‘Alunos dos EUA estão liderando protestos civis’, diz especialista de educação de Harvard

‘Alunos dos EUA estão liderando protestos civis’, diz especialista de educação de Harvard

Sonia Racy

21 Maio 2018 | 01h00

KATHERINE MERSETH

KATHERINE MERSETH. FOTO: ACAUÃ FONSECA

A crescente indignação de jovens americanos diante de massacres em escolas – e o protesto de alunos secundaristas que parou aulas em março para exigir restrição de vendas de armas – é uma novidade nos EUA, de acordo com Katherine Merseth, professora sênior da Faculdade de Educação de Harvard.

“Isso é novo para nós. Os alunos estão, de muitas maneiras, liderando os protestos civis. E agora temos greves de professores, que é uma coisa incomum nos Estados Unidos. Não é tão frequente quanto aqui (no Brasil)”, disse em entrevista a Paula Reverbel, antes de um adolescente matar dez pessoas em escola do Texas, na sexta-feira.

Merseth esteve em São Paulo no início do mês para lançar, na escola Fernão Dias, o livro “Desafios reais do cotidiano escolar brasileiro: 22 dilemas”, preparado por professores brasileiros e coordenado por ela. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a proposta do livro?
O Instituto Península queria desenvolver uma coleção de casos que retratam a prática de ensino em escolas Brasileiras. Trabalhei com 40 professores que eles selecionaram e ensinei como registrar esses casos. Eles escreveram os esboços e nós editamos e escolhemos os mais fortes. O que está no livro são 22 casos ao redor do País de desafios ou dilemas de dentro da sala de aula.

Quais foram alguns dos achados?
Os exemplos que eu acho que são poderosos são casos… Um é de uma professora dos arredores de Brasília cujo aluno queria escrever sobre as coisas boas do fascismo. Então era uma questão de liberdade de expressão. A professora deveria permitir? Nós vivemos dizendo que é para honrar os alunos, permitir que eles explorem. Mas quando é que se atravessa a linha do que realmente não se pode escrever? Isso é um exemplo de dilema. São problemas que não têm uma resposta clara. É muito difícil, pode se argumentar em favor de um lado ou do outro.

As histórias incluem o que aconteceu em cada caso?
Não, fica em aberto.

Você defende que professores devem se envolver em mais do que a educação formal dos alunos. Quando percebeu que questões sociais e emocionais são importantes?
Eu já fui uma professora de matemática do Ensino Médio. Quando comecei a minha carreira, eu realmente achava que a coisa mais importante era matemática. Conforme fui acumulando mais experiência, percebi que isso é secundário a ter uma relação pessoal, forte e próxima, de mentoria com os alunos. Quando você tem isso, aí você pode se ensinar matemática. Se você tenta começar pela matemática, sem reconhecer quem é o aluno, com que ele se importa, de onde ele vem, se ele está ou não com fome… Aí ele não vai aprender. Quando o corpo docente traz suas anotações amareladas e ministra aulas, os alunos fazem anotações e o conteúdo é transferido das notas de um para as notas do outro, sem passar pela cabeça de nenhum dos dois. Não estão pensando.

Você acompanha grandes questões da educação no Brasil?
Mais ou menos, preciso aprender muito mais. Mas a ideia é que, quando falamos de casos concretos, não estamos achando que vamos ensinar aos professores toda as experiências que eles terão. Haverá situações que nunca nos ocorreram. Mas, ao ensinar com casos, ensinamos uma maneira de pensar, de colaborar, de questionar. “O que é que eu penso sobre isso? Talvez eu peça a opinião de um colega e a gente converse durante o almoço.” É um método de analisar o que está ocorrendo.

Esse lugar em que estamos, a escola Fernão Dias, foi palco de um protesto de secundaristas, que fez o governo de SP recuar de uma reorganização da rede de ensino. Como vê o envolvimento de alunos com essas questões?
Curiosamente, sei de um caso que do Chile sobre justamente essa questão (da manifestação política de alunos). O diretor dessa escola em particular tinha alunos que queriam deixar a escola e fazer atos de rua. E o dilema dele foi se ele deveria deixá-los – já que ele havia ensinado sobre desobediência civil e tudo – ou se deveria proibi-los de sair. Deixamos aberto para discussão. Deveria se permitir que alunos protestem?

