da realidade que nós brasileiros estamos vivendo hoje”, explica à repórter Marcela Paes.

Votante do Oscar, Anna vê com otimismo a possibilidade de mudança no padrão das escolhas da Academia – que este ano apresenta lista de indicados das mais diversas da sua história. Para ela, este espelho precisa também refletir em maior número de cineastas mulheres na ativa. “Creio que só 17% dos filmes brasileiros, até 2019, foram feitos por mulheres”. Leia abaixo a entrevista.

Você já tinha escrito o roteiro de O Clube das Mulheres de Negócio há alguns anos, mas resolveu reescrevê-lo depois de observar a atuação de homens e mulheres governantes nessa pandemia. O que mudou?
Estou trabalhando há seis anos nesse roteiro, que fala sobre um mundo onde os papéis que os gêneros ocupam, em sua maior parte, estão trocados. Nele, as mulheres têm o poder e os homens são subalternos. Era um roteiro que falava mais sobre isso no cotidiano de pessoas comuns; só que quando chegou a pandemia, eu comecei assistir o negacionismo e frases absurdas do nosso presidente. Classificar a covid como “gripezinha”, sua completa falta de planejamento, de administração do problema. Liguei para minha produtora e resolvi subir o tom do filme. É um longa mais distópico, que procura chegar ao tom da realidade atual, a que nós brasileiros estamos vivendo hoje.

As elogiadas atuações da premiê da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e de Angela Merkel, da Alemanha, nessa crise, inspiraram essa mudança no roteiro?
Justamente, com a crise se desenvolvendo, observamos lideranças femininas agindo com responsabilidade. Acho que não precisa elogio maior do que esse. E constatamos várias lideranças masculinas, mais notadamente Trump e Bolsonaro, agindo de forma infantil e irresponsável. O filme tem a ver com isso, mas também promove uma reflexão. Acredito que o coronavírus escancarou uma crise no patriarcado, com todos os valores que vem acoplados a ele. O machismo, o pensamento competitivo e até diferença de classes. Mas não são só os homens que praticam isso, é algo que está na sociedade como um todo e não está confortável para ninguém.

Como mudar?
Acho que precisamos ver o mundo com valores mais femininos. Existe um desequilíbrio atualmente. Há um excesso de energia Yang, a masculina, que fomenta uma hiper valorização da produtividade e uma desvalorização da contemplação e da reflexão, que seriam os valores femininos, o Yin.

Você participou do Berlinale Co-Production Market apresentando esse roteiro. A recepção foi boa?
Com as mudanças, o filme ficou muito melhor e também muito mais caro. Aí nos inscrevemos e cerca de 70 pessoas quiseram falar com a gente. Acabamos fazendo 40 reuniões. Tem bastante gente lendo o roteiro, portanto existe uma boa chance de conseguirmos um coprodutor na Europa para nos ajudar nesse passo a mais que o filme deu.

O Festival de Berlim premiou muitos filmes rodados na pandemia ou sobre o assunto. Além do Clube das Mulheres, pensa em fazer algo sobre o tema?
O Clube tem essa inspiração, mas é um filme distópico. Estou fazendo um curta-metragem que é sobre a pandemia em si. Estou filmando inclusive com a Grace Passô, a Camila Márdila e a Dandara Pagu. Fizemos teste de covid em todo mundo e passamos o tempo inteiro de máscara. O filme começa com uma das personagens saindo do Emílio Ribas e ligando pra irmã avisando que a mãe morreu do vírus.

Como você está vivenciando esse isolamento?
A gente foi obrigado a parar, principalmente na minha área. Pela primeira vez fiquei em casa e cozinhei todas as refeições por um ano. Eu era uma pessoa que cozinhava só no fim de semana. Acho que na quarentena tivemos um retorno a algumas noções de comunidade, de estar junto. Quem não prestou atenção nisso ou ficou louco ou virou alcoólatra (risos).

