‘Acho que vivi machismo a minha vida inteira’, diz diretora de novelas

Sonia Racy

16 de dezembro de 2019 | 00h40

AMORA MAUTNER FOTO: SERGIO ZALLIS/GLOBO

 

Amora Mautner, uma das principais diretoras de
novelas da Globo, ressalta que quando homem é enérgico
ele é “eficiente’ mas quando isso ocorre
com uma mulher, “ela é louca’. Ela se prepara, agora,
para dirigir uma série sobre o goleiro Bruno.

 

Amora Mautner vai tirar férias, mas é pouco provável que deixe de pensar nos novos projetos que tem em mente. Antes de começar qualquer novela ou série, uma das principais diretoras do núcleo de direção da Globo pensa no conceito do trabalho – que envolve desde a escalação de atores até a trilha sonora.

E delega pouco. “Eu preciso que as pessoas estejam muito alinhadas em relação ao conceito. Tento entender o que é o DNA da novela e parto disso”, diz à repórter Marcela Paes. Depois do sucesso de A Dona do Pedaço, que terminou com dez pontos a mais no Ibope que a antecessora, Amora se prepara para dirigir uma série sobre o goleiro Bruno. Ela já dirigiu uma equipe em Assédio, inspirada nos crimes de Roger Abdelmassih. Nesse tipo de trabalho, redobra o cuidado. “Penso muito em cada cena para não passar nenhuma ideia errada”, explica. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A novela A Dona do Pedaço teve uma audiência acima da média. O que foi que ela teve de diferente?
Era um desejo meu e do autor que a novela fosse sobre esperança. O texto falava sobre felicidade, sobre potência mas, principalmente, sobre esperança. Eu acho que hoje em dia falar sobre esperança é um nicho, que o Walcyr (Carrasco) explora muito bem. Com isso em mente, começou a minha busca para música, trilha sonora, escalação dos atores…

Você faz questão de participar desses processos? Não costuma delegar?
Eu faço 100% da parte de conceito, que é essa parte grande que acontece antes de a novela estrear. Porque depois ela se dilui em várias frentes, pela própria estrutura… Então eu preciso que as pessoas estejam muito alinhadas em relação ao conceito, que vai do jeito de enquadrar a cena, do tom dos atores, da música. Eu pego muito pra mim essa coisa, tento entender o que é o DNA da novela. E eu parto disso pra começar.

Hoje em dia é mais difícil você conseguir boas audiências com novela? Era mais fácil há 10 anos?
Com certeza, acho que hoje em dia é muito mais difícil. Penso que hoje a gente tem uma competição muito maior para ter sucesso de público. Enfrentamos uma competição maior pela quantidade de opções que o público tem. Temos de estar atentos para fazer novelas que se comuniquem e peguem esse público que tem hoje outras opções de mercado.

Existe um desgaste do gênero?
A Dona do Pedaço é prova do que a gente consegue quando tudo é pensado direito. Não acho que esteja desgastado, acho que esse gênero é eterno, o melodrama. É um gênero que existe desde 1920 e nunca esteve tão atual. Muitas séries que estão fazendo sucesso agora não têm esse formato. A grande característica do melodrama é que nele a emoção é mais importante do que a razão. Por isso eu acho que, quando a novela é um melodrama, dificilmente dá errado.

Como a TV pode competir com os novos serviços de streaming?
No Grupo Globo, em que eu trabalho, a gente está fazendo isso muito bem, porque mantemos nosso público do melodrama clássico, mas também estamos explorando outros formatos, inclusive com o Globo Play. Em relação às novelas, eu acredito que o melodrama e a emoção é que vencem, mas eu posso estar errada. Nós estamos indo para essa competição.

Você dirigiu a Avenida Brasil, que foi um marco do gênero. Diria que se sente cobrada para repetir esse sucesso?
Não me sinto, porque na minha própria visão fiz outros trabalhos tão maravilhosos quanto Avenida Brasil e sempre importa muito o que a gente, a nossa subjetividade e a própria bolha apontam, né? Na minha bolha pessoal, Avenida Brasil é um dos trabalhos maravilhosos que fiz, mas houve outros também. Me sinto cobrada para fazer coisas em que me veja melhorando e aprendendo.

Se a novela não faz sucesso você leva numa boa?
Não, eu sofro muito por causa de audiência que não veio. É o pior, mas eu, ainda assim, sei que eu fiz o melhor que eu podia para me comunicar com o público, que no caso é o que sempre me interessa.

É verdade que você parou de ler críticas?
É, eu sou geminiana. Eu nem acredito muito em signo, mas eu sou (risos). Isso varia muito na minha dinâmica de vida. Às vezes, passo um tempão sem ler, às vezes eu leio, sofro. Às vezes não sofro, varia muito. Nessa novela foi tanto trabalho que não consegui ler.