Vocês estão tendo essa discussão nos EUA devido aos protestos de estudantes contra armas.
Sim, mas isso é novo para nós. Os alunos estão, de muitas maneiras, liderando os protestos civis. E agora temos greves de professores, que é uma coisa incomum nos EUA. Não é tão frequente quanto aqui (no Brasil). Aconteceu no Kentucky, no Colorado e na Arizona. Professores disseram que não iriam trabalhar enquanto seus salários não aumentassem. E alguns governos vão pagar mais. Acho que os protestos que estamos vendo da parte dos professores é resultado de outros movimentos. Tivemos o Black Lives Matter. Tivemos o Occupy Wall Street, tivemos o Me Too. E agora o movimento Never Again, depois do massacre na Flórida.

O que acha dessas greves?
Acho que são boas. Os professores estão achando sua voz.

Aqui temos um grande problema com os baixos salários dos professores…
Eu não consigo entender porque, tanto nos Estados Unidos quando aqui, os professores são tão mal pagos. Simplesmente não entendo. Eu sempre digo que as crianças são 20% de população e 100% do futuro. O que poderia ser mais importante do que a qualidade do professor em frente da sua criança? Famílias estão se desintegrando, comunidades estão se quebrando. A escola é o último lugar em que temos todas as crianças, o tempo todo, dos 6 aos 17 anos de idade. Por que não podemos entender como é importante a função das escolas para a democracia?

Por que isso acontece?
Há vários motivos pelos quais isso acontece nos Estados Unidos. O primeiro é que ensinar era visto como um trabalho de mulher, que é menos valorizado. O segundo motivo é que ensinar é uma coisa muito comum – há um senso de que ensinar não é uma coisa especial, de que qualquer pessoa pode ser um professor, de que não precisa de treinamento, é só chegar e falar.

E o terceiro?
O terceiro motivo histórico pelo qual não pagamos bem os professores é este: quando eu estava me tornando uma professora, as oportunidades de carreira que eu tinha era de ser uma professora, uma assistente social ou uma secretária. Mulheres tinham menos oportunidades. Um exemplo concreto é a Harvard Business School. Nos anos 1960, uma sala com 100 alunos tinha três mulheres. Hoje, há mais mulheres que homens. Abriram-se as oportunidades para mulheres talentosas. Elas vão à faculdade de Medicina, à faculdade de direito. Então elas não vão dar aulas, já que não seriam valorizadas como professoras. E aí você não tem mais pessoas talentosas que optam por ensinar.

Como conseguir que os professores se atentem para o lado social e emocional dos alunos quando eles estão…
Cansados, mal pagos? É por isso que eu atuo fazendo tudo que eu posso para apoiar professores. Não há nada mais importante. A situação não está boa, nós não estamos educando as nossas crianças. Dependendo da sua visão política, você pode perguntar: “Como Donald Trump conseguiu virar presidente?” Ele se tornou presidente porque nós não ensinamos nossas crianças – e seus pais – a pensar. Só ensinamos como prestar um vestibular. Não ensinamos a formular a pergunta: “Como isso funcionaria?”. Por exemplo: “Como que construir um muro na fronteira entre EUA e México iria funcionar?”. Uma porção significativa da nossa população não faz a pergunta. Atribuo a responsabilidade pela divisão do nosso país à Educação (de má qualidade). Não ensinamos pessoas a pensar.

O que pensa de testes padronizados, vestibulares?
Precisamos de alguma forma de teste. O problema é que o tipo de prova que nós temos nos EUA não é pensado para avaliar raciocínio ou solução de problemas ou criatividade. Não sabemos medir isso muito bem. Até que possamos desenvolver testes que avaliem como as pessoas pensam, o quão criativas elas são, se elas conseguem trabalhar bem juntas, vamos continuar a ter aprendizado de baixo nível. Se eu conseguir criar um teste que avalia se alguém é criativo, professores vão tentar ensinar criatividade. Usamos um sistema de avaliações que pertence aos anos 1960 e precisamos de um método que seja para os anos 2050. Ainda não temos.