Mas não foi difícil parar?
Olha, no ano passado, não. Dentro do caos geral, foi pessoalmente bom. Eu estava com o roteiro há cinco anos e arrumei coragem para começar de novo. Precisei desse espaço vazio. Só que a gente achou que voltaríamos a filmar em julho deste ano e quando chegamos no fim de 2020, vi que a vacina não ia ser tão rápida. Aí foi difícil, tive um momento de baque. Um ano sem trabalhar lidei bem, agora dois…

Estamos vendo algumas mudanças, principalmente no cinema. O movimento MeToo, maior inclusão no Oscar. É otimista com relação a isso?
Sim, sou. É engraçado porque no ano passado, em março, alguns dias antes de fecharmos tudo pela pandemia, aconteceu uma coisa muito louca na minha área, que foi O Parasita ganhar o melhor filme no Oscar. Um filme estrangeiro. Isso nunca tinha acontecido, foi uma unanimidade. Eu sou da Academia e votei também, nunca imaginando que iria ganhar nem ser classificado. É uma coisa muito grande. Se Hollywood saiu da curva completamente para honrar um filme falado em coreano e anticapitalista é porque a coisa está mudando.

Isso se reflete em postos de empregos para minorias?
O audiovisual ainda é bem masculino. A gente tem que pensar numa perspectiva histórica. O Cinema Novo, por exemplo, não tinha nenhuma diretora mulher. Ao longo desses anos, as mulheres começaram a dirigir e tudo mais, só que se você olhar, os números da Ancine dizem que só 17% dos filmes brasileiros, até onde eles levantaram, creio que 2019, eram feitos por mulheres.

Você e a Lô Politi lançam este ano o Alvorada, documentário sobre os acontecimentos no Palácio  durante o impeachment da Dilma. Como foi acompanhar a presidente em um momento tão crítico?
Foi muito forte, porque dentro do Palácio não acontecia muita coisa. Na verdade aconteceu um esvaziamento, quase um despejo de uma personagem ali, de uma “rainha”, vamos dizer, que está sendo tirada de um palácio. A cada dia menos gente, menos coisas, mais melancolia. Não foi fácil, tinha dias de muita angústia, sabe? De estar vivendo uma coisa muito ruim, uma angústia em relação ao Brasil.

Como ela lidou com isso?
Existe quase um embasbacamento com a forma com que ela lidou com a situação. Até onde vimos, a Dilma nunca levou para o pessoal. Ela não teve depressão nem mau humor. Ela olhava quase como uma antropóloga, como uma socióloga, ela dizia “meu Deus, isso vai ter consequências muito ruins para o País”. Mas nunca a vi deprimida ali, em nenhuma circunstância. Acho que esse é o grande trunfo do filme.

Foi fácil convencê-la a deixar vocês observarem de perto?
Ela já conhecia a Lô Politi, já tinha uma intimidade grande com ela. Dilma também me conhecia pelo Que Horas Ela Volta? e eu estava num processo de lutar contra o que classifico como golpe e me disponibilizei a ajudá-la. Também acho que ali ela já não tinha mais a perder, ela já estava perdendo. E a Dilma quis mostrar a narrativa do momento.

O Que Horas Ela Volta?, que foi seu maior sucesso, é um filme que fala de certa forma sobre as desigualdades sociais do País, retratando a relação de uma empregada doméstica nordestina com os patrões paulistanos. Abordar questões político-sociais do Brasil é uma constante no seu trabalho?
Eu tenho filmes que falam disso, que falam de outras coisas… Acho que o que é latente no meu trabalho é tentar entender o mundo e trazer alguma luz para as situações injustas ou desconfortáveis, às vezes é política, às vezes não. Eu acho o Que Horas mais sobre história do que política. Ele fala de uma herança do período escravocrata que segue nas nossas mentes e nas casas dos brasileiros até hoje. E é tão normalizado que as pessoas não percebem.

Acha que o streaming mudou a forma como as pessoas se relacionam com a produção audiovisual?
Mudou completamente. Antes você via menos filmes e tinha mais tempo pra digerir, então os filmes entravam na sua vida com uma importância muito grande e marcavam. Hoje não, você vê oito episódios, você acha legal e acabou. Cinco minutos depois você não se lembra nem mais qual era a série, se você viu ou não.

Acha que as obras também mudaram para se adequar ao ritmo das redes sociais?
Acho que o consumo do audiovisual, e nisso se inclui absolutamente tudo, de cinema a TikTok, tem muito mais a ver com vício do que há 20 anos. As pessoas estão viciadas, inclusive nas refeições. Você está almoçando e alguém te enfia um vídeo na cara. Eu, que trabalho com isso, fico muito chocada, reflexiva, porque o uso da função do audiovisual mudou demais. Hoje em dia eu sigo uma política de viciados em audiovisual anônimos, sabe? Por exemplo, só entro no Instagram uma vez por mês. Eu entro, posto, olho o que tem e saio. Acho esse negócio altamente viciante.

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