Se abala quando vem uma crítica negativa?
Me abalo, claro. Fico abaladíssima. Principalmente quando eu concordo com a crítica. Quando não concordo, aí eu sofro achando que os outros não viram direito. Faz parte do negócio a crítica, né? Quando é boa eu fico feliz.

Você chegou a dizer também que você é intensa, mas não é tirana. Essa fama de tirana já a atrapalhou antes?
Não sei. Porque como eu não me vejo com essa fama, não consigo imaginar como as pessoas pensaram nisso. Mas eu tento cada vez mais me comunicar melhor, a ponto de mostrar que a intensidade nada tem a ver com tirania.

E o que é que você classifica como intensa?
Eu acho que é realmente cobrar muito, com muita intensidade. É a forma de falar. Eu sempre quero que a coisa fique melhor do que eu imaginei, e muitas vezes essa comunicação não acontece bem. Mas eu tenho estado bem mais calma, acho que estou ficando velha, mais do que intensa. Eu sou agora como aquela música da Mallu Magalhães, Velha e Louca (risos).

Você vê machismo nessa fama de tirana, por ser mulher e estar numa posição de comando?
100%. Eu acho que vivi machismo a vida inteira, porque quando um homem é mais intenso e enérgico ele é eficiente, quando é uma mulher ela é louca. No meu caso esse estigma foi criado muito por machismo mesmo, se eu fosse um homem isso nem existiria.

Ser filha do Jorge Mautner a preparou, de alguma forma, pra estar nesse lugar público?
Me preparou pra ter liberdade dentro disso. Ele me ajudou muito a não ficar tão refém da fama e a viver a vida de forma mais profunda e com menos nessa vaidade. Cada vez mais tento exercitar esse lado que meu pai me deu, que é de menos vaidade. Nesse mundo é complicado porque todo mundo é vaidoso. Mas o meu exercício hoje em dia é tentar dar menos bola pra isso do que para as outras coisas.

Acha difícil, vivendo no meio artístico, contornar isso?
Muito difícil. É um valor novo que a gente introjeta e tenta exercitar. Já sofri mais com isso do que sofro hoje.

Seu pai costuma falar sobre seus trabalhos?
No momento ele está em outra. Ele acha que eu sou ótima e pronto. Ele só vê jornal.

Você expõe pouco o seu relacionamento com o Arnon (Affonso de Mello). Por quê?
Hoje em dia a rede social virou uma coisa muito louca. Eu entendo o desejo de estar na rede social porque eu mesma estou, mas mais discretamente. Meu Instagram é fechado… Muita gente está perdendo a medida. Exponho pouco porque fico achando que interessa mais falar sobre trabalho.

Sente necessidade de se preservar em geral?
Exatamente. Eu vivo uma vida realmente muito íntima, com poucas pessoas. Já saí muito, hoje em dia eu tenho mais preguiça. Gosto de ficar em casa vendo séries, vendo TV, filmes, lendo.

Você acompanha política? O que acha do governo atual?
A gente está num momento muito difícil, complicado. Raramente estivemos tão mal quanto agora. Eu acompanho todas as votações do STF como se fossem uma grande novela. Fico tentando entender como aqueles juízes interpretam as leis. Na minha opinião, o maior problema do Brasil são as leis.

Quer dirigir cinema?
Sim, inclusive tenho um projeto de fazer um longa com o Rodrigo Teixeira. Estamos desenvolvendo o roteiro.

E teatro?
Tenho muita vontade de fazer infantil, o Rouxinol Imperador. Na época, a gente até chegou a conversar com a Sandy, ela seria o rouxinol, mas o projeto não foi pra frente. Tenho vontade de retomar essa ideia.

Você vai dirigir uma série sobre o goleiro Bruno e já dirigiu uma baseada em Roger Abdelmassih. Teme que, de alguma forma, isso glamourize essas figuras?
Penso muito para não passar nenhuma ideia errada. Tomo um cuidado extremo com isso. Nas cenas de estupro de Assédio eu fui bem detalhista para as cenas ficarem frias e mesmo sendo um estupro não terem um componente sexual forte.

O que faz para desligar?
Eu gosto muito de ficar vendo o Pinterest (rede social de imagens). Estou obcecada com física. Leio muito sobre relatividade gravitacional e acompanho aulas de cientistas como o Marcelo Gleiser, que tem um canal no YouTube. Espero que, quando me aposentar, eu consiga estudar física, relatividade gravitacional. Eu vou ser uma velhinha que estuda física. Daqui há uns dez anos eu faço isso.

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